O tempo


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Por: Tainá Perrucci*

*”O conteúdo abaixo foi produzido para a plataforma “Sobre Nossa Visão Distorcida” e sua versão original está no endereço: http://sobrenossavisaodistorcida.com/post/143533834661/0tempo. Foi escrito pela colaboradora do projeto, Tainá Perrucci, e não pode ser duplicado nem comercializado sem a autorização da produtora detentora de seus direitos patrimoniais sob condições de penalização legal. O blog Psicologia Acessível obteve autorização da detentora dos direitos para publicação neste espaço.”

Engraçado. Eu gosto de ler coisas que escrevi quando era adolescente e de me analisar com base em tudo o que aprendi desde então. Na maioria das vezes, percebo que tem coisas que ainda sinto. No entanto, meu entendimento sobre elas costuma mudar tanto que por mais que as sinta igual, o significado que dou a elas é completamente diferente.

Por exemplo: a confusão/tristeza a qual me referi durante este texto inteiro. ainda faz parte de mim. Acontece que agora eu sei por que ela existe, sei quando ela começou. E fiquei amiga dela! Integrei-a ao meu modo de ser e aceitei que por mais que eu tenha sofrido muito, essa confusão e essa intensidade no sentir me elevou a um patamar em que eu não estaria caso ela nunca tivesse acontecido.

Hoje em dia percebi que existem fases na vida em que passamos por algo semelhante a uma “troca de pele”. É um período meio desconfortável, com algumas partes inteiras e outras ainda pela metade. Deixamos pedaços nossos pelo caminho e ao mesmo tempo percebemos algo novo nascendo.

O famoso medo do desconhecido costuma nos afetar nessas fases, e olhamos para nossa nova “pele” com certa insegurança. Apesar de mais bonita que a anterior (normalmente), ela não é conhecida, então ficamos na dúvida se deixamos a pele velha para trás, ou tentamos segurar forte nela para que ela não nos deixe. Deixar que a pele nova transpareça dói; mas segurar a pele antiga dói muito.

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No entanto, nem sempre é fácil perceber isso: a pele antiga, muitas vezes, possui marcas das quais ainda não queremos nos desapegar. Nela existem registros daquilo que fomos um dia, e que de alguma forma moldou a pessoa que somos hoje. Com essa pele, vivemos muitas coisas significativas, e de certa forma ela é algo que nos mantém ligados a essas memórias.

Relacionamo-nos com pessoas, viajamos, trabalhamos, construímos uma vida sob a perspectiva desta pele e agora, sem ela, muitas vezes não sabemos muito bem quem somos.

Acontece que iremos ainda tropeçar nessa pele antiga prestes a se soltar completamente. Por algum tempo ela ficará pendurada, e sentiremos seu peso nos lembrando do que estamos deixando para trás. Isso é chato. Ficaremos olhando para o que está pendurado em nós com uma mistura de pesar e nostalgia. Afinal, foram anos usando essa identidade, que agora é apenas uma carcaça de memória.

Sinto que tenho a minha carcaça pendurada, e confesso estar sendo mais difícil do que gostaria me desapegar dela. Às vezes parece ser difícil ser melhor que antes. É difícil se desvencilhar da mente infantil que rebate tudo instintivamente e perdoar um passado que te ensinou a ser assim. De algum modo, muitos erros são cometidos porque deixamos nossa criança interna tomar decisões em nossa vida adulta, e nesse caso, não falo da criança que traz leveza e harmonia. Falo da criança birrenta, que quer tudo aqui e agora, que chora para conseguir as coisas e faz cara de mau quando não consegue. Essa criança existe ainda e costuma fazer parte da carcaça pendurada que devemos admitir. Ela pesa mais do que a bagagem da vida adulta te permite suportar.

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E chega uma hora que largar esse peso passa a ser questão de sobrevivência: ou a gente solta, ou a gente fica estagnada. E por incrível que pareça, a segunda opção é extremamente tentadora. Mudar dói.

Não sabemos distinguir muito bem o que está acontecendo e pra onde está indo toda a energia gasta neste processo. Muitas vezes parece ser mais seguro direcionar essa energia na manutenção de onde estamos do que gastá-la indo para algum lugar.

Tive muitas experiências que mudaram quem eu sou e a maneira como eu enxergo todas as fases de minha vida. Já fiquei muito tempo segurando pele antiga, caminhando com meu passado pendurado nas costas e me arrastando pela vida de agora com a sensação de não estar vivendo nela. Muitos sentimentos antigos ainda me seguiam e eu me mantinha presa ao que não me pertencia mais – ou pertencia, mas eu não precisava mais sentir. E então, em determinado momento, percebi que sou capaz de tomar nas mãos as rédeas deste processo. Assim, as trocas de pele não machucarão mais. Confesso que ainda não sinto que estou nesta parte e minhas trocas ainda doem, mas já observei que quanto mais dentro de mim estou, e quanto mais em minhas mãos eu carrego minhas escolhas, mais madura me sinto e minha vida mais fácil se torna. As trocas de pele se tornam macias e prazerosas, uma consequência gostosa de um amadurecimento saudável.

Já achei que isso nunca seria possível na minha vida, e que eu seria eternamente escrava de lembranças e traumas que me machucaram no passado. Mas não.

Mesmo não acreditando, um dia me peguei sentindo minha pele nova nascendo por baixo da velha, e de repente a identidade que eu tinha com essa pele velha se tornou insuportável. Tudo estava pesado demais, e ela tinha que ser deixada para trás.

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Eu lutei contra isso. Mas também lutei contra minha própria crença de que não merecia ser feliz. Só que uma pele nova sempre está nascendo em nosso corpo, e é sempre possível jogar a velha fora e assumir a luz que a pele nova transmite para o nosso entorno. Isso me fez perceber uma coisa: não é possível mudar o passado, mas sim mudar o significado que ele teve. Enxerga-lo não superficialmente, e sim ir a fundo naquilo que te transformou no que você é hoje. Um passado que não tem peso de dívidapode deixar de existir, e então perdoá-lo e perdoar a si mesma pela carcaça velha que se quer largar. O passado não é fechado, ele não termina nele mesmo. Uma constante ressignificação dele é tão possível quanto se curar das dores que não nos permitem seguir em frente. Perceber isso facilita tanto as coisas… Torna o presente mais leve.

Imagens: SNVD

Fonte: Sobre Nossa Visão Distorcida (SNVD) 

Tainá Perrucci

Estudante de Psicologia pela PUC – SP
Colaboradora do site sobre Transtornos Alimentares, “Sobre Nossa Visão Distorcida”
http://sobrenossavisaodistorcida.com/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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Sobre a autora deste blog:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

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