Da próxima vez que decidir amar, exija reciprocidade desde sempre


Por: Alex Valério

Sempre pensei bastante neste assunto e decidi escrevê-lo considerando três aspectos: a) a prática clínica; b) a infinidade de artigos, livros e textos que já li e; c) minha própria história de vida. Antes de prosseguir, devo advertir: se você espera encontrar um passo a passo de como se relacionar com outra pessoa, esse texto não vai ajuda-lo nisso. Até porque, não há receita para amar.

Não seria nada mal se existisse uma receita, admito. Imaginem só: Acrescente duas colheres de mensagens no WhatsApp, três xícaras de beijos, cinco colheres de carinho matinal e mais duas noturnas. Mexa delicadamente e despeje, sem deixar de mexer, uma lata de declarações de amor e mais duas gotas de saudade. Não deixe de fora o “desliga você” e, tão menos, o “eu te amo” a cada despedida. Ah! Acrescente o tempo todo algumas pitadas de carinho e sedução. Despeje numa forma untada com lábios de mel e mantenha quente, porque se apagar desanda. Ah, é preciso ter mão boa, do contrário (risos)…

Enfim, seria ótimo se pudéssemos simplificar nossos relacionamentos e corrigi-los acatando algumas dicas assertivas. Aliás, se fosse assim, ia faltar amor no mundo, certeza! Há, é claro, uma infinidade de textos que falam sobre saber ouvir, ser companheiro, cúmplice, fiel e uma série de coisas que sabemos ser importantes em um relacionamento. Também não é sobre isso que vamos discutir.

Gostaria que pensássemos e discutíssemos o início de tudo. Isso mesmo, o começo. A forma como os relacionamentos começam revela muito sobre como ele será. Sabe aquela decisão de atender ao pedido da namorada, mesmo sendo contra sua vontade, só porque está perdidamente apaixonado e não quer correr o risco de magoá-la? Então, isso é o começo de um futuro problema.

Não é novidade para ninguém que no começo tudo são flores, não é mesmo? A propósito, é comum deixarmos de fazer algumas coisas que tínhamos o hábito de realizar, é normal perdoarmos com mais facilidade e aceitarmos tudo o que nosso parceiro pede, estamos apaixonados, queremos fazer de tudo para continuar assim.

É difícil se controlar e deixar de querer sorrir com aquela pessoa que está nos fazendo tão bem. A paixão acaba mexendo conosco, afetando nosso “estado normal” de ser. Penso que não há como agir racionalmente quando se está no ápice do começo de uma relação amorosa.

Aparentemente, nos comportamos como se fôssemos perfeitos e não humanos. Queremos acertar e sempre agimos pensando no outro. Algum tempo depois, algumas antigas maneiras de agir, começam timidamente a reaparecer. É como se tivéssemos tirado férias daquilo que somos e vivido em uma pousada junto com o outro. Não há você, não há eu, só havia nós.”

Muitos casais querem ser “nós”. Há muitos textos por aí que discorrem sobre a importância de ser um só e de viver um para o outro. Concordo que é bonito e romântico pensar assim, mas não dá certo (poucas vezes eu sou tão categórico em um texto, mas para isso, serei). Isso mesmo, não dá certo. Se você vive ou viveu um relacionamento em que você é pelo seu parceiro e ele é por você, unicamente um para o outro, gostaria muito de conhecê-los e rever meu modo de pensar.

Se tivesse que pensar numa receita, seria algo em que contemplasse a existência de um eu, de um você e, também, de um nós. Mas, reparem, como três itens distintos, separados e individuais.
Deixar de viver por si e passar a fazer isso em função do outro é uma tarefa arriscada. Um relacionamento deste tipo tende a gerar dependência – um dos dois sempre vai acabar dependendo do outro para tudo, deixando de viver para si, para viver para o outro; submissão – você passa a aceitar e perdoar todas as coisas que te incomodam, relevando porque acredita que o amor é capaz de superar todas as adversidades.

Há uma série de relacionamentos abusivos que quando terminam, geram, na maioria das vezes, mais sofrimento para um dos dois. É necessário equilíbrio e honestidade numa relação. Você precisa jogar limpo e precisa permitir que o outro tenha espaço para si. Não invista tanto em relações simbióticas. Zele pela sua individualidade, esteja bem consigo e saiba com clareza das coisas que te fazem feliz.

Algumas vezes encaramos os relacionamentos como uma fuga da solidão, ou pior: como uma fuga de nós mesmos. Já conheci pessoas que emendavam uma relação na outra, pouco ficavam sozinhas. Outras que, apesar de não namorarem numa frequência alta, tinham uma série de aplicativos de relacionamento e conversavam com muitas pessoas ao mesmo tempo. Percebi que muitos faziam isso porque não suportavam a ideia de ficarem sozinhas, de terem que “olhar” para si.

Engajar-se numa relação saudável requer algum equilíbrio individual próprio. É importante estar bem consigo mesmo, é fundamental gostar de si. Você precisará confiar no outro, mas se não é capaz de fazer isso, precisa então, repensar alguns aspectos da sua vida. Procure um terapeuta, uma clínica-escola caso não tenha condições financeiras, mas faça algo. Faça algo por você e, antes de tentar preencher o vazio que você sente por não gostar tanto assim de ti, tente aprender a gostar (o terapeuta também pode ajudar nisso).

O intuito não é tornar esse texto mais do mesmo e, tampouco, falar sobre a importância do amor próprio. O objetivo central é alertar: preste atenção na maneira como você constrói seu relacionamento. Sabe tudo aquilo que você releva no começo? Sabe a vontade constante de querer fazer tudo pelo outro e, no fim, ver que ele não faz o mesmo por você? Então, busque equilibrar e construir começos conscientes, sem a exasperação da paixão. Você não precisa refrear o sentimento, deixa fluir, aproveite todas essas sensações maravilhosas. Mas, tente aproveitá-la sendo você (e gostando do que você é). Aja com franqueza, dialogue, fale do que gosta e, também, do que não gosta.

Se você, antes, fazia tudo pela pessoa, atendia todas as suas vontades e sempre estava ali por ela, não pode culpa-la por ser egoísta e querer que você faça tudo. Você sempre foi assim, quem está mudando é você. A outra pessoa apenas está querendo que seja como sempre foi, como você permitiu que fosse. Não abra mão da reciprocidade. Ela deve ocorrer sempre (e isso inclui o começo).

Relações que começam equilibradas, conscientes e sinceras tendem a florescer e propiciar diversos momentos especiais. Relacionar-se não é uma tarefa fácil, há uma infinidade de dificuldades. Se ainda não deu certo, não é culpa sua. Mas, ao tentar de novo, lembre-se: você não precisa atender todas as necessidades da outra pessoa – é para ser uma relação amorosa e não parental – e esteja ciente do que você é. Aprenda a ser suficiente para si. Complete-se antes de querer completar alguém.

Também publicado em: Minuto Terapia

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Alex Valério
CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela
Universidade de São Paulo.
Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.
Tem experiência com projetos que envolveram
pesquisa básica em análise do comportamento
(desamparo aprendido e comportamento supersticioso),
ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa
com familiares de mulheres que estavam encarceradas.
Realiza atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos.
Escreve para o próprio blog e, também, para o Educa2.
Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.
Contato: 
alex@minutoterapia.com
Facebook.com/ominutoterapia

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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