Os segredos familiares e sua relação com as dificuldades de aprendizagem


Por: Susana Joaquim Rodrigues

Em geral, grande parte das crianças que chega aos consultórios de Psicologia, Neurologia e Psiquiatria Infantil traz consigo alguma queixa relacionada à escola, sendo muitas vezes o encaminhamento realizado pela instituição escolar. Dentre as queixas apresentadas, muitas se referem às diversas “dificuldades de aprendizagem”. Cotidianamente, tenho percebido que uma parte considerável dessas queixas está relacionada aos segredos familiares. Explico por que.

Alícia Fernandez em seu livro “A Inteligência Aprisionada” (1991), traz a seguinte afirmação: “Não há segredo de um só. O segredo age tanto na mente de quem o comunica como de quem o recebe”.  A autora ainda destaca que um segredo é sempre escondido apenas parcialmente, ou seja, de alguma forma ele circula no contexto familiar, marcando presença e causando efeitos, muitas vezes negativos, especialmente vinculados às dificuldades de aprendizagem das crianças, além de transtornos emocionais associados. Alícia vai ainda explicitar que conforme a origem e a dinâmica do segredo, as suas interferências na aprendizagem podem se dar de diferentes formas, quais sejam:

a)   Quando a pessoa é incumbida de guardar um segredo, seu problema na aprendizagem pode estar centrado no “mostrar”, como no caso da criança que sabe, mas não pode registrar o que aprendeu.

b)   Quando a pessoa descobriu um segredo porque espiou alguém, costuma aparecer a inibição cognitiva, pois o desejo de conhecer fica culpabilizado.

c)   Quando uma informação falsa é dada à pessoa no lugar da informação verdadeira, o problema de aprendizagem costuma apresentar-se como uma muralha de defesa ante a uma organização psicótica.

d)   Quando a pessoa vê alguma coisa e alguém lhe diz que não viu, isso se relaciona com o desmentido, mecanismo estudado por Freud como específico da psicose. Nesse caso, além do impedimento da aprendizagem, as consequências psíquicas são extremamente graves.

Um segredo é aquilo que fica escondido, que uma ou mais pessoas da família sabem, mas que não é contado para a criança. Cito o exemplo de crianças adotadas para as quais o fato não é revelado. Os motivos para que isso se mantenha em sigilo no seio familiar são muitos: alguns pais acreditam que a revelação pode causar um trauma, ou tem receio da relação que por ventura possa se estabelecer com a família de origem, ou ainda não sabem como contar. Cada família tem os seus temores e motivações para tal, mas é importante destacar que o fato de manter em segredo uma parte tão significativa da vida de seu filho pode, muitas vezes, trazer problemas na aprendizagem.

Aprender implica conhecer, investigar, descobrir. É a curiosidade que move a aprendizagem e é a capacidade investigativa do sujeito que está em jogo no aprender. Segundo Freud (1905), seu início se dá na mais tenra idade, com a curiosidade a respeito da origem dos bebês, repleta de muitos questionamentos por parte dos pequenos, com perguntas do tipo: De onde vêm os bebês? Como eu nasci? Como o bebê foi parar na barriga da mamãe? Entre tantas outras muito conhecidas por quem tem filhos ou convive com crianças pequenas. Mas que respostas buscam as crianças com essas perguntas? Trata-se de perguntas sobre as origens e essa é a base para a construção do conhecimento. É nesse momento que, segundo Freud (1905), também se inicia na criança a atividade que se inscreve na pulsão de saber ou de investigar. A grande pergunta a ser respondida pelos seres humanos é sobre a sua própria origem, sua história, sua vida. E é aí que o segredo traz problemas para a aprendizagem. Uma criança que não pode saber sobre a sua origem, tem um impedimento que pode trazer sérias dificuldades de aprendizagem e até mesmo causar a sua impossibilidade.

Mathelin (2008) descreve as dificuldades encontradas por crianças adotadas no processo de alfabetização, quando se deparam com a exigência da escrita. No seu texto intitulado “O que eu escuto eu não posso escrever” a autora reflete sobre o não dito no ambiente familiar e sobre as informações a que inconscientemente a criança tem acesso, mesmo que não sejam ditas verbalmente. Como no caso de Marion (nome fictício) citada no texto, que fora adotada em uma instituição e que posteriormente, na idade escolar, não conseguia demonstrar sua aprendizagem através da escrita. Marion lembrava-se de canções de ninar que remetiam a sua origem, mas ela não sabia. Sem compreender sua história, não podia registrá-la através da escrita, mas mantinha a capacidade de aprendizagem e expressão oral preservada. Segundo a autora, “O que a criança adotada sabe de suas origens é difícil para ser escrito num caderno escolar. O traço se torna então, ameaçador”. Outro aspecto trazido pela autora é sobre as mentiras que se contam às crianças em relação a sua origem, o que traz um complicador, pois nesse caso, aprender significa descobrir a verdade e desmentir seus pais, o que pode deixar a criança numa posição de não desejar aprender. O medo da perda do amor também está presente.

Um segredo não revelado é uma força que age silenciosamente em todos os envolvidos e suas consequências podem ser desastrosas, principalmente, quando é negado ao sujeito saber sobre sua origem e sua história. Conhecer o que está fora e o que está dentro de si é uma dinâmica que se retroalimenta durante a vida toda e impedimentos em um dos lados, certamente tem consequências no outro lado. Dessa forma, uma pessoa que está impedida de conhecer a si, também encontrará empecilhos para conhecer o mundo. E nesse sentido, mesmo com todas as intervenções pedagógicas realizadas pode não ocorrer a aprendizagem, sendo necessária uma intervenção de outra ordem.

É muito compreensível que pais e familiares tenham muitos motivos para manter um segredo, mas sabendo que isso pode trazer prejuízos graves na aprendizagem e no desenvolvimento psíquico de uma criança, convém reconsiderar a decisão. É mais fácil para uma criança recuperar-se de um trauma do que daquilo que ela nem sabe que a faz sofrer.

Referências:

FERNÁNDEZ, Alícia. A Inteligência Aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. Porto Alegre: 1991.

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Completas, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

MATHELIN, Catherine. O que eu escuto eu não posso escrever. In: BERGÈS, Jean; BERGÈS-BOUNES, Marika; CALMETTES-JEAN, Sandrine. O que aprendemos com as crianças que não aprendem. Tradução Maria Nestrovsky Folberg. Porto Alegre: CMC, 2008.

Imagem: Pinterest

Colunista:

Susana Joaquim Rodrigues
CRP 07/15823

Psicóloga com atuação clínica, especialista em Educação Especial e Inclusiva, membro da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.
Contatos:
Telefone: (51) 95396145
Email: susipsique@yahoo.com.br
Facebook: /psicologasusanajoaquimrodrigues
Instagram: @psicologasusanarodrigues

 

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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4 opiniões sobre “Os segredos familiares e sua relação com as dificuldades de aprendizagem”

  1. Realmente muito bom, uma excelente descrição do impacto dos segredos sobre a formação das crianças. Pude me ver em alguns casos e preciso ter outros em mente para evitar esses erros no futuro. É um tema muito interessante para pesquisa e observar esses casos poderia melhorar a situação das escolas.

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