Fatores de risco para a saúde mental no início da idade adulta


Por: Susana Joaquim Rodrigues

O início da idade adulta, entre os vinte e os quarenta anos, é a fase em que o funcionamento físico e cognitivo está no auge. Contudo, no que diz respeito à saúde mental, esse é o período mais complicado. De acordo com Bee (1997, p. 398) “o risco de transtornos emocionais de quase qualquer tipo é maior entre os 25 e os 44 anos”. A autora também alerta para o fato de que o alcoolismo e outros comportamentos adictos estão em seu auge entre os 18 e os 40 anos, salientando que as taxas são maiores para os homens do que para as mulheres. A Organização Mundial da Saúde (OMS), alertando para os impactos do trauma na saúde, estima que as mortes por trauma ultrapassem em 32% a soma das mortes por malária, AIDS e tuberculose em todo o mundo. Segundo a OMS, a maior parte dos traumas ocorre com pessoas até os 44 anos. No Brasil, a maior causa de mortes entre jovens adultos são as mortes violentas (homicídios, suicídios e acidentes de trânsito). (OSÓRIO, 2001).

A saída da adolescência e a entrada na vida adulta não é tranquila e pode ser permeada por momentos de muito estresse. É uma fase de construção: da carreira, da família, dos relacionamentos. Segundo Bee (1997), ao adulto jovem cabe a tarefa de aprendizado e desempenho de três papéis fundamentais para a sua vida adulta: conjugal, parental e profissional. Nessa fase a maioria das pessoas deixa a casa dos pais para construir seu próprio lar, além de estabelecerem mais efetivamente as relações com parceiros íntimos. Para muitos, é a época em que constituem uma família, implicando na apropriação dos papéis conjugais e parentais (relação com os filhos). Também é nesse período que ocorre a decisão de ter ou não filhos, o que pode gerar conflitos e incertezas.

Ainda com relação ao estabelecimento da intimidade, Osório (2001) aborda a questão do narcisismo na contemporaneidade, afirmando que este dificulta a individuação e a intimidade, pois favorece o isolamento e traz obstáculos para o amor. Este isolamento pode aparecer de sete formas, segundo o autor:

Fóbico (medo de se expor), paranoide (medo de ser atacado), esquizoide (retraimento excessivo social e emocional), narcísico (“eu me amo”, “eu me basto”, “o outro não existe”), depressivo (baixa autoestima), compulsivo (ênfase na perfeição e no trabalho em detrimento das relações afetivas) e histérico (sedução, superficialidade, viver de fantasias ou ilusões). (OSÓRIO, 2001, p. 152).

O adulto jovem também está no momento de afirmação profissional. Nesse quesito, as mudanças relacionadas ao mundo do trabalho na atualidade trazem uma série de dificuldades, inclusive a de encontrar-se desempregado. O fracasso em estabelecer a intimidade não está relacionado apenas às relações amorosas, podendo aparecer também no campo do trabalho.

Além disso, é significativa a frequência dos transtornos afetivos ou do humor nesse período do desenvolvimento, seguido dos transtornos esquizofrênicos que também costumam surgir nos primeiros anos dessa fase, em especial no caso dos homens. O início ou agravamento do abuso e dependência de drogas é mais frequente nesse período, conforme afirma Vaillnate (In OSÓRIO, 2001).

Por esses e outros motivos, esta é a época em que muitas pessoas buscam atendimento psicológico, podendo dessa forma, serem auxiliadas na resolução dos conflitos e passar de forma mais saudável por essa fase do desenvolvimento, o que vai refletir diretamente nas fases seguintes. Como esse é um momento intenso, devido à grande responsabilidade que o adulto começa a assumir no trabalho, nos relacionamentos e na família, muitas vezes, ele se torna tenso e conflituoso, desencadeando vários tipos de adoecimentos psíquicos e acentuando aqueles já iminentes durante a infância e a adolescência. Um tratamento bem feito durante esse período evita prejuízos severos e propicia uma melhor qualidade de vida nessa fase e nas seguintes.

Além disso, é importante a manutenção das relações sociais e dos momentos de laser e descontração. Via de regra, as amizades adolescentes tendem a ficar distantes nessa época devido aos rumos que a vida toma e aos vários compromissos assumidos, bem como o tempo de lazer tende a ficar diminuído com o ritmo do trabalho. É importante reservar um tempo para atividades recreativas e relaxantes, sair com os amigos, dar risadas, viajar, etc, mantendo um pouco da leveza adolescente no início da vida adulta.

Referências:

Link

BEE, Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed Editora, 1997.

OSÓRIO, Cláudio Maria da Silva. Adultos Jovens, seus scriptis e cenários. In EIZIRIK, C. L; KAPCZINSKI, F.; BASSOLS, A. M. S. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

PAPALIA, Diane E. & OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. Tradução Daniel Bueno. 7ªed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Susana Joaquim Rodrigues
CRP 07/15823

Psicóloga com atuação clínica, especialista em Educação Especial e Inclusiva,
membro da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.
Contatos:
Telefone: (51) 95396145
Email: susipsique@yahoo.com.br
Facebook: /psicologasusanajoaquimrodrigues
Instagram: @psicologasusanarodrigues

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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