O amor não é uma mágica | Flávio Gikovate


Por: Flávio Gikovate para a Revista Veja*

Os brasileiros estão entre os que mais usam o mundo virtual para se relacionar. Nos orgulhamos disso e, paradoxalmente, quando se fala em sites e aplicativos de relacionamento amoroso (não estou falando de sites eróticos), a maioria ainda reage de forma extremamente preconceituosa. Encontrar parceiros pela via tecnológica é visto como vergonhoso e indício de incompetência para os encontros que deveriam acontecer na vida real.

A explicação para essa rejeição específica deriva, creio, da visão que a maioria tem do amor. Acham que o amor, para ser verdadeiro, tem que acontecer por acaso, como se fosse uma mágica, fruto da “flechada do Cupido”. Até hoje as pessoas o veem como uma emoção que tem que ser livre de qualquer fundamento lógico e consideram humilhante a interferência da razão; ela rebaixa a qualidade do encontro que passa a ser considerado como um evento de segunda categoria.

O problema dos encontros que começam na rua, nos bares, baladas ou por indicação de amigos é que muitas vezes o encantamento se dá em função de traços um tanto superficiais e que não têm nada a ver com o caráter ou com a essência do outro. Isso sem falar que muitas vezes o encontro ocorre de madrugada, regado a enormes doses de álcool.

Se num primeiro momento as moças parecem mais interessadas em envolvimentos sérios, a experiência mostra que, uma vez havendo a continuidade da relação, os homens são, ao contrário da crença geral, os mais românticos e se apaixonam mais facilmente, sem levar muito em conta os elementos racionais que permeiam a mente feminina (elas avaliam melhor as características da pessoa antes de se enamorarem). Não por acaso, são os homens, e não as mulheres, que foram os responsáveis por quase toda a literatura romântica disponível.

Com o tempo, quando conhecem melhor a parceira, muitos acabam se decepcionando. Percebem que se envolveram sem levar em conta os aspectos essenciais, como o caráter e a personalidade do outro. Quando a idealização inicial se desfaz e vem o choque com a realidade, muitos relacionamentos terminam. Os sites e aplicativos de encontros podem ser muito convenientes para evitar esse tipo de frustração uma vez que percorrem o caminho inverso: começam pela definição das afinidades, pelas conversas em que se conhece melhor a personalidade um do outro. Quando essas propriedades estão bem afinadas é que se darão os os encontros reais, onde serão avaliados os aspectos mais emocionais e eróticos de um eventual relacionamento.

Todos os sites de relacionamento se baseiam na ideia de que o essencial são as afinidades. As principais são, é claro, as de caráter. Porém, são importantes as que envolvem interesses de lazer, gostos esportivos ou turísticos etc. Quando os planos avançam na direção da coabitação, é claro que as afinidades têm que ser maiores ainda: mesmos projetos financeiros, mesmos pontos de vista acerca de ter ou não filhos, onde se vai morar etc. É bom que tudo seja bem conversado; isso evitará discussões futuras e contribuirá de uma forma decisiva para um relacionamento duradouro e de qualidade. Os bons relacionamentos são aqueles em que ambos crescem, têm sua autoestima aumentada, que se tratam de forma carinhosa; e, acima de tudo, que respeitem as inevitáveis diferenças.

Os que se cruzam pelos sites começam a conversar teclando. Depois vêm as conversas telefônicas, isso quando já estão mais confiantes e interessados. Durante as conversas, como acontece no plano real com a maior parte das mulheres, ambos aprendem mais sobre o outro, o que fazem, quais suas condições sociais e familiares. Tudo isso é racional! O curioso é observar que quanto maiores as afinidades, maior a tendência para que o encantamento cresça. É nesse ponto que marcam os encontros no mundo real, condição em que entram em jogo os outros fatores, especialmente os de natureza erótica. Isso irá acontecer depois que a razão já avalizou a aproximação deles.

Falar em racionalidade no amor continua sendo uma blasfêmia. Discordo. Estudo o tema desde que me formei, há 50 anos. Freud refletiu sobre as escolhas sentimentais na sua Introdução ao Narcisismo (1914). Para ele as escolhas amorosas podiam acontecer de duas formas: “por oposição (defendida por ele) ou segundo o critério narcisista” (que corresponde ao que chamo de encantamento entre semelhantes). No passado, a preocupação com as afinidades não era tão importante, uma vez que os homens mandavam e as mulheres obedeciam; e as chances de conflito eram menores. A ideia, fundada no bom senso para a época, era a de complemento—um tem o que falta no outro. Ainda nos anos 1970 percebi que a maioria dos casais continuava a se formar da mesma forma. Eles não só eram diferentes, mas opostas quanto ao caráter. O que acontecia? Viviam às turras. Sim, porque com o mundo mais unissex e rico em variedades de lazer, as afinidades foram ganhando importância; e hoje se tornaram indispensáveis.

Numa relação respeitosa não há lugar para as “brigas normais dos casais”. Amor é paz, aconchego e companheirismo. Do contrário, é melhor ficar sozinho. A qualidade de vida dos solteiros está cada vez melhor, de modo que se transforma automaticamente numa “nota de corte” para os relacionamentos: tudo o que for pior do que viver só irá desaparecer. No futuro só existirão solteiros e bem casados!

Os sites de relacionamento invertem as prioridades nas escolhas sentimentais. Se elas eram, principalmente para os homens, de baixo para cima (erotismo, aspectos sentimentais inespecíficos do tipo: timbre de voz, jeito de andar, sorriso…) para depois pensarem na questão do caráter e das afinidades, hoje eles contribuem para que os critérios sejam de cima para baixo: aval da razão, depois o sentimental e finalmente o erótico. Os três são indispensáveis, mas a margem de erro quando se começa a avaliação pela razão é bem menor. É claro que tudo isso também pode acontecer nos encontros no mundo real e que deveriam seguir o exemplo do virtual. Aliás, acho que falta muito pouco para que deixemos de pensar nas diferenças entre esses dois mundos.

Fonte: Revista Veja

Imagem: Pinterest 

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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Sobre a autora deste blog:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

2 comentários em “O amor não é uma mágica | Flávio Gikovate”

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