A relação entre Irmãos: como vem se estabelecendo a fraternidade hoje [Parte II]


Por: Psicóloga Agnes Trama

⇒ Esta é a segunda parte do texto “A relação entre Irmãos: como vem se estabelecendo a fraternidade hoje”, publicado na semana passada. Se você ainda não leu, acesse este link!

Existem inúmeros estudos sobre a família, mas a relação fraterna raramente é o foco. Assim, quando aparecem, são citados apenas como coadjuvantes e como parte de um sistema maior.  Nas pesquisas em que são estudados, o enfoque nunca é o modelo que os irmãos mais velhos são (ou pelo menos têm sido) na sociedade atual, para seus irmãos mais novos. Por outro lado, o tema está sendo cada vez mais colocado em pauta na mídia, como em programas de televisão que tratam dessa relação e em matérias de revistas – porém ainda enfocam o ciúmes e a rivalidade.

Observando meu próprio exemplo e relações próximas, passei a entender que a admiração pelo irmão mais velho é quase um padrão, já que as famílias hoje se formam cada vez mais contando com um papel mais ativo e presente do primogênito. Mesmo quando o caso não é esse, os mais velhos participam cada vez mais de atividades dos mais novos, ensinando-os e protegendo-os em diversos âmbitos de suas vidas.

Então, tive a oportunidade de fazer a pesquisa. Foram quatro pares de irmãos, todos maiores de 18 anos. Haviam dois tipos de questionários, um para os mais velhos e outro para os mais novos. O Conselho de Ética da universidade me orientou a dividi-los em dois grupos: o primeiro, filhos de pais casados e o segundo, de pais separados. Eles pensaram que poderia haver alguma alteração a partir desse fator e, eu também. Então fui lá pesquisar.

Já compartilho que um dos participantes abandonou a pesquisa, e isso não foi por acaso. Assim como foi citado na pesquisa, a relação entre irmãos não tem – ou não tinha até então – a mesma ênfase que a relação entre cônjuges e entre pai/ mãe e filhos; assim, sentimentos, comportamentos e características da própria fratria acabaram por ficar “de lado”, apenas no não-dito. Portanto, quando o holofote é redirecionado para a relação entre os irmãos, os sujeitos acabam por ficar sem saber o que fazer, o que falar e como agir (na entrevista e após seu término), com sentimentos e pensamentos remexidos e aflorados.

Apesar de uma amostra pontual, os dados foram importantes para desmistificar algumas ideias que tínhamos sobre a fratria, que gosto de colocar, de início, em dois pontos principais: primeiro, a relação entre irmãos (na infância e idade adulta) não se resume a ciúmes; segundo, não é necessário que se tenha uma situação de crise para que o suporte aconteça. Nos dias de hoje, os irmãos se colocam cada vez mais como suporte mútuo, dividindo o que há de ruim e compartilhando o que há de melhor. Vamos a alguns pontos específicos.

  1. As entrevistas mostraram que o modo com que os irmãos se relacionaram durante a vida se modifica, conforme a diferença de idade aumenta; porém o modo como se relacionam hoje, quando todos são adultos, é semelhante.
  2. A teoria do Apego de Bowlby explica que, para que haja uma relação de apego deve-se, inicialmente, haver uma postura de cuidado e proteção por parte do irmão mais velho. A partir da formação dessa estrutura, é possível que, mais tarde, já na idade adulta, ambos possam se suportar, e não apenas o mais velho ao mais novo. Como já mencionado nessa pesquisa, sem a carga de “mais velho” e “mais novo”, podem passar a ser apenas, irmãos. Tal característica foi encontrada em dois dos quatro pares entrevistados – os irmãos relataram que dão broncas e conselhos e tomam uns aos outros como modelos, independentemente de quem é o mais velho e quem é o mais novo.
  3. Deve-se ressaltar que o fator que mais interfere na estrutura da relação fraterna é, sem dúvida, a diferença de idade. O posicionamento dos pais sobre o tema também se faz importante, mas muito mais o modo com que lidam com a relação que seus filhos têm do que a relação que tiveram/ têm com seus próprios irmãos. Quer dizer, a forma com que reagem a desentendimentos e o incentivo (ou não) para que haja uma boa relação contribuem mais com o vínculo do que o modelo de relacionamento fraterno que tiveram. Porém, quando o relacionamento que os pais mantêm com seus próprios irmãos é negativo, ou seja, um relacionamento ruim ou ausente, os filhos relatam tomar como um exemplo a não ser seguido, um modelo ruim de fratria.
  4. Alguns autores compreendem que, o que faz com que haja uma relação forte e de suporte entre os irmãos são as situações de crise, como a separação dos pais; outros citam a falha parental como fator imprescindível para tal. Nas entrevistas foi apurado que, mesmo com as famílias dentro dos antigos modelos tradicionais (pai, mãe e filhos), a relação entre os irmãos se constitui com base no suporte, cuidado e proteção recíprocos, o que comprova que as situações de crise podem ser um fator que contribui para a formação do vínculo, mas que não é fundamental para que ele aconteça.
  5. A imagem que o irmão mais novo tem do mais velho é, de acordo com a pesquisa, a melhor: o primogênito é o exemplo, o porto seguro, o modelo a ser seguido. Nas palavras dos próprios caçulas, “meu melhor amigo”, “quem mais me apoia, em quem eu mais confio”, “alguém que eu admiro muito”, “muito amiga, uma pessoa maravilhosa”, “sinto muito orgulho dele, ele é muito responsável, que luta por tudo o que quer” (sic).

Pode-se colocar a relação entre os irmãos como fonte de força para os sujeitos que, nos dias de hoje, levam tantas questões de relacionamentos para o consultório, tanto com pais e mães, quanto os afetivos/amorosos. Especialmente nas terapias familiares, as fratrias devem ser mais trabalhadas, a fim de que se possa criar uma rede de apoio que contribua, inclusive, na formação do indivíduo. Assim, é fundamental lembrar a pais, psicólogos, professores, autores e toda a sociedade que a relação fraterna é – e será cada vez mais – responsável por boa parte da formação de todos nós.

Referências:

CARVALHO, A. M. A.; MOREIRA, L. V. de C.; RABINOVICH, E. P. Olhares de Crianças sobre a família: um enfoque quantitativo. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, vol. 26, n. 3, pp. 417-426, Jul/ Set 2010.

GOLDSMID, R.; FERES-CARNEIRO, T. A função fraterna e as vicissitudes de ter e ser um irmão. Psicol. rev., Belo Horizonte, vol.13, n.2, pp. 293-308, 2007.

OLIVEIRA, A. L. Família e irmãos. Em C. M. O. Cerveny (Org.), Família e narrativas, gênero, parentalidade, irmãos, filhos nos divórcios, genealogia, história, estrutura, violência, intervenção sistêmica, rede social (pp. 63-81). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

RABINOVICH, E. P.; MOREIRA, L. V. de C. Significados de família para crianças paulistas. Psicologia em Estudo, Maringá. v. 13, n. 3, p. 447-455, jul./set. 2008.

Imagem: Pinterest



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Agnes Trama

Psicóloga (CRP 06/118164)
Especialização em Psicologia Perinatal (em formação)
Contato pelo e-mail:
agnestrama@uol.com.br
Facebook: /agnestramapsicologa
Instagram: @agnes.psicologa



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