O que tem acontecido com o mundo em que vivemos?


Por: Jackeline Leal

Estamos vivendo uma crise econômica gigantesca, e infelizmente não acredito que ela seja a única. Arrisco a dizer, na minha humilde opinião, que também não é a mais importante; atualmente estamos vivendo uma verdadeira crise existencial.

Mas o que isto significa? Significa um momento turbulento que deixa muito claro uma confusão geral de valores (pessoais, organizacionais, sociais…), falta de significado na vida pessoal e profissional, banalização da criminalidade, individualização, consumismo exagerado e muitas outras coisas das quais passaríamos horas falando, porém todas elas convergem para um grande vazio existencial.

Dias atrás, li uma reportagem que me chamou muita atenção e me marcou profundamente. Em uma praia em Florianópolis uma pessoa havia sido assassinada. Seu corpo estava coberto por um saco plástico, isolado com fitas amarelas logo na frente do mar, estendido na areia. Logo ao lado, a vida seguia normalmente, os banhistas tomando banho e curtindo o verão. Nem mesmo um curioso passava por perto.

O quanto este tipo de imagem mexe com você? Vamos lá, pense! De 1 a 10, qual seria a probabilidade de você ser uma das pessoas que permaneceram na praia curtindo o sol e o mar? E vamos lá, isso não é um julgamento, mas sim, um convite à reflexão.

Em qual lado desse vazio existencial você acredita estar? Do lado daqueles que possuem consciência desse problema ou do lado daqueles que vivem a vida tão apressadamente que nem sequer tiveram tempo de parar para pensar no assunto?

Fazendo um parâmetro com a realidade em que vivemos nas organizações, trago para vocês um trecho de uma matéria que li recentemente sobre a Geração Y. E uma parte em específico que me chamou a atenção, fala sobre esses jovens e suas necessidades consideradas “novidades ou cavalo branco” no mercado de trabalho.

O que os jovens querem? Segundo a Revista Melhor Gestão Jan/2016, eles querem “fazer o que gostam, ter a possibilidade de experimentar novas ideias e trabalhar em um ambiente de transparência”. Em seguida aparece a chamada: “A sua organização está pronta para atraí-los?”. A matéria é bem interessante e pertinente, com toda certeza, mas o meu objetivo ao citá-la é convidar você a refletir, ou seja; acredita mesmo que apenas os Jovens da Geração Y anseiam por trabalhar em um ambiente destes? Bem, eu acredito que não.

Mas será porque que estes critérios têm se tornado requisitos de luxo em processos de seleção? Será por que empresas que possuem estas características são consideradas um Oásis no deserto? Por quais motivos se acredita que quem já está empregado seja diferente de um perfil que busca SENTIDO no trabalho, SENTIDO na vida?

As empresas têm focado tanto nos resultados estratégicos, que em alguns casos tem se esquecido de que sem pessoas não se alcança resultados. O setor de Recursos Humanos tem perseguido tanto a premissa de profissionais com perfil de BP – Business Partner ou Parceiros do Negócio, que tem se esquecido de que o propósito de um setor que visa “cuidar de gente” deveria ser “cuidar de gente”. Bem, caso não lembremos mais do que isso significa, nada mais é do que tratar as pessoas de maneira correta, com transparência, com a possibilidade de experimentar novas ideias, tendo clareza do que é esperado delas, clareza de valores institucionais, morais e éticos.

Vivemos um vazio social tão grande que as pessoas têm adoecido nas empresas ao viverem papéis com os quais não possuem nenhuma afinidade, abrindo mão, muitas vezes, do que é moralmente correto pela entrega de resultados. Organizações assim são conhecidas por passarem por cima das pessoas, de quem elas são, dos seus sonhos!

A máquina está trabalhando tão acelerada que corre um sério risco de quebrar. No caso das pessoas, de surtar, adoecer, estressar… E o mais maluco nesta história é que as empresas continuam… continuam como as pessoas na praia, aproveitando o sol e o verão.

Mas como fazer para que as pessoas retomem a motivação de trabalhar em empresas, sejam elas públicas ou privadas? Como voltar a confiar em que estas instituições possuam valores e realmente estejam preocupadas com o capital humano?

É preciso estar atento, pesquisar antes de aceitar propostas de trabalho e utilizar o poder que se tem de escolha. É uma tendência de mercado também, que as empresas retomem as rédeas da situação repaginando as suas crenças e valores, ou simplesmente colocando, de fato, em prática aquilo que anteriormente só estava no papel.

Para isso, espera-se que as pessoas que estão nos altos escalões das empresas repensem suas estratégias e atitudes. É bem visível que do jeito que está não pode continuar, pois as pessoas estão fugindo das organizações, dos líderes, da falta de sentido no trabalho. É preciso que os setores de recursos humanos abram os olhos e comecem a tratar o problema de frente, ao invés de utilizar de práticas arcaicas, como demissões e represálias.

É preciso que os colaboradores sejam ouvidos e que possam fazer boas escolhas, de fato, quando buscam um local para trabalhar, mesmo neste momento quando o desemprego tem feito com que as pessoas necessitem, em alguns casos, optar pelo que vier.

Estas reflexões não são apenas minhas, elas estão embasadas pelo conceito de Modernidade Líquida do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman. Bauman (2001) diz “que vivemos uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e de insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retirados do palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade”.

E nós? Como podemos mudar essa realidade? Compreendendo um pouco melhor sobre nós mesmos, sobre nossos anseios, necessidades, sonhos, objetivos de vida, e a partir daí nos posicionarmos frente a esta banalização de valores do mercado ajudando o mundo a ser um lugar melhor.

Eu compreendo que ler “ajuda o mundo a ser um lugar melhor” pode parecer utópico, porém ter consciência do caos que está a nossa sociedade já é por si só des-alienador e nos abre portas para fazer diferente, para olhar o outro com um olhar altruísta, compreender e respeitar suas dificuldades, limitações e principalmente olharmos para nós mesmos de maneira mais respeitosa.

Temos que sentir sim, o que acontece ao nosso redor, temos que ter a permissão social para sofrer quando acharmos que é preciso. Temos que poder ser nós mesmos, e aí sim, decidir se eu quero estar no lado A ou no lado B, porque senão a vida passa, os sonhos passam e corremos o risco de acabarmos estendidos no chão como o rapaz da Notícia no início deste texto, sem nenhuma condolência, um sentimento de pena, enfim.

Para refletir.

Referências:

O que os jovens querem. Revista Melhor Gestão, pág. 30, ano 23, numero 337, dezembro 2015. Disponível em: www.revistamelhor.com.br. Acesso em: 20/01/2016.

Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltdta, 2001.

Imagem capa: Pinterest

Jackeline Leal
CRP 16/1585

Psicóloga Clínica, Pós Graduanda em Psicodrama pelo IDH/RS,
Formada pela FAESA/ES, atende em Vitória/ES.
Jackeline também é Coach de Carreira e Negócios e conta com
mais de 10 anos de experiência em desenvolvimento de pessoas.
Contatos:
E-mail: contato@jackelineleal.com.br 

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*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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