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A forma de nascer hoje e suas repercussões no psíquico

O símbolo do parto, do nascimento, hoje sofre uma grande transformação.

Por: Psicóloga Agnes Trama

O símbolo do parto, do nascimento, hoje sofre uma grande transformação. Há todo um movimento que busca nos levar a um equilíbrio, para que nos utilizemos da cesariana apenas quando necessário; sua dificuldade está, não somente em informar as mulheres sobre apropriação de seus corpos, riscos de cirurgias e vínculos com seus bebês, mas principal e especialmente em levar todo esse conceito para dentro das práticas hospitalares, públicas e privadas.

Os dados levantados pela pesquisa Nascer no Brasil, de 2012, são chocantes: a Organização Mundial da Saúde recomenda que as cesarianas não ultrapassem os 15% porém, no Brasil, o índice é de 52% – 46% no setor público e impressionantes 88% no setor privado.

Com os cuidados suprimidos pelo financiamento, as prioridades são a rapidez e volume de atendimentos. Assim, as questões humanas não são protagonistas, e dão lugar para os generalistas protocolos: mas, “Se é para todo mundo, não é pra ninguém”.

Psiquicamente, a percepção da separação de uma mãe de seu filho não é instantânea como a separação física; ao contrário, ela é demorada e esses instrumentos e procedimentos que agilizam o trabalho da equipe institucional, não facilitam tal processo.

Tomando qualquer relação como uma linha contínua, para a psicanálise, o início da relação entre a mãe e o bebê seria a cena do parto. No modelo atual, essa cena é cercada por violências, pessoas desconhecidas e um sentimento intenso de insegurança. Nossa sociedade espera que a mãe dê conta de todo o trabalho do puerpério, mas será que oferece instrumentos e ambiente para tal? Como será esse puerpério? Nesse contexto, temos uma relação que se constrói a partir dessa cena, bem como um novo indivíduo que tem o parto como base de sua constituição.

Em outra esfera, temos os indivíduos que são pai e mãe. É a partir desse parto que ambos “deixam” de ser filhos e passam a ser pais. Sabemos do trabalho psíquico de atualização de conceitos e modelos, além da morte simbólica de seus próprios pais, assumindo sua finitude e tempo de vida. Em meio a um momento crítico e dispendioso psiquicamente, no lugar de sujeitos apropriados de sua nova família, são colocados como sujeitos a violências e ordens de terceiros, além da desautorização do lugar de pais que se segue, por médicos e enfermeiras. O trabalho do psicólogo, quando nesse pós-parto imediato, pode se fazer presente à equipe, para que ao invés de desautorizar essas mães, as encorajem de se apropriarem de seus bebês.

Sabemos que, comparando o tempo da gestação, com o puerpério e o parto, o terceiro tem um tempo de duração mínimo, pensando ainda em quanto tempo dura o “ser mãe”. O trabalho da psicologia e de outras especialidades é fazer com que esse momento, se não puder ser uma lembrança e uma experiência ricas e especiais, que possam ser, no mínimo, “apenas uma passagem”. Que seja uma adaptação tranquila e positiva, e não um transtorno que traga prejuízos e desconfortos, levando a sintomas ou doenças. Que a transição de gestante para puérpera e, mais tarde, mãe para toda a vida, possa ser leve, com amor, e no tempo da mulher – de cada uma delas.

Referências:

– Nascer no Brasil – Inquérito nacional sobre parto e nascimento, Principais resultados. Disponível em http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/principais-resultados2/. Acesso em 19 de abril de 2016.


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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br
Facebook: /agnestramapsicologa
Instagram: @agnes.psicologa



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2 comentários

  1. Amo psicologia accessível e aprendo muito com as informações e contribuicis desse canal de apredizagem. Excelentes reflexões.
    Parabéns!!!

    Curtir

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