Coluna Agnes Trama Psicologia e Família Psicologia e Maternidade/Paternidade

O desamparo no puerpério.

Depois que comecei a estudar a Perinatalidade, o tema Puerpério virou quase que uma causa para mim. Em primeiro lugar, porque impressiona que homens e mulheres faltem tanto com o cuidado com uma mulher, especialmente numa fase onde ela mal consegue satisfazer suas necessidades básicas. Em segundo lugar, porque eu mesma me reconheci como uma dessas pessoas.

Por: Psicóloga Agnes Trama

Depois que comecei a estudar a Perinatalidade, o tema Puerpério virou quase que uma causa para mim. Em primeiro lugar, porque impressiona que homens e mulheres faltem tanto com o cuidado com uma mulher, especialmente numa fase onde ela mal consegue satisfazer suas necessidades básicas. Em segundo lugar, porque eu mesma me reconheci como uma dessas pessoas.

Como podemos nos deslumbrar tanto com um bebê? Claro que toda a sua constituição é planejada para que fiquemos exatamente como ficamos, simplesmente porque ninguém jamais abriria mão de noites e noites de sono, refeições, banhos (e todo o resto) por outra pessoa – a não ser que ela tenha aquele cheirinho de nenê.

Por isso posso dizer, não é necessariamente de propósito que esquecemos as mães – mas nós as esquecemos.

Essa mãe vai chegar ao consultório já com um tempo de puerpério. Ela já passou por todas as fases de, sutilmente, pedir socorro: alguém vai vê-la chorando sozinha; depois de algumas semanas, se recusa a sair; aí, numa noite, ela se recusa a levantar para amamentar, chega a se irritar, mas o marido supõe que ela está cansada. Até que um dia, ela se refere ao bebê de forma hostil e diz que tinha vontade de soltá-lo no chão – só aí reconhecemos um problema, e já supomos “Essa mãe está com DPP!”.

Infelizmente as mulheres chegam já muito desorganizadas ao consultório, e muitas delas, de fato, deprimidas.

Muitas vezes é o medo de não dar conta (porque, simplesmente não dá para fazer tudo em 24 horas!) que a mobilizou no início; a solidão; a vontade de voltar a produzir, voltar a trabalhar; o fato de não dormir mais de 3 horas há semanas! Há ainda a mulher que hostiliza o bebê porque pensa que não sabe cuidar dele; se sente insegura e incapaz de criar, não sente que esse bebê um dia a chamará de “mãe” – porque, ela mesma, não se sente assim.

O psicólogo trabalha com a apropriação desse filho por essa mãe, e pelo reconhecimento de que ela conhece sim seu bebê, “veja só como você sabe que tem de segurá-lo assim, ele parou de chorar!” – empoderamento, aqui, também tem significado. Essas mães, quando chegam, vêm cheia de culpa por sentirem tudo aquilo que sentem: que, se chegaram onde chegaram foi porque fracassaram, ou sentem raiva desse bebê, ou sentem que ainda não sabem como cuidar de seu próprio filho. Mas a pergunta é: Já deveriam saber?

Uma alternativa viável e que cercaria essa mulher de acolhimento é a criação de uma rede – ela se forma pela família, por amigos, por vizinhos, pelos profissionais da saúde (ginecologista, psicólogo, pediatra). Com uma organização, essa puérpera pode ter, na maior parte de seu tempo, companhia e ajuda, tanto nos cuidados com o bebê e, principalmente, no que não diz respeito a ele. Lembro de uma professora que disse: “Quer ajudar uma puérpera, lave uma louça!” – isso também é cuidado. Ficar olhando o bebê para que a mulher tome banho, para que ela descanse um pouco ou almoce, também.

Nossa realidade vem mudando, e muito disso é graças à rede que as próprias puérperas criam – elas se conhecem em grupos de assistência ao parto e criam laços. Os grupos de WhatsApp conseguem acolher mulheres em crises que poderiam tomar proporções muito maiores – e elas mesmas indicam lugares que as ajudaram.

E isso, falando em modelos onde a puérpera está casada. Em situações onde a mulher é solteira, ainda que tenha seu parceiro, as tarefas e a pressão para que dê conta são muito maiores, além dos desgastes específicos de cada situação (se mora sozinha, se mora com a família original, se deve voltar a trabalhar logo).

A questão é que as mulheres vão continuar engravidando, parindo e se decepcionando com a maternidade – cada um experimenta o puerpério à sua maneira e se decepciona conforme o seu ideal inconsciente. Porém, enquanto não criarmos uma cultura de rede, vamos continuar tendo cada vez mais mães e mulheres doentes. Perdemos muito da nossa cultura de transmissão familiar pois nossas mães e avós, hoje, trabalham – e isso é ótimo! Mas temos que começar a falar sobre o puerpério pois, se uma gestante precisa de cuidados, uma puérpera precisa ainda mais!



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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br
Facebook: /agnestramapsicologa
Instagram: @agnes.psicologa



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5 comentários

  1. Que texto importante de ser lido, relido e refletido, Ana Caroline! Realmente as mães precisam desse acolhimento, pois resultará num cuidado mais espontâneo e prazeroso para o seu bebê. O número de mães que tem aparecido no consultório assim tem crescido muito.
    Abraço!

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