A crise da meia idade


Por: Susana Joaquim Rodrigues

Os anos da meia idade (dos 40 aos 65 anos) são, de forma geral, menos estressantes e mais felizes que os anos iniciais da idade adulta. Segundo Osório (2001, p. 159) “nestes anos adultos intermediários, a maioria das pessoas progride na carreira profissional, na vida conjugal e familiar e nas áreas cívico e socioeconômica, tendendo a ocorrer a consolidação dos anos anteriores”.
No entanto, nem tudo é tranquilo nessa idade. As frustrações decorrentes de objetivos não atingidos e a proximidade com a velhice podem ocasionar sentimentos de desvalia e de incapacidade, o que repercute negativamente na autoestima, podendo gerar uma crise emocional ou crise da meia idade, como é conhecida. Vários fatores contribuem para que esta ocorra.

Durante a meia idade o funcionamento físico e cognitivo começa a decair gradativamente. É o período em que ocorre o climatério, ou seja, a perda da capacidade reprodutiva. Embora ela ocorra em homens e mulheres, nos homens esse processo é bem mais gradativo. Papalia e Olds (2000) salientam que, em alguns casos, os homens podem sentir uma diminuição na capacidade de atingir e de manter a ereção. Outro aspecto relacionado ao climatério masculino é que “cerca de 5% dos homens de meia idade sentem depressão, fadiga, menor impulso sexual, disfunções eréteis ocasionais e queixas físicas vagamente definidas” (PAPALIA e OLDS, 2000, P. 435). As mulheres queixam-se dos “calorões”, das irritações frequentes e da diminuição da libido. Os autores salientam, contudo, que não está claro se estas condições estão relacionadas somente às alterações hormonais. O fato é que o climatério gera angústias tanto nos homens quanto nas mulheres, embora as mulheres relatem com mais facilidade os incômodos sentidos.

Nesta fase as relações familiares ocorrem em ambas as direções: adultos na meia idade estão tão implicados com os filhos quanto com os seus pais se ainda estiverem vivos, o que pode gerar uma sobrecarga emocional. Devido a esse fator, alguns autores denominam essa fase de geração sanduíche, afirmando que o fato de estar entre duas gerações familiares tendo que fazer a mediação entre estas pode ocasionar a sensação de sentir-se esmagado. É o exemplo de pessoas dessa idade que ainda estão envolvidas com o desenvolvimento dos filhos adolescentes ou jovens adultos e ao mesmo tempo, com responsabilidades no cuidado dos pais já idosos. Em alguns casos ainda, o adulto da meia idade pode ocupar-se da educação dos netos, o que pode ser muito satisfatório, mas também muito desgastante.

Outros acontecimentos que podem acarretar um desequilíbrio emocional na meia idade são as separações conjugais e o desemprego. Bee (1997, p. 501) citando estudos anteriores, afirma que “adultos recentemente separados ou divorciados sofrem mais acidentes automobilísticos, estão mais propensos a suicidar-se, perdem maior número de dias no trabalho devido à doenças e estão mais inclinados a deprimir-se”. Como consequência das separações conjugais têm-se os conflitos referentes à guarda dos filhos, visitas, divisão de bens, entre outros fatores que podem ocasionar o adoecimento psíquico dos envolvidos. Os novos casamentos e as diversas configurações familiares decorrentes destes também passam por momentos de turbulência.

O desemprego traz efeitos semelhantes ao divórcio. Os desempregados evidenciam maiores níveis de ansiedade e de depressão (BEE, 1997). É importante destacar que o desemprego está presente em todas as fases do adulto, sendo este o fator causador de maior estresse com relação ao trabalho. De acordo com Papalia e Olds (2000), o sofrimento não está relacionado apenas à perda do rendimento financeiro, mas também à queda na autoestima e às possíveis dificuldades no relacionamento familiar.

Por fim, Colarusso (In Osório, 2001, p. 160) afirma que a meia idade é um momento de avaliação. Segundo ele,

“A transição [na meia idade] consiste numa avaliação intrapsíquica de todos os aspectos da vida, precipitada pelo reconhecimento crescente de que ela é finita. Essa transição passa pela reavaliação de diversos aspectos da vida, pela necessidade de tomar decisões para a manutenção de estruturas como o casamento, a família, as amizades e a carreira, que foram construídas ao longo dos anos.”

Dessa avaliação podem surgir sentimentos de satisfação ou de insatisfação. Quando o que conseguiu atingir não corresponde ao que almejava, o adulto da meia idade pode sentir-se frustrado e ressentido, podendo desenvolver doenças mentais e alterações do humor e da motivação. É a chamada “crise da meia idade”. Contar com uma rede de apoio familiar ou de amizades ajuda a superar as dificuldades de forma mais saudável e com menores danos psíquicos, propiciando o amadurecimento necessário para a fase seguinte. Lembrando que o auxílio de um profissional deve ser buscado sempre que ao realizar essa avaliação a pessoa encontre mais fatores insatisfatórios do que satisfatórios ou quando os conflitos forem por demais estressantes ao ponto de serem traumáticos.

Referências:

BEE, Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed Editora, 1997.

PAPALIA, Diane E. & OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. Tradução Daniel Bueno. 7ªed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

OSÓRIO, Cláudio Maria da Silva. Adultos Jovens, seus scriptis e cenários. In EIZIRIK, C. L; KAPCZINSKI, F.; BASSOLS, A. M. S. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

Imagem capa: Link

Colunista:

Susana Joaquim Rodrigues
CRP 07/15823

Psicóloga com atuação clínica, especialista em Educação Especial e Inclusiva,
membro da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.
Contatos:
Telefone: (51) 95396145
Email: susipsique@yahoo.com.br
Facebook: /psicologasusanajoaquimrodrigues
Instagram: @psicologasusanarodrigues

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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