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Depressão – E quando a pessoa não aceita o tratamento?

Depressão: o que é possível fazer quando a pessoa depressiva não aceita ajuda? Como é possível intervir?

Por: Psicóloga Ane Caroline Janiro

Através de uma dúvida de uma leitora do blog, decidi falar sobre essa questão delicada, mas real em muitos casos de depressão: quando a pessoa depressiva não aceita o tratamento. O que fazer? Como a família pode ajudar e interferir?

Bem, conhecer bem a depressão é sempre o primeiro passo, pois ao saber exatamente do que se trata a doença, quais os sintomas e reações possíveis, é possível auxiliar da forma mais adequada. Leia aqui nosso artigo anterior, que sugere o que normalmente pode-se fazer por alguém que apresenta o quadro depressivo (Clique aqui). Assista também a um vídeo (clicando aqui) que explica a importância de buscar ajuda nos casos de depressão.

Após conhecer bem a depressão e saber que ela se trata de uma doença que ocorre por alterações químicas no cérebro, outros processos que ocorrem no interior das células nervosas e, possivelmente, influências genéticas, é preciso saber também que nem sempre a aceitação ao tratamento por parte do indivíduo será algo simples.

Esta aceitação ao tratamento envolve aspectos como:

  • A capacidade do indivíduo de se perceber doente, ou seja, saber que seu estado e as características que ele apresenta são sinais de que ele realmente necessita de ajuda especializada – é comum haver a negação da existência de uma doença, pode ser que o paciente responsabilize o seu estado atual a um acontecimento específico, a um relacionamento não-satisfatório ou outros eventos pontuais, como pode ser que ele se culpe e responsabilize a si mesmo;
  • Compreensão pelo paciente de que a depressão é realmente uma doença e o entendimento de como ela ocorre e quais os tratamentos adequados;
  • Confiança no trabalho dos profissionais (psiquiatra, psicólogo…) – muitas vezes existe o preconceito em relação a buscar auxílio de profissionais da saúde mental, por acreditar que não é comum obter este tipo de atendimento, que é algo destinado apenas a “loucos” – É necessário desfazer este conceito e orientar a pessoa de que buscar auxílio de um psiquiatra ou psicólogo é tão comum quanto buscar a qualquer outro atendimento médico;
  • Apoio de familiares e amigos – o indivíduo precisa sentir que tem a aprovação social para buscar tratamento. Ainda existe certo estigma em relação à depressão e aos pacientes que fazem acompanhamento psicológico e uso de medicamentos específicos.

E o que fazer então quando uma pessoa não aceita o tratamento?

É importante deixar claro que um tratamento bem-sucedido deve considerar a colaboração de todas as partes envolvidas: psicoterapeuta, psiquiatra, o próprio paciente e a família/amigos. Ou seja, apenas o tratamento medicamentoso, por exemplo, não é suficiente para um tratamento efetivo. Porém, realmente há casos em que a pessoa que apresenta sinais de depressão sequer aceita ajuda, não quer o tratamento ou mesmo ouvir um profissional. O que fazer nestes casos?

Não existe uma fórmula mágica para lidar com esta situação, muitas vezes este processo de “convencimento” do indivíduo pode ser longo e trabalhoso.

Embora haja algumas estratégias que podem ser adotada pelos familiares e amigos para auxiliar a pessoa a aceitar o tratamento, nem sempre essas medidas podem ser eficazes para todas as pessoas em situações semelhantes, pois cada pessoa apresenta conflitos muito particulares que merecem atenção individualizada.

Algumas dicas são:

  • Ao falar com o paciente, é necessário manter a paciência e a empatia e demonstrar acolhimento, além de deixar claro que ele é compreendido – é interessante mostrar que você entende que os problemas enfrentados por ele não são fáceis, demonstrar que, assim como ele, você enfrenta ou já enfrentou momentos difíceis – Ele precisa sentir que não está sozinho;
  • Evitar dramatizar demais a situação, provocando desgastes emocionais maiores ainda – Pesquise sobre a depressão e tente identificar os sintomas apresentados pelo paciente (como irritabilidade, insônia, alterações de apetite, apatia), mostrando a ele de forma clara que estas são características da doença. Tente conversar sobre como essa doença ocorre e por que é necessário o tratamento adequado;
  • Deixar claro ao paciente que você/família entende que ele apresenta uma doença e apoia o tratamento, que oferecerá o suporte necessário a ele;
  • Tentar fortalecer a autoestima do paciente, reconhecendo mesmo os menores progressos, suas características positivas e habilidades;
  • Entender que a capacidade de julgamento e entendimento do indivíduo sobre a sua própria situação pode estar alterada, por isso é preciso persistir, sem demonstrar raiva, irritação e sem perder a paciência, dizendo coisas como: “você nem está tentando”, “você não quer realmente ser ajudado”;
  • É interessante diminuir o excesso de estímulos, como televisão, rádio, computador… (não eliminar, apenas reduzir);
  • É preciso também respeitar o tempo da pessoa – Caso não haja uma situação de risco à integridade física dela ou das pessoas que com ela convivem, não force o tratamento de forma agressiva, impositiva. Apenas oriente, demonstre apoio, acolhimento, mostre-se disponível e deixe sempre claras as vantagens e a importância de buscar tratamento, mas respeite o tempo dela, às vezes é necessário que ela vivencie esta situação por um período antes de aceitar e estar aberta para aderir ao tratamento.

