Cuidar do envelhecer é, também, cuidar do viver


Por: Alex Valério

O envelhecimento não deve ser sinônimo de solidão. Há uma série de tabus a respeito da velhice que ainda precisam ser superados. Ter amigos, conversar, compartilhar emoções ou experiências, receber atenção às necessidades básicas, se divertir e tantas outras formas “juvenis” de viver contribuem para qualidade de vida em qualquer idade. Nesse sentido, não deveria haver razão para espanto quando observamos pessoas de idade avançada se entretendo com os amigos, ou ainda, namorando.

A vida de um ser humano é dividida em etapas. Trata-se de um processo contínuo e isso começa a partir do nascimento. Com o passar do tempo, adquirimos experiências, valores importantes e maturidade. A última etapa de nossas vidas é a conhecida “velhice”.
É uma passagem subjetiva, onde a velhice pode ser encarada como algo natural da vida, com certos benefícios ou como algo indesejável, que não traz consigo nada de bom. Todavia, há uma verdade a ser ressaltada: a velhice é inevitável. Portanto, todos haveremos de passar por esta fase da vida, se obviamente chegarmos lá.

Pensar e discutir a questão do idoso é fundamental para o futuro do nosso país, já que muito em breve seremos um país composto por “velhos”. O último Censo Demográfico, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acusou uma tendência na diminuição da população jovem e aumento quadruplicado da população idosa, acima de 65 anos, até o ano de 2060. Esse cenário será impulsionado, principalmente, pelo aumento da expectativa de vida, para até 81 anos.

Boa parte da população idosa passa por grandes dificuldades, as mais comuns tem sido: abandono por parte da família, maus tratos, impossibilidade de acesso à saúde e preconceito. Os direitos dos idosos deveriam ser respeitados, porém não é o que tem acontecido nos últimos tempos. A mídia, frequentemente, noticia casos de maus tratos com pessoas que já estão na chamada terceira idade.

Há algum tempo o direito dos idosos vem sendo discutido e, com intuito de garantir qualidade de vida para essa população, criou-se o estatuto do idoso. O projeto que começou em 1997, só foi aprovado em 2003. O estatuto determina diretrizes e garantias de direitos direcionados à população idosa do país. O documento aborda uma série de assuntos, dentre eles transporte, saúde, moradia, esporte, lazer, trabalho, direito à vida etc.

Considerando que a expectativa de vida vem aumentando, a preocupação com os idosos de hoje, torna-se um fator de grande importância para os futuros “velhinhos” do país. Há algumas instituições já cientes das necessidades específicas dessa população e, nesse sentido, tem trabalhado para conseguir supri-las.

O envelhecimento é marcado por peculiaridades de cada indivíduo, tornando-o cada vez mais funcional ou disfuncional frente às atividades cotidianas. A maneira de enfrentar o processo desencadeado pelo envelhecimento contribui para a qualidade de vida na velhice, portanto, envelhecer deve ser compreendido como é: um processo natural e esperado, futuro do qual nenhum de nós tem escapatória.

As dificuldades e limitações desencadeadas nesse processo estão diretamente ligadas à forma como o indivíduo percebe o seu envelhecimento, entrelaçada por valores pré-concebidos durante todo o seu processo de desenvolvimento. Em consequência, existem vários fatores que contribuem para o desenvolvimento de conflitos e crises comuns a essa fase da vida, os mais comuns deles são: surgimento de doenças crônicas que deterioram a saúde e estão frequentemente acometendo os idosos; Modificações orgânicas x autoimagem; Viuvez, morte de amigos e parentes; Ausência de papéis sociais favoráveis; Dificuldades financeiras (aposentadoria) (STUART-HAMILTON, 2002).

Todos esses fatores contribuem para que o idoso tenha sua autoestima afetada, o que acaba gerando uma série de conflitos e crises na busca de uma identidade que passa por algumas mudanças nessa fase da vida. Para enfrentar todas essas mudanças, o idoso precisará recorrer as suas habilidades e repertórios comportamentais (formas pessoais de enfrentamento) e, também, àquilo que estiver disponível no ambiente.

Como ciência que se preocupa com a subjetividade humana, a Psicologia tem buscado contribuir de diferentes maneiras, favorecendo a identificação de características que possam auxiliar o indivíduo a compreender a nova fase da vida em que se encontra e, também, contribuindo para que possam reconhecer as necessidades específicas dessa fase. Além disso, tem atuado com foco em prevenir que sejam dominados por sentimentos negativos comuns em pessoas de mais idade.

Aquele que participa e que dispõe seu tempo para os idosos se aprofunda em um mundo repleto de recordações, algumas boas e outras ruins. Além disso, as pessoas que acompanham de perto, acabam observando a saúde se deteriorar com o passar do tempo, seja por consequência natural da vida ou por histórico de ações do passado.

Cada pessoa tem uma história para contar, tem algo a trocar e contribuir. Talvez faltem mais oportunidades, mais ouvidos e mais olhares que possam dar apoio a alguém que atingiu a terceira idade, essas coisas os ajudam a se sentirem mais vivos e úteis. Refletir sobre a velhice é inevitável. Todos nós estamos ligados a ela. Se não conhecemos ou convivemos com alguém que já a atingiu, um dia seremos nós os idosos.

A valorização aos idosos deve começar em seus próprios lares, ou seja, em suas respectivas famílias. O idoso deve ser amado, compreendido e respeitado, ele tem muito a oferecer à sociedade e aos mais jovens. Deve ser considerado como uma pessoa que adquiriu, ao longo de sua vida, muitas experiências.

É necessário compreender a terceira idade como uma realidade incontestável para todos, assim como nascer e morrer. Sabemos que hoje nosso país possui maioria jovem, porém, é necessário lembrar que os jovens irão envelhecer e criar um país de maioria idosa. Cuidar desta trajetória é cuidar de si mesmo. Cuidar do envelhecer é, também, cuidar do viver.

Referências:

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2013.

Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. IBGE. Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Estudos e Pesquisas, Informação Demográfica e Socioeconômica, 32. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em < http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv66777.pdf > Acesso em maio de 2016.

Legislação sobre o idoso: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto do idoso) e legislação correlata. Brasil. [Estatuto do idoso (2003) ] (Brasília: Edições Câmara, 2015) Disponível em < http://www2.camara.leg.br/responsabilidade-social/acessibilidade/legislacao-pdf/Legislaoidoso.pdf  > Acesso em maio de 2016.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Alex Valério
CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela
Universidade de São Paulo.
Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.
Tem experiência com projetos que envolveram
pesquisa básica em análise do comportamento
(desamparo aprendido e comportamento supersticioso),
ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa
com familiares de mulheres que estavam encarceradas.
Realiza atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos.
Escreve para o próprio blog e, também, para o Educa2.
Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.
Contato: 
alex@minutoterapia.com
Facebook.com/ominutoterapia

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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