A culpa não é sua!


Por: Amanda Santos de Oliveira

Diversas vezes no consultório me deparo com mulheres que acreditam serem culpadas por tudo que acontece com elas. Naturalmente, muitas carregam responsabilidades que não são delas, seja no trabalho, em casa, com os filhos, familiares e os demais círculos que ela possa transitar.

Mas esses casos, não são os mais preocupantes a meu ver. O que mais me espanta é que hoje, em um mundo cercado de informações de todos os lados, ainda é possível encontrar mulheres que se culpam por terem sido abusadas fisicamente ou emocionalmente, em todos os graus de comprometimento que tais abusos acarretam.

Estatísticas Atuais

Os números relacionados a casos de estupro e assédio sexual ainda são assustadores. Segundo a BBC[1], em 2014 um caso de estupro é notificado a cada 11 minutos. Ainda, conforme pesquisa feita pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) a partir de dados do Sinan de 2011 (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil. Pra se ter uma ideia, esse número lotaria aproximadamente 6,6 estádios do Maracanã. Lembrando que tais dados se referem apenas aos estupros notificados que conforme os dados da revista Época[2] são apenas 35%.

            Além disso, quantas pessoas ainda acreditam que a vítima é a culpada. A BBC nos mostra que, segundo dados da Ipea de 2013, 26% acreditam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e ainda 58,5% concordam total ou parcialmente com a afirmação “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveriam menos estupros”.

Vítimas que se acham culpadas – “Cultura do Estupro”

            O mais assustador de tudo é que muitas vezes, nossa sociedade leva a fazer com que as vítimas se sintam culpadas. Atualmente temos nos deparado com o que alguns sociólogos chamam de “cultura do estupro”. Tal termo, conforme explicitado pelo Politize![3] tem sido usado desde a década de 70,  época que foi chamada de segunda onda feminista. Este conceito aponta comportamentos sutis ou explícitos que silenciam ou relativizam a violência sexual contra a mulher.

Essa cultura foi disseminada por diversas ideologias. Tais delas, segundo o Politize! podem ser vistas, por exemplo, na ideia de interpretar o “não” de uma mulher como um jogo de sedução, em que ela realmente não quer dizer o que está dizendo. Ainda, naquela ideia de que o caráter ou a intenção de uma mulher podem ser avaliados a partir de sua aparência ou sua roupa. Além disso, no famoso “fiu-fiu” nas ruas, em que os homens se sentem no direito e liberdade de abordar as mulheres em qualquer espaço ou contexto.

            Nesse mundo, em que tantas pessoas pensam que as mulheres são realmente culpadas, como uma vítima se atreverá a pensar diferente?

Violência Ampliada

            Tais apontamentos ainda não trazem as reais dimensões dos casos de assédios sejam eles físicos ou psicológicos. Casos que podem ser notados constantemente em nosso dia a dia. Um fator ainda mais preocupante é que muitos de nós não identificamos certos comportamentos como abusivos.

            Existem muitas mulheres hoje presas em relacionamentos tóxicos em que seu parceiro dita seu modo de vestir, seu corte de cabelo, a cor do seu esmalte e tantas outras coisas. Ainda, muitos parceiros não hesitam em controlar dietas e apontar “defeitos” em sua aparência. Isso porque, em nossa cultura, ainda temos exemplares de “beleza ideal” em todos os meios de comunicação que massacram a grande maioria das mulheres.  Assim, muitas mulheres vão vivendo como marionetes de seus parceiros, comportando-se como acham que mais irá agradá-lo.

            Tudo isso é violência. Você pode vestir o que quiser, andar como quiser, usar cabelo curto ou longo, independente da “preferência nacional”. Você pode usar biquíni ou maiô, sem se preocupar com o que os outros pensam e sem se sentir um pedaço de carne na vitrine. Você pode comer um chocolate, você pode usar saia, mesmo que não seja verão.

Responsabilidades a quem se deve

            Faça sempre essa pergunta a você mesmo: isso é mesmo minha responsabilidade? Nos casos de violência, pense que a resposta é clara: Não! Você não tem responsabilidade pelas atrocidades de outras pessoas e não tem culpa de ter sido violentada. Você é vítima!

            Mas, ainda, amplie essa ideia. Pense nas responsabilidades que tem trazido para si e se realmente elas são suas. Pense no seu papel no trabalho, em casa, na comunidade e nos demais contextos que você vive. Atrair para si responsabilidades que não são suas, podem te fazer sentir bem por algum momento, por trazer aquela falsa sensação de que “só serei uma boa pessoa para alguém se fizer o máximo que puder para ela”, mas no fim, isso só está te sobrecarregando e te esmagando com expectativas que na verdade, nem são suas.

Referências citadas:

[1] Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054. Acesso em: 08/10/2016.
[2] Disponível em: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/05/apenas-35-dos-casos-de-estupro-no-brasil-sao-notificados.html. Acesso em: 08/10/2016.
[3] Disponível em: http://www.politize.com.br/cultura-do-estupro-como-assim/. Acesso em: 08/10/2016

Imagem: Pinterest

Amanda Santos de Oliveira
CRP 04/43829

Psicóloga Graduada pela PUC Minas, atuante na área clínica em Belo Horizonte, oferecendo psicoterapia individual para adultos
Contatos:
Facebook: facebook.com\psi.amandaoliveira
Instagram: @psicologabh

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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8 opiniões sobre “A culpa não é sua!”

  1. Prezada Psicologa Ana Caroline
    O artigo feito por Amanda, com mérito de sucesso e respeito, me encantou, pelo que acredito, ganhou um reconhecimento pelo papel social de mulheres. Entretanto, fico triste porque houve influência machista na sociedade desde antiguidade, dizendo assim que as mulheres são propriedades de homens, porque estes se considerariam como falocêntrico. No entanto, na minha teoria, a maioria de homens que tem filhos é que lhes ensinou a pegar mulheres gostosas de saia justa para que eles tornem-se machão. Agora a taxa de estupro sofrido pelas vitimas aumentou cada vez.
    Parabéns porque esse assunto me chocou pouco, porque isso deve consciencializar de sociedade machista para acabar com influência machista e falocentricista.
    Abraços

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