Trabalho: contribua mais e receba ainda mais


Por: Graziela Bergamini

Minha cliente estava tão infeliz no seu trabalho, que chegou a pensar em mudar totalmente de profissão. Todos os dias eram complicados, ela se sentia cansada e frustrada.  Ânimo zero para ir trabalhar. Quando me procurou, também não tinha muitas esperanças de que algo fosse mudar, estava arriscando a jogar dinheiro fora.

Ao caminhar das sessões foi percebendo, por exemplo, que seria interessante se ela aprendesse a pedir ajuda em alguns momentos no trabalho. Identificou também que seu orgulho era grande e a impedia de solicitar qualquer ajuda que fosse. Esse orgulho negativo não permitia que ela  fizesse perguntas e compartilhasse suas dúvidas. Dentro desse prisma, ela tinha que saber sobre tudo e resolver tudo sozinha. Pedir ajuda era sinal de fraqueza, burrice, incompetência. Assim percebeu o quão nocivo e solitário era esse caminho e o quão improdutiva ela se tornava trabalhando dessa forma. Perdia semanas tentando resolver problemas que poderia resolver em alguns minutos com alguma ajuda externa.

Depois de refletir, decidiu experimentar mudar seu comportamento e pedir ajuda sempre que precisasse. Esse pensamento foi se desenvolvendo e a levou a perceber outra coisa importante: seria bom se oferecesse mais ajuda às outras colegas. Foi aí que descobriu uma fonte de prazer e alegria em ajudar, em oferecer aos outros a sua experiência e conhecimento. Foi então que podendo dar e receber com mais frequência e  tranquilidade,  começou a se sentir mais integrada, capaz e feliz no trabalho.

É verdade que só podemos dar aquilo que possuímos e só podemos dar algo quando é verdadeiro e nasce da “essência”, do “eu superior”, que é livre e espontâneo. Fazer algo para agradar é totalmente diferente de fazer algo por se importar, querer fazer a diferença, contribuir. Esse querer agradar vem de um lugar falso, que tem base no medo, que se importa mais com a autoimagem do que com os outros porque a “criança interna” quer receber  atenção muito mais do que dar. A criança-sombra funciona assim mesmo, quer e precisa receber muito antes de poder dar qualquer coisa. Quando damos algo para receber em troca, na verdade não estamos dando nada.

O que mata é querer ser bonzinho e legal e fingir dar o que não se tem, não poder/querer/saber realmente dar algo de si mesmo, seja tempo, amor, energia, conhecimento. Fazer isso é desgastante e tira a nossa dignidade. A pessoa que faz isso com muita frequência, vive cansada porque não sabe colocar limites e carrega o mundo nas costas para se sentir “legal”, “boa pessoa”. Não funciona muito bem.

Adam Grant, autor americano que escreveu o livro “Dar e receber” atribui o sucesso a longo prazo de pessoas do tipo “doadoras”  à duas grandes forças: relacionamento e motivação. Do ponto de vista do relacionamento, as pessoas doadoras constroem conexões mais amplas e profundas. Quando um vendedor realmente se importa com o cliente, este é mais propenso a comprar e depois comprar de novo e ainda falar desta empresa para outros clientes. De uma perspectiva da motivação, ajudar outros enriquece o significado e o propósito da vida do doador e mostra que suas contribuições fazem diferença e assim os incentiva a trabalhar mais e melhor.

E sobre receber? Parece fácil mas não é assim tão simples. Pense no seu caso, quando você recebe um elogio, qual é a sua reação? Alguém elogia sua sandália nova e você responde  “Ah comprei em liquidação da 23 de março”, alguém elogia seu cabelo e você responde “Na verdade está precisando de uma hidratação”, alguém elogia a sua relação com seu filho e você diz, “ah mas na verdade ele anda bem mal educado ultimamente” e assim vai. Se você se identificou um pouco, significa que talvez você não esteja conseguindo receber o elogio. Você não deixa entrar, não incorpora, ele bate e volta e assim a pessoa que quis dar algo a você, acaba no vácuo. “Ah ok, desculpe ter elogiado”.
E por que às vezes agimos assim? Porque quando éramos crianças o amor era condicionado. Quando bonzinhos e comportados, éramos aceitos e quando fazíamos algo “errado” levávamos um presta atenção, uma bronca ou até uma chinelada. Ficamos com a sensação de não sermos merecedores de amor, a não ser que …. eu seja sempre, o tempo todo, desta ou daquela maneira. Existem vários outros motivos para termos dificuldades em receber amor, seja ela da maneira que for, afinal o amor está escondido em milhões de gestos diferentes.

E o que você tem a ver com tudo isso? Pode descobrir se conseguir responder algumas perguntas:
1. O que seria gratificante, prazeroso, oferecer naturalmente para os outros? 
2. O que te impede de fazer isso?
3. O que você pode estar fazendo de – MAIS e faria enorme diferença na sua vida se parasse de fazer (ou diminuísse)?
4. Que cargas/tarefas está assumindo mas as quais não são suas, e dá para você transferir para o verdadeiro responsável por ela?
5. Em qual setor da sua vida poderia e gostaria de pedir mais auxílio?
6. O que você gostaria de receber mais? 
7. Como pode estar ‘evitando’ receber?

É isso por hoje.

Escreva, comente, entre em contato, leia outros textos do site e saiba mais sobre mim e sobre meu livro “Viagens de uma Psicóloga em Crise”.

Imagem: MyCareer 

graziela

“Graziela Bergamini é psicóloga e escritora. Fez cursos de extensão em Harvard  “Human Emotions” e em Lesley University, EUA “Family Couselling”. Formada em Dinâmica de Grupos e facilitadora de grupos pelo Pathwork (método de autoconhecimento). Atendimento em consultório particular desde 2006, palestrante desde 2010. Graziela é também autora do livro “Viagens de uma Psicóloga em Crise”, publicado em 2013.

Saiba mais: grazielabergamini.com.br


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Sobre a autora deste blog:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

 

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