Ciumento(a)? Eu?


Por: Amanda Santos de Oliveira

Ciúme, tema presente nos atendimentos psicológicos, conversas com amigos, revistas, sites de relacionamentos e tantos outros meios. A maioria das pessoas ao se deparar com tal emoção, quando confrontada, se defende com uma justificativa bastante corriqueira: meu ciúme é normal. Mas, o que é normal, tóxico ou patológico neste caso?

O ciúme, o ciumento e suas relações

No senso comum, as opiniões sobre o assunto são muito divergentes. Para uns, pode ser uma manifestação do amor e cuidado pelo seu parceiro(a), para outros, manifestação de insegurança e angústia consideravelmente relevante na dinâmica de um casal. Segundo Kingham e Gordon (2004)[1], dentre as mais diferenciadas emoções, o ciúme é extremamente comum. Conforme Bringle (1995)[2], ele pode existir em quaisquer tipos de relacionamento, mas normalmente está associado aos relacionamentos amorosos.

Para Almeida et. al (2008)[3], todos cultivam certo grau de ciúme e existem situações que podem influenciar o surgimento de tal emoção. Segundo os autores, o ciúme geralmente surge quando um relacionamento valorizado é ameaçado devido à interferência de um “rival”. Neste momento, podem estar envolvidos sentimentos de medo, desconfiança, angústia, ansiedade, raiva, rejeição, indignação e muitos outros. Tais sentimentos surgem de forma variável se relacionando às experiências e interpretações de cada pessoa.

Em situações de ciúme, os sentimentos associados ao relacionamento amoroso tornam-se ambivalentes. Segundo Almeida et. al (2008), pode-se dizer que pessoas ciumentas permanecem divididas entre o amor e a desconfiança de seu parceiro (a). Tais sentimentos podem atingir um alto grau de perturbação e tornar o ciumento instável afetivamente e obcecado por triangulações que muitas vezes são imaginárias.

Segundo os autores, em uma relação afetada pelo ciúme, as pessoas passam a ser tratadas como objetos pelo próprio parceiro (a). Muitos parceiros (as), acabam por se se anular, perdendo sua identidade na tentativa de agradar seu companheiro(a) ciumento, visando suprir todas as suas expectativas.

Ciúme Patológico

Para Almeida et. al (2008), para identificar o ciúme patológico é preciso entender sua real motivação. Existe uma falsa perspectiva de que o ciúme é altruísta e de que a pessoa ciumenta, apenas quer o bem de seu parceiro (a).  No entanto, é preciso entender que fundamentalmente o ciúme é um sentimento egoísta, visto que leva o seu possuidor a agir visando vedar direitos da pessoa a ele vinculada. Por exemplo, uma pessoa ciumenta pode proibir seu parceiro(a) a ir a um determinado lugar, conversar com uma determinada pessoa ou agir de uma determinada forma. Logo, segundo os autores, quando o ciúme se manifesta, ele não visa à proteção do outro, mas sim a preservação de si mesmo de futuras preocupações em relação ao investimento amoroso realizado. Para Almeida et. al (2008), o ciúme patológico é um grande desejo de controle total sobre sentimentos e comportamentos de seu companheiro (a). Também se caracteriza por preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores, pelo passado de seus parceiros (as), ocorrência de pensamentos repetitivos, dentre outros.

Portanto, conforme os autores, nesta configuração uma relação pode ser caracterizada como doentia e destrutiva, na qual as pessoas se beneficiam umas das outras ou servem de garantia de que não serão abandonadas, desrespeitadas e/ou menosprezadas. Uma relação saudável seria o oposto, nela cada indivíduo tem sua identidade definida e respeitada, além de existir o desejo de fazer bem à pessoa amada, sem esperar recompensa.

Ainda, vale destacar que dentro de certos limites, o ciúme pode constituir uma demonstração de interesse pelo outro e se configurar como um reflexo desse amor. No entanto, segundo Almeida et. al (2008), o ciúme não deve interferir no comportamento ou na liberdade de seu parceiro. Mas, segundo os autores, a falta de quaisquer sinais de ciúme, também merece alerta, pois podem significar desgaste da relação.

Como lidar?

Certamente, não será fácil lidar com tal emoção. No entanto, é necessário confrontar comportamentos destrutivos para que uma relação possa ser mantida sem prejuízos para os indivíduos que dela participam. Fique atento aos limites de seu parceiro (a) e observe comportamentos de proibição ou vigilância extrema. Vale lembrar que independente da relação, as identidades de cada sujeito devem ser mantidas.

Além disso, lembre-se, o ciúme é uma emoção, portanto, para combatê-lo seja racional. Pense claramente nos fatos, situações e juízos de valor. Na maioria dos casos, os problemas são provenientes de fantasias, então esteja atento às situações que podem ser fruto de imaginação e não de constatações fundamentadas. Lembre-se, as relações amorosas devem ser benéficas. Se o ciúme tem feito mal e trazido comportamentos destrutivos à relação, repense.

Referências:

[1] KINGHAM, M., & GORDON, H. (2004). Aspects of morbid jealousy. Advances in Psychiatric Treatment, 10, 207-215. In: ALMEIDA, Thiago de; RODRIGUES, Kátia Regina Beal; SILVA, Ailton Amélio da. O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos. Estud. psicol. (Natal),  Natal ,  v. 13, n. 1, p. 83-90,  Apr.  2008 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2008000100010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  05  Nov.  2016.

[2] BRINGLE, R. G. (1995). Romantic jealousy. Social Perspectives on Emotion, 3, 225-251.  In: ALMEIDA, Thiago de; RODRIGUES, Kátia Regina Beal; SILVA, Ailton Amélio da. O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos. Estud. psicol. (Natal),  Natal ,  v. 13, n. 1, p. 83-90,  Apr.  2008 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2008000100010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  05  Nov.  2016.

[3] ALMEIDA, Thiago de; RODRIGUES, Kátia Regina Beal; SILVA, Ailton Amélio da. O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos. Estud. psicol. (Natal),  Natal ,  v. 13, n. 1, p. 83-90,  Apr.  2008 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2008000100010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  05  Nov.  2016.

Imagem: Pinterest

Colunista:

Amanda Santos de Oliveira
CRP 04/43829

Psicóloga Graduada pela PUC Minas, atuante na área clínica em Belo Horizonte, oferecendo psicoterapia individual para adultos
Contatos:
psi.amandaoliveira@gmail.com
Facebook: facebook.com\psi.amandaoliveira
Instagram: @psicologabh

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


Gostou deste conteúdo? Compartilhe nas redes sociais!
Cadastre-se também na opção “Seguir Psicologia Acessível”e receba os posts em seu e-mail!


PNG - ONLINE IMAGE EDITOR - Copia.png

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

Deixe um comentário (seu e-mail não será publicado)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s