Saúde mental da mulher negra


Por: Laila Carolina Resende

Inúmeros são os estereótipos que recaem sobre pessoas negras e um dos que mais consigo identificar entre nós, mulheres, é que “mulheres negras são fortes”. Toda essa ilusão de força inata, criada em torno da figura da mulher negra, atravessa nossos corpos e nossas mentes. Não por acaso, mulheres negras são as maiores vítimas de violência obstétrica, afinal, mulher negra é boa parideira, o que dispensa o acompanhamento pré-natal e os cuidados na hora do parto.

A imposição dessa força é algo também extremamente danoso à nossa saúde mental, pois ela traz consigo a impossibilidade de acreditarmos que estamos doentes, fragilizadas e que por vezes precisamos de ajuda. Essa cobrança para que a mulher negra não sinta, nada mais é do que resquício desses quase 400 anos de escravização, que traz consigo a ideia de que somos objetos, obrigando-nos a negar nossa humanidade.

A sociedade impõe a essas mulheres papéis predefinidos: trabalho, força, resignação. Nossa psique sendo afetada pela construção transversal de misoginia e racismo não é menos danosa que nossa autoimagem distorcida por padrões eurocêntricos. Apaga-se a possibilidade de algum transtorno psicológico dentro da esfera das possibilidades de adoecimento das mulheres negras. Não há espaço para a fragilização, nem no corpo e nem na mente destas mulheres. Muitas vezes nos sentimos estafadas, cansadas, chorando escondidas, tendo crises de ansiedade e sentindo-nos culpadas por ceder à inércia. Por diversas vezes a gente só quer chorar e ser acolhida em nossa instabilidade.

Neusa Santos, autora do livro “Tornar se negro” cometeu auto extermínio ao atirar-se do alto de uma construção, deixando apenas um bilhete com pedido de desculpas pelo seu ato. Neusa Santos não é a única. A misoginia e o racismo desencadeiam uma série de fatores que culminam no adoecimento psíquico e que devem ser acolhidos e tratados por profissionais que entendem que racismo causa um efeito devastador na vida dessa parcela marginalizada da população. Precisamos nos curar. Acolher nossas fragilidades não nos torna pessoas fracas. Ao contrário, buscar alternativas de tratamento nos ajuda no fortalecimento interno e no enfrentamento dessas violências.

Imagem capa: Pinterest

Laila Carolina Resende
CRP: 04/46636

Psicóloga clínica
Formada pela Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)
Atende em Belo Horizonte
Contato:
lailacresende@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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