Ser pai hoje: novos paradigmas


Por: Psicóloga Agnes Trama

Antes tratados como figurantes da gestação, o papel dos pais hoje vem sendo reconhecido e conquistando cada vez mais espaço. Tanto pelo olhar direcionado a esses homens, que também atualizam e repensam o lugar de papel de seus próprios pais, quanto pelo papel da mulher, que vem sendo cada vez mais ampliado, dando assim mais espaço ao mundo paterno.

O papel do feminino hoje vem sofrendo alterações, e suas tarefas aumentam cada vez mais. Pensando numa igualdade de gêneros, as tarefas dos homens deveriam, ao meu entender, sofrer a mesma expansão. A questão é que, no consultório, se escuta cada vez mais insatisfação, dos dois lados. De um deles, mulheres que se veem sobrecarregadas, sozinhas, sem rede e com um marido ‘cansado do trabalho’; do outro, pais que clamam por mais espaço e independência com seus filhos, sendo constantemente desautorizados pelas mães nos seus cuidados. Temos ainda a questão social, pois o homem ainda não está autorizado a cuidar de seus filhos como a mulher. Ainda parece ser “coisa de mulher” criar pessoas. O homem deve deslocar sua atenção do bebê de volta para o seu trabalho em dias, o que o arranca da paternidade que floresce. Por isso, mudanças sociais são fundamentais para que a cooperação entre pais e mães possa acontecer plenamente.

Estamos num momento onde tudo está em crise – a sociedade, as relações, o indivíduo. Entendo como o grande problema de todos os níveis, o excesso, a polarização. Não trabalhamos com um meio termo. Por isso, penso que o trabalho da psicologia deve focar na busca pelo equilíbrio e, no caminho para encontrá-lo, pensamos, discutimos para podermos, quem sabe, abrir mão do excesso e evitar a falta (“evitar”, pois sabemos que “eliminar” não é possível – e nem saudável).

Nesse caso, se a mãe permite abrir mão do controle do cuidado, e se o pai se disponibiliza para entrar nessa divisão, todos trabalham, todos descansam, e o bebê segue cuidado e investido por ambos. Tudo isso, claro, num mundo ideal.

Mas, não é porque é ideal, que não possa existir um modelo similar. Diferentemente do Brasil, a licença paternidade em muitos países permite tal cenário. Na Noruega, por exemplo, não existe licença paternidade ou licença maternidade, mas sim a “licença-parental” – aqui, pais e mães revezam durante 14 semanas os cuidados com o recém-nascido. Na Suécia, o que vejo como o mais perto do ideal, pais e mães também dividem a licença, que é de 1 ano e 4 meses, e pode ser tirada até os 4 anos da criança. Pelo título da matéria do G1, de 2014, podemos entender o cenário: “Pais e mães têm licença de 1 ano e 4 meses para cuidar de bebês na Suécia. Os suecos têm de graça tudo que é essencial: saúde, educação, conforto. E quando uma criança nasce, o pai e a mãe têm os mesmos direitos. ” Uau!

A questão da licença-paternidade no Brasil denuncia alguns conceitos pré-estabelecidos na nossa sociedade. Recentemente, o período de 5 dias foi estendido para 20 (lembrando que não para todos os pais, apenas para empresas que participam do Programa Empresa Cidadã que envolve questões de dedução sobre o Imposto de Renda; as empresas que participam desse programa são as mesmas que puderam aumentar a licença-maternidade de quatro para seis meses). Vinte dias não chegam nem perto de serem suficientes, mas temos que lembrar que, se aumentaram, é porque a discussão vem sendo feita e os pais começam a ser levados em conta.

Algumas perguntas me vêm frente a esse cenário: o pai tem licença menor porque precisa trabalhar. Mas, e a mãe? Ela não precisa trabalhar? Ou ela precisa ficar mais com o bebê?
E o pai? Ele precisa mais trabalhar ou precisa menos ficar com o bebê?
Isso é sobre a desvalorização da mulher no mercado de trabalho ou sobre a desvalorização do papel do homem como pai?

Ainda há muito a se fazer, política e socialmente falando. Mas nós, como indivíduos com pais e mães, maridos e esposas, namorados e namoradas, amigos e amigas, podemos e devemos começar a repensar e a, quem sabe, mudar nossas condutas. É começando no micro, que chegamos ao macro. Vamos começar a valorizar o papel e a presença dos homens nas vidas desses bebês e crianças porque, se sabemos de uma coisa, é que queremos nossos pais por perto quando pequenos, quando grandes, quando sempre!

Referências:
– G1, Dilma sanciona lei que amplia de 5 para 20 dias licença paternidade. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/dilma-sanciona-lei-que-amplia-de-5-para-20-dias-licenca-paternidade.html Acesso em 25 de maio de 2016.
– G1, Pai e mãe têm licença de 1 ano e 4 meses para cuidar de bebê na Suécia. Disponível em: http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2014/12/pai-e-mae-tem-licenca-de-1-ano-e-4-meses-para-cuidar-de-bebe-na-suecia.html Acesso em 25 de maio de 2016.

Imagem: Link 


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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br
Facebook: /agnestramapsicologa
Instagram: @agnes.psicologa



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