Situações de risco:

Há casos em que o indivíduo, que não aceita tratamento, oferece riscos à sua própria integridade física ou à das pessoas com quem convive. Um exemplo, são momentos de agressividade, e nesses casos é importante obter ajuda de outras pessoas e não lidar sozinho com o paciente.

Ao perceber que o paciente apresenta sinais de ideação suicida, é preciso avisar a todas as pessoas próximas, pois é necessário prestar atenção e zelar por sua integridade, deixando inclusive, o ambiente o mais seguro possível. Avisar a um especialista também é extremamente importante, pois ele poderá orientar às medidas que deverão ser adotadas e os locais em sua região/cidade que podem auxiliar a lidar com o paciente. (Saiba mais sobre como ajudar alguém com ideação suicida, clicando aqui).

Considerar uma internação também pode se fazer necessário em alguns casos, pois pode se tratar de uma medida emergencial e uma forma de evitar que algo mais grave ocorra, especialmente quando há uma situação de risco para o paciente ou pessoas próximas. É preciso entender que nestes momentos, a internação não deve ser vista como castigo ou sofrimento, e sim como forma de cuidado, de zelo. Essa internação normalmente ocorre por um curto período, até que o paciente esteja adaptado ao tratamento. Após, é essencial prosseguir com o acompanhamento psicológico, psiquiátrico e, claro, o apoio da família/amigos.

Importante: busque auxílio e orientações próximas de profissionais da saúde mental, mesmo que o paciente ainda não tenha aceitado receber esta ajuda. E mantenha sempre a paciência, pois como já foi citado, este processo nem sempre é rápido e simples, pode envolver muitos episódios difíceis antes que a pessoa finalmente aceite o tratamento.

Referências: Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) – Dra Rosilda Antonio.


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Sobre a autora:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, Fundadora e Administradora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

 

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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18 comentários

  1. Meu namorado tem depressão. Eu insisti por um tempo para ele começasse a passar com uma psicóloga. Por fim, ele aceitou. Ela indicou um psiquiatra para e ele e logo após isso ele começou a tomar um medicamento receitado. No entanto ele tomou apenas por um mês e abandonou tudo. Eu realmente não sei o que fazer, me sinto de mãos amarradas e fico muito triste em ver ele nessa situação. Converso muito para que ele volte com o tratamento, mas ele se recusa…

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    1. Olá Alef, realmente, apenas o tratamento medicamentoso pode não apresentar resultados satisfatórios e não ser eficiente para os casos de depressão. O ideal é mesmo associar o uso dos antidepressivos com a psicoterapia e demais recursos indicados. É preciso também respeitar o tempo dele, pois grande parte da eficiência do tratamento depende do próprio paciente (estar disposto a seguir tal tratamento). Entendo que seja difícil para você, mas seu apoio e compreensão com ele são essenciais, além de ter atenção aos sintomas e comportamentos apresentados por ele. Uma dica é você buscar o apoio de um psicólogo, para que te auxilie a lidar com o quadro dele. Abraços!

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  2. muito bom e único seu conteúdo, pq nunca se fala do doente que não aceita que é doente.
    Meu pai é assim.
    Infelizmente tb não vejo como conseguir alguma ajuda falando com um psiquiatra, meu pai jamais concordaria em ir até lá então…. tem casos que não tem mesmo solução.

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    1. Oi Margarete, obrigada por deixar seu comentário. Uma dica nesse caso seria você tentar buscar o auxílio psicológico, caso veja a necessidade, para si mesma. Isso poderia lhe ajudar a encontrar formas de lidar melhor com a situação e encontrar caminhos para melhor conversar com seu pai e sua família a respeito da questão.
      Seja bem-vinda por aqui sempre. Um abraço!

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  3. Você sôou como Deus. Pois estou passando por isso com minha própria mãe, tenho 20 anos de idade, 1 filho pra cuidar, desempregada. Vim na internet, aos prantos depois de uma situação díficil com minha mãe quase agora, pedir apelo ao Google, e ler isso aqui foi a melhor orientação que eu já recebi. Obrigada.

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    1. Oi Ludmylla, que bom que o texto foi útil a você! Fico feliz em saber. Existem alguns locais onde é possível conseguir o atendimento psicológico gratuito, se for te auxiliar, deixo a seguir o link com algumas sugestões para conseguir este atendimento para sua mãe.
      https://psicologiaacessivel.net/2015/09/17/atendimento-psicologico-gratuito-onde-buscar/
      Agradeço por deixar seu comentário e seja bem-vinda sempre por aqui!

