Isso é amor?


Por: Amanda Santos de Oliveira

Sempre ouvi aquele ditado sobre relacionamentos: quem está fora quer entrar e quem está dentro quer sair. Para aqueles que estão se relacionando, por que algo que deveria agregar, tantas vezes mantém pessoas presas? Quantas pessoas estão infelizes em seus relacionamentos e simplesmente não têm forças para tomar uma decisão? Por que parece tão difícil tomar uma decisão assertiva nesses casos?

Apaixonar-se

Depois de certa procura, passados intermináveis encontros e desencontros, mensagens, saídas, baladas ou restaurantes, conversas ao telefone e expectativas, duas pessoas se encontram, decidem ficar juntos e assumir um compromisso mútuo. Todos aqueles “sintomas” da paixão começam a ser experimentados e finalmente o indivíduo sente que está no caminho certo.

Segundo pesquisa da psiquiatra italiana Donatella Marazziti, citada por Carla Aranha[1] na Super Interessante, diversas substâncias cerebrais são liberadas quando estamos apaixonados. Então, tudo o que se sente não é “coisa da cabeça” de ninguém. Realmente, nosso cérebro passa por diversas alterações químicas. Aliás, conforme aponta a autora, é por conta dessa revolução química que a paixão não dura muito tempo. Segundo Donatella, prolongar essa estrutura cerebral, por mais que tal alteração traga algumas sensações agradáveis, não é biologicamente possível.

Passar pela paixão não quer dizer que tudo está acabado. Dizer ao seu parceiro que ele(a) “não é como antes” não pode ser negativo. Realmente é impossível que as coisas sejam como eram no início de tudo.

Ah o amor!

Nem sempre essa pessoa pela qual o indivíduo experimentou a paixão será escolhida para ocupar o cargo de “seu amor”. Lembrando que essa decisão nada mais é do que uma escolha. Segundo Carlos Messa[2], em reportagem à revista Psique Ciência e Vida, a escolha de um parceiro sempre apresentou características muito próprias. No século passado, por exemplo, a escolha se dava a partir de um padrão específico de esposa e marido. Segundo o autor, muito desses traços tradicionais ainda permanecem, visto que mulheres ainda procuram pelo ideal do marido bem-sucedido, quando buscam por um homem inteligente, estável e maduro. Já os homens, ainda procuram, mesmo que de forma inconsciente, uma mulher que possa ser “boa mãe”.

Quando esse parceiro é escolhido e esse vínculo se torna menos superficial do que o se vê na fase da paixão, o relacionamento caminha para outro momento. Segundo Hatfield (1988)[3], essa nova fase do relacionamento é chamada de amor companheiro, que se caracteriza por um processo de aproximação e exploração de semelhanças e diferenças de cada sujeito envolvido nessa relação. Assim, cada um apresenta um desejo de se revelar ao outro e compartilhar segredos, valores, fraquezas e esperanças. Aqui, também é presente uma preocupação profunda em cuidar do outro, trazer conforto à relação e a necessidade de uma proximidade física.

Para que este sentimento perdure é preciso que algumas características se mantenham. Segundo Branden (1988)[4], existem algumas necessidades implicadas nas relações amorosas. O autor cita a importância de se compartilhar valores, sentimentos, interesses e objetivos. Além disso, é necessária a existência de suporte emocional, o que quer dizer que precisamos de alguém que esteja devotado ao nosso bem-estar, além de um aliado aos desafios da vida, autoconsciência e autodescoberta, obtidos pelo processo de intimidade e encontro com outro ser humano. Tais satisfações, denominadas pelo autor como intimidade comunicativa, são vistas como muito valorizadas e promotoras de satisfação para o casal em um relacionamento amoroso.

O amor acabou, e agora?

Nota-se que, caso não hajam trocas em um relacionamento amoroso, invariavelmente ele vai ao fim. No entanto, mesmo com a falta de qualquer benefício na relação, muitas pessoas permanecem presas a um parceiro(a) que em nada lhe acrescenta.

Para entender melhor o que te mantém nesta relação, o exercício é de se perguntar: o que tenho medo de perder com ela? Muitas pessoas, por exemplo, se sentem seguras com um parceiro(a), mesmo que este tenha se tornado tóxico. Basta entender que aqui a carência é de segurança e esta carência tem que ser tratada em si para que esta não te mantenha refém de alguém. Essa carência pode ser substituída por muitas outras, seja a necessidade de um apoio emocional ou financeiro. Sem falar naquelas pessoas que simplesmente não conseguem se imaginar sozinhas ou não acham que conseguirão encontrar um novo companheiro. Entenda que estes fatores se referem a faltas que são suas e que devem ser tratadas como suas e não projetadas em um parceiro(a). Caso contrário, a infelicidade será permitida em troca de uma falsa comodidade.

[1] ARANHA, Carla. Paixão Revelada. Super Interessante, 2016. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/paixao-revelada/. Acesso em: 23/10/2016.

[2] MESSA, Carlos. As dificuldades atuais do relacionamento afetivo. Psiquê Ciência e Vida, nº 126. São Paulo, 2016. Disponível em: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/55/artigo178042-1.asp. Acesso em: 23/10/2016.

[3] HATFIELD, Elaine. (1988) Passionate and companionate love. In: HERNANDEZ, José Augusto Evangelho; OLIVEIRA, Ilka Maria Biasetto de. Os componentes do amor e a satisfação. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 23, n. 1, p. 58-69,  Mar.  2003 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000100009&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 23/10/2016.

[4] BRANDEN, Nathaniel (1988). A vision of Romantic Love. In: Sternberg, Robert J.; Barnes, Michael L. (Orgs.). The Psychology of Love. New Haven: Yale University. In: HERNANDEZ, José Augusto Evangelho; OLIVEIRA, Ilka Maria Biasetto de. Os componentes do amor e a satisfação. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 23, n. 1, p. 58-69,  Mar.  2003 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000100009&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 23/10/2016.

Imagem: Pinterest

Amanda Santos de Oliveira
CRP 04/43829

Psicóloga Graduada pela PUC Minas, atuante na área clínica em Belo Horizonte, oferecendo psicoterapia individual para adultos
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Instagram: @psicologabh

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