Atualização, Ambiguidade e Culpa: (algumas) Palavras da Maternidade


Por: Agnes Trama

Das muitas palavras que compõe o grande turbilhão que é a gestação, a Atualização se faz presente. Se por um lado crescemos pensando “Quando tiver meus filhos, vou fazer diferente”, por outro não fazemos ideia do iceberg que há por baixo da linha do mar.

Nos muitos questionamentos que uma mãe faz, enquanto se pergunta se dará conta de tudo que acontece e está por acontecer, seu inconsciente se esforça para, ao mesmo tempo, desvendar: “E minha mãe? Deu conta?”. Crescemos e nos desenvolvemos com a ideia de que “Sim” porque, nossa mãe, é “Super”. Mas, se ela é “Super”, o que isso faz de nós?

Com a evolução da gravidez e o início do puerpério, o ideal é que essa ideia vá, aos poucos, perdendo força. Assim, também aos poucos, a mãe vai começando a entender que as tarefas dentro do cargo de “ser mãe” são humanamente impossíveis de dar conta plenamente – pelo menos sozinha. O problema é que temos toda uma cultura que insiste em afirmar que “mãe que é mãe…”. Isso faz com que essas mulheres duvidem do que veem não ser fácil, e passem a duvidar também de si mesmas.

No cenário atual ainda, gestantes e puérperas devem lutar não só contra a imagem poderosa de suas mães mas, também, contra as milhares de mães felizes e descansadas que o Facebook mostra: “Mas como elas conseguem?”. Não conseguem. Porém num mundo onde a felicidade ganha ‘likes’, não é permitido mostrar cansaço, insegurança e muito menos, desespero.

O papel do psicólogo, então, vem ser de trazer essas mães à realidade, à sua realidade, de que ninguém dá conta sozinho e de que o puerpério não é um trabalho de uma pessoa só.

Voltando ao turbilhão, encontramos a palavra da maternidade, a poderosa Ambiguidade. A dúvida sobre a vontade de ter engravidado é companheira da mulher, especial e principalmente nos primeiros meses – é o querer não querendo, e vice-versa. Tal sentimento é extremamente mobilizador e gera muita culpa. Mais uma vez, atualizamos: “Mas minha mãe me quis, como posso não querer o meu?”. Aqui, o “mito de origem”, a ideia de que fomos desejados, planejados, e amados todo o tempo, desde o início, é questionado.

Visto todo o cenário, não fica difícil compreender o porquê uma terceira palavra, já mencionada, se faz tão forte no papel materno: a Culpa. Afinal, é como dizem, “Ser mãe é sentir culpa”? Não, a Culpa não vem embutida no conceito de “ser mãe”, apesar de ser muito comum. Pensando na presença da ambiguidade conseguimos entender, pois crescemos com a tal crença de que “mãe que é mãe” ama o filho desde de que sabe que está grávida – até porque, “foi assim com todas as nossas mães, que nos amam incondicionalmente desde o ‘positivo’”, certo? A fraqueza de uma mãe é condenada pois nos remete à nossa história, à nossa referência, ao tal “mito de origem”. Por isso, adoramos àquelas que reforçam esse mito, e atacamos aquelas que mostram a pontinha de que o contrário possa existir.

Vimos recentemente um caso polêmico onde, uma mãe, no mesmo Facebook, mostrou essa ‘pontinha’. O resultado não poderia ser pior – sua página chegou a ser bloqueada, de quantas foram as ofensas e julgamentos. Algumas mulheres, mais ‘compreensivas’, chegaram a justificar as colocações daquela puérpera como dentro de um diagnóstico de Depressão Pós-parto – o que ela poderia apresentar, ou não.

A grande questão é que a propagação dessa ideia faz mal às gestantes e puérperas que, naturalmente com sentimentos ambíguos, se martirizam por serem diferentes. Pensando bem, faz mal da mesma forma, a essas mesmas mulheres que atacam, pois muito provavelmente sentem ou sentiram o mesmo. Assim, a chave para a desculpabilização dessas mães seria justamente a desmistificação desse pré-conceito historicamente construído.


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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br



*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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