Bem me quero, bem me faço


Por: Maria Fernanda Medina Guido

Faz um tempo que tento escrever sobre autoestima e sempre empaco. Considero um assunto extremamente importante, fonte das nossas maiores inseguranças, responsável por vidas sem graça, apatia. E acho que depois de tanto ensaiar, entendi o porquê. Autoestima sempre foi o meu calcanhar de Aquiles. Então, para falar sobre o tema, impossível não falar de mim. Assim, compartilharei com vocês a minha experiência pessoal sobre o assunto.

O sobrepeso me acompanha desde pequena. Fui uma criança rechonchuda, uma adolescente gordinha, sou uma adulta obesa. Aprendi desde muito cedo que não fazer parte do padrão não era bom, que ser gordo não era bonito, que as palavras gordo e feliz não podiam fazer parte da mesma sentença. Meus pais erraram muito tentando me ajudar, mas depois de anos de terapia sei que eles realmente só queriam me auxiliar, me amavam demais e fizeram o que achavam certo. Mas não ajudaram. Durante anos acreditei que só poderia ser bonita e feliz se fosse magra. E como tentei. Fui ao endocrinologista pela primeira vez aos 5 anos de idade. O médico me disse que se eu continuasse comendo como eu comia naquela época, aos 18 anos pesaria 80 quilos. Não sei o que tanto comia na infância, mas nunca me esqueci dessa frase e, aos 18, para provar a ele e ao meu pai que ambos estavam errados, pesava 54 kg. Ao custo de remédios e fome, mas pesava 54 kg.

E assim foi por muito tempo, um engorda/emagrece sem fim. E ao contrário do que me prometeram quando era criança, quando eu emagrecia minha vida não se transformava num conto de fadas. Era mais fácil, claro, porque as cobranças diminuíam e as roupas cabiam, mas só. E depois de uns 20 anos de dietas e privações comecei a desconfiar que esse não era o caminho. E fui para a terapia.

Foi na terapia, às duras penas confesso, que finalmente entendi que meu peso, minha forma, eram somente uma parte dentre tantas de mim. Foi neste processo que entendi que não se tratava de poder ou não ser feliz estando fora do “padrão normal”, tratava-se de merecimento. Todos merecem ser felizes, independente do seu peso, altura ou cor.

Por isso, repito aqui o que digo quase que diariamente às minhas pacientes, algumas acima do peso, outras não, mas quase todas sofrendo por não estarem dentro do “padrão”, se aceitem agora, exatamente como estão. Se resolverem emagrecer para se sentirem melhor, ótimo, seu corpo agradecerá. Mas antes de tudo se aceitem. Entenda que você não é somente o seu corpo, isso é só uma parte sua. Se respeite. Se foque no que você tem de bom, valorize o que você tem de bom, se ame. Até porque quando nos aceitamos, nos livramos do imenso peso que é precisar da aprovação de terceiros o tempo todo.

Não quero de maneira alguma fazer apologia a comilança desenfreada, até porque se sua fome é de amor, carinho e atenção, não haverá comida no mundo que resolva isso. Precisamos resolver nossos “buracos”, encontrar outros prazeres, encarar nossos fantasmas para que não precisemos nos afundar num pote de sorvete toda vez que algo não dá certo. Mas o que cada um faz com seu corpo é responsabilidade somente da pessoa. Como diz meu homeopata, “seu corpo mais cedo ou mais tarde te cobrará pelos excessos” e vai mesmo. Mas como ele mesmo diz, “vai te cobrar”. Ou seja, a escolha é sua e o ônus dela também.

Faça reeducação alimentar porque você se ama e não quer que seu corpo se sobrecarregue, não porque você quer mais elogios das pessoas, faça atividade física porque você se sentirá bem ao terminá-la, não para que sua família lhe bata palmas. Ou não faça nada do que você já está cansada de saber que é o certo e tente viver bem com o corpo que você, neste momento, escolheu ter.

E para os que convivem com pessoas acima do peso, cuidado ao falar, ao cobrar. Aos pais que querem que seus filhos sejam saudáveis, basta dar o exemplo. Seu filho aprenderá muito mais observando o que você faz do que ouvindo o que você fala. Deem suas opiniões, ofereçam ajuda, estimulem um processo de mudança ou até mesmo deixem claro que não concordam com as escolhas da pessoa, mas acima de tudo, respeitem o que for decidido. E NUNCA diga a uma pessoa que ela não é bonita porque não está nos padrões desejados. Ela não é bonita para você, para os seus padrões estabelecidos, mas o mundo tem cerca de 7 bilhões de pessoas e ela com certeza será bonita para muitas delas, você não precisa concordar, só precisa respeitar, respeite.

Imagem: Pinterest

Colunista:

Maria Fernanda Medina Guido
Psicóloga – CRP 06/96825

Psicóloga formada pela Universidade Metodista de Piracicaba em 2006, especializada em Gestão de Pessoas pelo IBMEC, com mais de 10 anos de experiência em Recursos Humanos, atendendo individualmente adultos na abordagem Gestalt Terapia nas mais diversas queixas, desde 2012 em clínica particular e convênios.
Contatos:
http://www.mfernandapsicologa.com.br
(11) 97452-5200
e-mail: contato@mfernandapsicologa.com.br
Facebook.com/psicologamfernanda

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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