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Vamos falar sobre o puerpério?

Você já ouviu essa palavra? Trata-se de uma fase muito especial e, ao mesmo tempo, delicada na vida de uma mulher: o pós-parto. Depois de muitas expectativas, o bebê finalmente chegou!!! E o foco acaba se voltando para ele (...) Quase não se comenta sobre a enxurrada de transformações existenciais e psicológicas que estão ocorrendo na mulher.

Por: Psicóloga Julia Bittencourt

Vamos falar sobre o puerpério?

Você já ouviu essa palavra? Trata-se de uma fase muito especial e, ao mesmo tempo, delicada na vida de uma mulher: o pós-parto. Depois de muitas expectativas, o bebê finalmente chegou!!! E o foco acaba se voltando para ele.

Mas na mulher/mãe, muitas transformações estão acontecendo e as emoções estão à flor da pele! De um lado, o corpo está se recuperando de uma gestação, com uma revolução física e hormonal acontecendo para o corpo voltar ao normal; do outro, um turbilhão de emoções – a chegada do bebê, o nascimento de uma mãe, um novo papel na sociedade, uma nova configuração familiar… Além disso, uma nova e intensa rotina!

No período pós-parto, normalmente as consultas e as informações se voltam para a parte médica ou para os cuidados com o bebê. Alguns assuntos falados são: dores e curativos, quarentena para retomada da vida sexual ou das atividades físicas, dicas para amamentar ou dar banho… Quase não se comenta sobre a enxurrada de transformações existenciais e psicológicas que estão ocorrendo na mulher.

Então, ela acaba ficando sem espaço para falar sobre suas angústias, inseguranças, dúvidas e sobre seus sentimentos ambíguos: ao mesmo tempo em que sente uma alegria muito grande por se tornar mãe e ter seu bebê nos braços, sente também um cansaço e uma exaustão com amamentação, troca de fraldas, arrotos…; poderosa por gerar um novo ser e uma nova vida, mas insegura se vai conseguir dar conta de cuidar de alguém tão pequeno e dependente; e por aí vai!

Na maioria das vezes, esse momento acaba sendo vivido em segredo – e com grande carga de culpa. Isso porque vivemos em uma sociedade que idealiza e romantiza a maternidade, só sendo possível vivenciar sentimentos maravilhosos. Afinal, você se tornou mãe e tudo deve ser lindo e feliz! Mas na realidade não é bem assim… Portanto, se você está passando por essa fase e se perguntando: “Será que é normal?” Saiba que sim – e praticamente todas as mulheres vão passar por isso!

De acordo com a literatura médica, o puerpério dura de 30 a 45 dias, pois esse é o tempo que o corpo leva para voltar ao seu estado de antes da gestação – chamado pré-gravídico. Porém, em relação à parte psicológica, diversos autores defendem que o puerpério emocional não tem um tempo específico, visto que a mulher precisa se reconfigurar em sua nova identidade e em seu novo papel social e isso varia para cada uma.

Daniel Stern, por exemplo, um renomado estudioso sobre parentalidade e desenvolvimento infantil, afirma que, com a chegada do bebê, a mulher se insere na “constelação da maternidade”. Trata-se de uma nova organização psíquica, em que ela vivencia um profundo realinhamento, que pode durar meses ou até anos. Ou seja, com a chegada de um filho, a mulher, por ser na maioria das vezes a principal cuidadora, se percebe diante de uma reorganização de seu mundo representacional, que pode implicar na reelaboração de vários esquemas a respeito de si, do bebê, do marido/parceiro e também de sua família de origem.

Muitos autores afirmam também que há um enamoramento pelo bebê, por isso a mulher se deixa de lado e esquece das pessoas ao seu redor, o que pode causar uma cobrança interna de que precisa se cuidar, pode gerar ciúmes no marido, a família pode cobrar atenção… Mas esse momento deve ser respeitado, pois é importante para a díade mãe-bebê e para a construção do vínculo e do amor, que vão crescendo na relação!

Com tudo isso acontecendo, a mulher precisa se sentir segura e amparada, contando com a ajuda de familiares, amigas de confiança ou participando de grupos de mães. Segundo Cesar Augusto Piccinini, outro estudioso sobre maternidade/paternidade e interação pais-bebê, a mulher precisa de uma rede de apoio protetora, geradora de auxílio, para que ela possa, no início, realizar as tarefas mais básicas e urgentes, como manter o bebê vivo e proporcionar seu desenvolvimento psíquico e afetivo.

Vale ressaltar que, embora o puerpério possa se apresentar como uma fase meio nebulosa e confusa, ela não é paralisante e passa com o tempo… Por isso, caso os sentimentos negativos sejam muito intensos ou prolongados, é importante buscar ajuda profissional! Nessa fase, pode aparecer o chamado baby blues ou até uma depressão pós-parto. O primeiro é marcado por melancolia, tristeza e bruscas alterações de humor, que duram cerca de duas semanas, sendo passageiro, e se dissipa naturalmente, sem precisar de um tratamento específico. Cerca de 50 a 80% das mulheres podem vivenciá-lo!

Já a depressão pós-parto é entendida como um conjunto de sintomas, como irritabilidade, falta de energia e motivação, choro frequente, desinteresse sexual, transtornos alimentares e do sono, sensação de incapacidade diante de novas situações, entre outros, que iniciam geralmente entre a quarta e a oitava semana após o parto, podendo persistir até o segundo ano de vida da criança, e atingindo em torno de 10 a 15% das mulheres. Nesse caso, é preciso buscar ajuda profissional – e quanto mais cedo, melhor.

Portanto, é de fundamental importância que essa fase da vida da mulher e dessa nova mãe seja vivida de forma plena, segura, com amor, amparo e cuidado, sem culpas ou julgamentos, afinal isso vai refletir de forma direta na sua saúde mental imediata e a longo prazo!

Sobre a psicóloga Julia Bittencourt (CRP: 05/49022)

Julia Bittencourt é psicóloga clínica com ênfase em Gestalt-terapia e em Terapia Sistêmica, com formação em Psicologia Perinatal e Parental e cursando especialização em Terapia de Casal e Família, além de ter capacitação em Psicologia Hospitalar e Luto. É uma das idealizadoras do Maternar Psi – Núcleo de Atendimento a Mães, Pais, Casais e Famílias. Atende adultos e idosos, além de gestantes, pós-parto, mães, pais, casais e famílias em seu consultório na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá (RJ). Também realiza atendimento domiciliar a gestantes e pós-parto no Rio de Janeiro, além de oferecer atendimento em inglês para estrangeiros.
Sites: www.juliabittencourtpsi.com.br
www.maternarpsi.com.br
Para quem não tem disponibilidade de ir ao consultório ou não mora no RJ, ela faz atendimento online no Terapia de Bolso (acesse aqui).

Imagem: Pinterest

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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4 comentários

  1. Prezada Ana Caroline
    Que sensacional! porque esse assunto é importante, pois estamos compreender questões sobre palavra Puerpério, que é o momento mais especial, fase mais delicada na vida de mulher: pós-parto. Assim, tenho certeza de que todas as mulheres tem o poder de orgulho de ser nova mãe, pois tendo chegada de bebê. Mas refleti assim que os maridos aprendem pouco sobre reconhecer mudanças psicológicas, emocionais e logicamente física de esposas quando a chegada de bebê acontecer.
    Gostei desse assunto. Por isso, estou de parabéns.

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