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A amamentação como obrigação

O ponto é que o desejo, quando negado, cria o sintoma, como reação. Não por acaso, ao mínimo indício de que algo não vai bem na relação entre mãe e filho, a amamentação é quase sempre a primeira a indicar - por isso, muitas indicações à terapia chegam justamente por conta dela. Como uma troca, o psíquico indica ao físico bem como o físico indica ao psíquico.

Por: Agnes Trama 

O Brasil deve orgulhar-se pelo grande trabalho que vem fazendo com o aleitamento. A promoção da causa vem valorizando e incentivando a amamentação com cada vez mais força, o que fez, inclusive, aumentar a nossa média de aleitamento agregado à alimentação complementar para quase um ano. Um estudo publicado na agência Lancet, pelo coordenador César Victora, indica que, se nos anos 70 os bebês brasileiros eram amamentados até os dois meses e meio, em 2006 recebiam leite materno até os 14 meses.

Contudo, profissionais e familiares que cercam gestantes e puérperas devem ter o cuidado de não cair em um discurso impositivo, objetivo, e que visa apenas o bem-estar do bebê. O aleitamento pode acabar por virar mais um instrumento de opressão da mulher como mãe, colocando o ato de amamentar apenas como algo do nível consciente, prático, sem profundidade.

Quando o colocamos dessa forma, negamos o indivíduo que está por trás do seio que, sem dúvida, tem ressonâncias quanto à prática de amamentar. Podemos ver que a mãe está sempre para o bebê mas, e a mulher, está sempre disponível para ser mãe?

O puerpério se faz, muitas vezes, um lugar ameaçador a qualquer mulher e podemos dedicar a isso os muitos “tem que”; entre muitos requisitos, o Aleitamento é um deles – é mais uma tarefa que a mulher tem de sentir como privilégio e, por isso, deve sentir-se feliz com tal posição, quase que obrigatoriamente.

O assunto se faz cada vez mais atual. Exemplo disso foi a repercussão de uma declaração do chef britânico Jamie Oliver sobre a amamentação, que gerou a manifestação de tantas mulheres britânicas. Uma delas, a cantora Adele, sintetizou em uma fala, o que tantas mulheres sentem, sem espaço para poder lidar: “A pressão em cima de nós é absolutamente ridícula. E aquelas pessoas que reforçam essa pressão podem ir se f*, ok? Porque é difícil. Algumas de nós não conseguem fazer. Meus seios aguentaram cerca de nove semanas. Tudo o que eu queria é amamentar e quando eu não consegui eu me senti como ‘se eu estivesse vivendo no meio da selva e meu filho estaria morto porque meu leite secou’”.

O que se vê com frequência nessa clínica, é o quanto a autorização do “não-querer” oferecida a essa mulher a liberta para poder escolher. No fim, a obrigação de fazê-lo se torna um impeditivo.

O ponto é que o desejo, quando negado, cria o sintoma, como reação. Não por acaso, ao mínimo indício de que algo não vai bem na relação entre mãe e filho, a amamentação é quase sempre a primeira a indicar – por isso, muitas indicações à terapia chegam justamente por conta dela. Como uma troca, o psíquico indica ao físico bem como o físico indica ao psíquico.

Mais uma vez, a interface da Psicologia com um tema específico do puerpério gera questionamentos e polêmicas. Porém, seu trabalho se mantém na aquisição de conhecimento, para que então possa identificar problemas e, em seguida, fazer encaminhamentos, visto que o psicólogo, em sua atuação como tal, não deve misturar competências; quer dizer, se sou psicóloga de Maria, não devo, durante seu processo, ser sua consultora em aleitamento (e vice-versa). Um bom profissional tem um mínimo de compreensão sobre áreas que fazem intersecção com a sua, para que, aí sim, o cuidado ao paciente possa ser pleno.

Por fim, não podemos esquecer que a amamentação envolve, antes, uma relação. Assim sendo, deve-se considerar que, para que seja positiva, deve agradar a ambos, mãe e bebê. Se não funciona para um dos dois, para a mãe, por exemplo, compromete a relação e, até mesmo, a saúde física e psíquica dessa mulher.

Referências:
– Agência do Brasil, Estudo aponta Brasil como referência em aleitamento materno. Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-03/estudo-aponta-brasil-como-referencia-em-aleitamento-materno. Acesso em 4 de abril de 2016.

– Huffpost Brasil, Adele sobre amamentação: ‘A pressão em cima de nós é absolutamente ridícula’. Disponível em http://www.brasilpost.com.br/2016/03/28/adele-amamentacao-_n_9557846.html. Acesso em 4 de abril de 2016.


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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br



*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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5 comentários

  1. Amei o texto!
    Parabéns, Agnes. É um tema que pouco é discutido, e foi muito bem abordado, principalmente desmistificando mais uma das crenças enraizadas da sociedade, considerando a importância da profundidade desse assunto, não se limitando a um ato em si.

    Abraço.

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  2. Um texto bem claro, que muitos não gostam de falar. Mas, tem que ser falado, pois não só pode atingir o psíquico da mãe quanto também o do bebe. Já que é uma relação mutua, onde exige uma troca da mãe e bebe, se um não estiver bem, o outro vai sentir. É um circulo, um esta mal, fará mal ao outro. Um esta bem, fará bem ao outro. O bem estar físico dos dois e principalmente o da mãe tem que estar integro. Pois ela passa todo o tipo de energia para o filho.

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