Parto Normal, Parto Cesáreo e a Escolha do Outro.


Por: Psicóloga Agnes Trama

Se há algumas décadas, na época de nossas bisavós, o costume era de que mulheres tivessem seus bebês pelo parto normal, hoje vemos um cenário totalmente diferente. A cesariana, instrumento valiosíssimo da medicina obstétrica, é vendida como sendo parte da “tecnologia”: quem nunca acompanhou uma discussão onde o argumento mais popular era “Pra que sentir dor se tem cirurgia?”

Depois de ter notícia de mais uma dessas discussões, comecei a colocar, numa lista, alguns dos pontos que considerava responsáveis por essa mudança de escolhas, condutas sobre o assunto e essas discussões frequentes e sem sentido.

1) Mais do que nunca, a decisão alheia tem nos incomodado. É a filha do vizinho que engravidou “antes”, é o sobrinho que não quer faculdade, aquela amiga que não quer ter filhos… Isso também se estende claro, aos assuntos mais técnicos, como escolha política, por exemplo.

Vamos trazer para a Psicologia. No que a escolha do outro engancha no meu psíquico? Basicamente, a escolha do outro nos remete às nossas próprias escolhas, aos nossos tão temidos e escondidos desejos. Quando escuto que o outro tem uma escolha diferente, isso me lembra a minha escolha – além de questionar nossa própria opção, outros pensamentos nos veem.

O psicanalista João Angelo Fantini, em sua entrevista ao HuffPost Brasil, esclareceu: “Nosso ódio ao outro não é fruto do fato deste outro ser ‘menos’. Pelo contrário, é sustentado pela crença que este outro possui um algo a mais. O que afeta é que o outro está nos ‘roubando’ algo que seria nosso por ‘direito’.”

2) Viemos sendo formadas e criadas numa sociedade machista; todos duvidamos do que a mulher é capaz. Ainda bem que estamos numa época onde estamos lutando para mudar essa concepção!

O ponto é que nesse pacote de desvalorização da mulher, está a desvalorização do seu corpo, de sua potência. Assim, que chamem o homem para dar conta de fazer nascer; que chamem o médico! Aqui ele assume o controle e faz o parto, no lugar da mulher, que tem todo o controle no Parto Normal.

3) Estamos vindo de uma geração que sofreu muito com seus partos. Em cada família há pelo menos um relato de parto que “traumatizou” a todos os membros. Isso porque esses partos já vinham carregados de práticas que, hoje, já conseguimos chamar de “Violência Obstétrica”. Quer dizer, hoje, condenamos a maioria dessas condutas, e consideramos algumas outras como ‘se necessárias’. Se sua avó “não pôde gritar”, ou se uma tia teve de fazer episiotomia (aquele corte “para facilitar a saída”), ou se alguém subiu em cima da sua mãe para que você nascesse, entenda: isso não é parto normal, isso é violência obstétrica.

4) Estamos numa época em que não se pode sentir dor! Perceberam que não podemos parar alguns dias por causa da gripe? Não temos tempo para ouvir nossos corpos que, por tantas vezes, gritam por essas gripezinhas para que justamente possamos cuidá-lo. E lá vamos nós, correr na farmácia para poder esquecer esses sintomas, para voltar a correr. Vamos começar a ouvir nosso corpo, porque ele tem muito a nos dizer. A diferença é que, o parto, assim como uma cólica menstrual, não traz a dor de uma doença – ambos são naturais do corpo da mulher.

Então, como disse, te argumentam: “Para que passar por toda a dor do parto se você pode fazer uma cirurgia?”. O que não falam é que a cesariana também tem suas dores – ela é uma cirurgia e, como toda cirurgia, tem seus custos.

5) Controle. A cirurgia dá essa sensação, que nós humanos da atualidade adoramos, através dos nossos smartphones. Já o parto normal, por ser longo, dá a impressão contrária. Esse é mais um pré-conceito nosso, visto que os PNs de hoje são assistidos por inteiro – vale uma conversa com uma obstetriz.

Bom, esses foram alguns dos pontos que existem, porque, sem dúvida há mais alguns. Me conta, para que a gente possa elaborar ainda mais, em conjunto!

Agora, se frequentemente vemos mulheres que optaram pelo PN sendo atacadas, também vemos o contrário. Vamos combinar, aquele argumentinho de que “mulher que fez cesárea é menos mãe” tá com nada! Além de não fazer o menor sentido, é preconceituoso e cheio de julgamentos.

Vale lembrar que a cesariana salva diariamente milhares de vidas, e que é sim um grande avanço da medicina. Vale lembrar também que a escolha do tipo parto é da mulher e que, se ela opta pela cesariana, esse é o melhor parto para ela.

O que busco com esse texto é questionar alguns pontos que hoje tratamos com naturalidade, para que as escolhas possam ser conscientes, e nada mais. Questiono também: de que vale toda essa discussão, se a escolha é pessoal? Me parece que, no final, esse é só mais um assunto para separar a nós, mulheres. Vamos nos compreender, vamos nos unir! Porque (posso ser piegas?), juntas, somos mais fortes!

Referência:
– HuffPost Brasil, Por que a escolha do outro me incomoda tanto? Disponível em m.huffpost.com/BR/entry/0809260 Acesso em 10 de abril de 2016.

Imagem: Mãe Paulistana


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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br
Facebook: /agnestramapsicologa
Instagram: @agnes.psicologa



*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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