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  4. Muito importante trocar experiências sobre esse assunto. Seus esclarecimentos nos textos são concisos e ajudam bastante . Conviver bem com pessoa com depressão ou transtornos mentais que não aceitam tratamentos nem sequer aceitam que estão doentes e quase impossível se não aprendemos lidar com estas situações. Passo por essa experiência há 2 anos. Muito sofrimento .por isso gostaria de estar recebendo informações sobre esse assunto pra aprender sempre mais como lidar com a pessoa doente que no caso é minha filha muito amada.

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    1. Oi Cidinha, muito obrigada por deixar seu comentário!
      Que bom que os textos tem ajudado, fico feliz! Tente buscar também uma orientação psicológica caso julgue necessário, poderá te ajudar a lidar melhor não só com essa situação, mas com outras circunstâncias de sofrimento ou dificuldade.
      Seja sempre bem-vinda por aqui. Abraços!

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  5. Ola! Conheci um rapaz a quase 2 meses já, ele de semana passada pra CA não esta mais bem! Nao sei o q ele sente, sei q a depressão dele já vem a 8 anos, ele e novo tem 28 anos, e estou gostando muito dele, queria muito poder ajudalo, mas ele sempere nega, nada que tento fazer pra ele destruir ele aceita, n sei o motivo da depresso dele, ele se abriu comigo mas n disse o q causou, mas ele deixa claro o tempo todo q n que envolver eu nisso, q n esta bem com ele pra me deixar bem, e acaba q com pouco tempo já estou sofrendo muito com isso! Queria muito ajudalo o que eu faço?

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    1. Olá Hellen, você pode encorajá-lo a conversar com um psicólogo, seguindo as dicas do nosso texto: com calma, aos poucos, com bastante paciência e compreensão. Pode ser que isso não aconteça tão rápido como você espera, mas é importante demonstrar apoio, sem julgamentos. A pessoa precisa se sentir amparada para que se encoraje a buscar o atendimento.
      Caso precise de ajuda para encontrar psicólogos próximos a você, talvez possamos ajudar. Segue nosso e-mail para mais dúvidas: psicologiaacessivel@outlook.com

      Abraços!

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  6. EU NAO SEI DIZER SE O QUE EU TENHO E DEPRESSAO MAIS AS VEZES MUDO DE HUMOR RAPIDO ME SINTO EXAUSTA TRISTE POR UM MOTIVO QUE NAO SEI, PREFIRO FICAR SOZINHA E TER QUE FINGIR QUE ESTOU BEM ACABA CAUSANDO MUITO ESFORÇO FISICO.

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    1. Olá Liane, com certeza se esse estado de humor tem te afetado, o ideal é buscar a ajuda de um profissional. Um psicólogo poderá te ajudar a identificar se esses sintomas são de depressão e te ajudar com todos os passos necessários para que você possa melhorar.

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  7. E no meu caso que até quero fazer o tratamento mas não encontro psicologo aqui na minha cidade ou região? Fui no psiquiatra, ele me receitou um anti depressivo de 80 reais e ainda estou esperando receber dinheiro pra comprar, ou seja, vou ficar quase um mês sem o remédio e sem previsão de terapia. O que fazer? Estou muito mal

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    1. Olá Alice, existem muitos profissionais e/ou locais que realizam atendimento social. Vou deixar abaixo o link daqui do blog mesmo onde falo sobre isso e procuro deixar indicações de locais assim: https://psicologiaacessivel.net/2015/09/17/atendimento-psicologico-gratuito-onde-buscar/
      Algumas medicações, como antidepressivos, você pode conseguir pelo SUS, converse com o seu médico para te ajudar com um pedido ao posto de saúde de sua região.

      E caso você não encontre profissionais em sua cidade, hoje já existem muitos profissionais que realizam o atendimento online credenciado pelo Conselho Federal de Psicologia.
      Abraços!!

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  8. Olá Ane! Meu filho tem 21 anos e vejo que ele não está bem. Apresenta uma irritabilidade muito agressiva, ansiedade e negativismo. Sugeri que procurasse um psicólogo para fazer uma avaliação, mas isso é como puxar para briga, não aceita de forma alguma. Não sei se é problema com a idade, ele tem uma inteligência acima da media, vive isolado e é muito intolerante. Tenho medo que ele faça algo consigo mesmo. O que poderia fazer para convencer a fazer um tratamento porque está gerando um desgaste muito grande em mim e minha esposa.

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    1. Olá, obrigada pelo comentário. Entendo que deve ser difícil lidar com a situação, mas é como disse no texto, não tem uma fórmula mágica e esse “convencimento” realmente pode ser bem trabalhoso, é preciso ir aos poucos e não desistir. É muito importante que a própria pessoa esteja aberta a um acompanhamento psicológico, caso contrário os efeitos dificilmente serão positivos. Tente seguir as dicas que abordei no texto e, se perceber que realmente há algum risco para a integridade, é importante monitorar a pessoa, evitar deixá-la sozinha e demonstrar muito acolhimento. Pedir a ajuda de um profissional próximo a vocês também pode ser de grande valia, ainda que por enquanto somente vocês realizem esse acompanhamento. Abraços!

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