Reconstrução


Por: Cris da Rocha

Cresci com meu pai me levando à casa dos primos e tias em alguns finais de semana. Eu adorava estar com meus primos e primas, vivenciando experiências de crianças. Brincávamos muito. Recebia todo carinho das minhas tias. Eram muitas.

Um sábado sim, outro não íamos ao Barreto visitar minhas tias Alicéia e Anízia. Elas nunca tiveram filhos. Notava que elas se sentiam minha mãe quando com elas estava. Tia Anízia ela tinha horário para tudo. Era assim: às 7 horas, café da manhã, às 11 horas, almoço, às 15 horas, café da tarde e às 18 horas, o jantar. Nunca vi uma pessoa tão regradinha e organizada. Algumas poucas férias passei com ela. Nós dormíamos juntas. Ela tinha bronquite e eu quase a matava de rir quando já estávamos na cama. Ela pedia por favor, pra parar de contar piadas. Uma pessoa com bronquite tem dificuldades para respirar quando não estão tão bem. Rindo então, piorava. Mas era tão bom ver a tia rindo, alegre. Achava ela tão sozinha (mentira, eu era palhaça mesmo).

Eu lembro de ficar brincando de jogar pedrinhas pro alto e ela me limitava a ficar na calçada em frente da casa brincando. Ela tinha um cuidado enorme comigo. Tia Alicéia, a mesma coisa. Mas ela me deixava um pouquinho mais livre.

Não era só para a casa dela que meu pai me levava, mas também para a casa de outros tios e lá eu tinha muitos primos e primas e brincava muito. Adorava a comida de todos eles. Eles sempre preparavam algo quando chegávamos lá e era na hora, não havia telefone, nem celular, tão pouco internet. Não tinha como avisar. Chegávamos na hora. E a alegria de nos receber sempre foi a mesma, mesmo depois de já estar crescidinha.

Eu adorava aqueles passeios na casa dos parentes. Eram da parte do meu pai. Ele sempre foi ligado à família dele, era bonito de ver. Nestas nossas idas e vindas, às vezes passávamos na pracinha, lá tinha balanços, escorregadores e meu pai me levava e ficava horas comigo por lá me empurrando, me segurando quando escorregava daquele brinquedo alto, sentia até um pouco de medo, mas era muito divertido.

Cresci gostando da minha família. As tradições mudaram um pouco quando fui crescendo, namorando, trabalhando, casando. Meu pai foi envelhecendo e já não ia com tanta regularidade à casa dos parentes. Minhas tias morreram, alguns tios também e tudo foi mudando. A nossa geração foi ficando muito ocupada e deixando pra trás estes encontros e os mesmos foram ficando escassos, hoje perdi o contato com quase todos os meus parentes. Meus tios todos faleceram e meu pai também. Mas com o tempo construí a minha família e tive uma filha. Fui ensinando a ela o quanto é bom termos vínculos fortes de amizade e amor com a família.

Ter contato com a família é algo muito importante pra nossa saúde mental quando os encontros são regados de amor, alegria e amizade. A família é e pode ser um fortalecedor de boa autoestima e criador de referências e de bons encontros. Quando as crianças estão crescendo, é importante para o desenvolvimento delas estes contatos primários. Não estou falando de obrigações familiares. Estes encontros devem ser prazerosos, tanto quanto a estimulação a eles e depois a naturalidade, a saudade de estar em contato físico com a família.
Hoje vejo minha filha já adolescente dizer que gostaria de estar com as pessoas da família. Que sente saudades. Que quer vê-los. Acho isso bonito. Sinal de que eles a fazem bem, os encontros são amorosos e eles a dão atenção. Fico muito feliz de saber que estimular estes encontros está sendo naturalmente desejado hoje por ela. Espero que ela passe isso para seus filhos. Digo isso, porque ela diz que deseja ter filhos. E cuidar deles como cuidamos dela.

Atualmente as pessoas vão vivendo suas vidas tão depressa e tão conectadas à internet que poucas são as famílias que se encontram pra trocarem afetos. Encontros de Natal, por exemplo, não vejo como algo natural. Muitas vezes são obrigatórios. Tem pessoas da família que vão alegres e outros que participam porque quase são obrigados veladamente a estarem juntos. Não é legal. Os encontros devem se dar por espontaneidade. Não porque é uma data específica e todos precisam estar juntos. Mas estarem juntos porque aquele encontro é bom.

É importante as crianças e adolescentes serem orientados sobre a importância da família. Esta, faz parte do fato de elas simplesmente existirem. Ensinar que amores construídos com a família são pra vida toda. E que é importante darmos esta importância enquanto o vovô, vovó, tios, tias, primos e primas ainda estão vivendo.

Ser grato pela existência e por todos que colaboraram para existirmos. Claro que não há perfeição em nossas famílias, algo sempre pode nos desagradar, mas se o amor for genuinamente construído ao longo dos anos, será um detalhe a ser superado. Quando o encontro tem significado emocional, valerá a pena dedicar um tempo àqueles que transbordam amor na nossa vida.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Ana Cristina Vieira de Souza
(Cris da Rocha)

São Gonçalo – RJ
Professora d0 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental;
Formada desde 2007 em Pedagogia;
Especialização em Educação: Orientação Educacional, Supervisão e Administração Escolar, 2008;
Já atuou como Orientadora Educacional na rede pública de Ensino do Município de Itaboraí do 1º ao 9º ano;
Trabalha com crianças e adolescentes no Projeto Sala de Leitura, onde atua como professora de Literatura, estimulando crianças e adolescentes ao desejo e hábito de ler.
Atualmente é estudante do curso de Psicologia nas Faculdades Integradas – FAMATH, em Niterói.
Contato: prof-anacris@hotmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


Gostou deste conteúdo? Compartilhe nas redes sociais!
Cadastre-se também na opção “Seguir Psicologia Acessível”e receba os posts em seu e-mail!


PNG - ONLINE IMAGE EDITOR - Copia.png

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

Uma opinião sobre “Reconstrução”

Deixe um comentário (seu e-mail não será publicado)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s