Um grito em prol da pluralidade humana


Por: Alex Valério

Como adepto da liberdade, da polêmica e, principalmente, das coisas que fogem as regras, sou a favor das minorias. Isso mesmo, das pessoas desfavorecidas por “algo que elas são”. Sou a favor dos negros, dos LGBT’s, dos viciados (em suas mais variadas formas), das mulheres, dos moradores de rua e de um bocado de outras categorias.

Na atual crise do país, – que não é apenas econômica – se você não for de classe média, hétero, cis gênero e branco, você tem uma grande chance de se enquadrar no time das minorias. É curioso pensar que, ultimamente, há uma série de minorias possíveis e inimagináveis. Penso que se nos juntássemos, seríamos certamente a maioria dominante. Mas, dominaríamos? E se dominássemos, quem é que marginalizaríamos?

Confesso que o “faça isso, faça aquilo” nunca funcionou muito bem comigo. Eu sempre tive interesse em questionar e entender o porquê das coisas serem como são. Se as mulheres são mais numerosas do que os homens, porque são consideradas como o sexo frágil? Imagino que seja porque, um dia, algum homem (que certamente deveria ser hétero, cis gênero e, arrisco dizer, branco – estou quase me tornando “brancofóbico”, o que não faz sentido, já que também sou branco) proferiu e assim ficou.

Aliás, é impressionante como estamos o tempo todo sendo influenciados culturalmente, não acham? E, antes de discordar, não venha me dizer que você não é influenciado, até mesmo quem protesta contra a influência cultural negativa é, de certa forma, motivado pelo seu objeto de recusa. Observem que contrassenso curioso: algumas minorias julgam como inconcebível que uma pessoa fora daquela realidade apoie sua causa. Já conheci, por exemplo, negros que dispensavam o apoio de brancos. Não, não estou criticando os negros, calma, foi apenas um exemplo. Posso também exemplificar falando a respeito dos gays que detestam os héteros ou das feministas que abominam os homens.

Não pensem que estou julgando ou culpando as minorias que agem dessa maneira, não estou. Pelo contrário, entendo completamente bem os que se comportam assim, anos de humilhação e exclusão acabam afastando as pessoas e criando a necessidade de que elas queiram se proteger, se distanciar, ou ainda, se unir com seus iguais (e apenas com eles). A culpa disso é histórico-cultural, começou bem antes de todos esses movimentos surgirem.

Mas, vejam como é interessante. Eu posso não ser parte de uma causa e lutar por ela e, nesse sentido, eu me torno também a própria causa. Precisamos entender que não somos – digo no plural, mas me refiro a cada minoria que luta por igualdade – o protagonista principal daquilo que defendemos. Parafraseando o querido Gregório: “Deixemos a própria causa ser o destaque e a protagonista de si mesma”.

Outro dia, durante um almoço qualquer, acompanhei uma discussão a respeito da chatice do mundo. Dentre as pautas, o bullying era qualificado como o fenômeno do momento. Parece que algumas pessoas acreditam que tudo está ficando muito exagerado. Pergunto-lhes: o gordinho da escola, aquele que tanto sofreu com as “musiquinhas” depreciativas ou que nunca era escolhido para compor o time de futebol por não ser tão veloz, será que se entristeceu com o fato do mundo ter se transformado no lugar “chato” que muitos julgam? Será que o mundo só ficou chato para os que oprimiam e que, agora, não podem mais “brincar” livremente com as pessoas? É claro que existem coisas que só são compreendidas por quem as vivencia, mas, de novo, isso não significa que quem não as vive, não possa apoiá-las.

Dar apoio a algo não precisa ser necessariamente experienciar aquilo, mas se posicionar como cidadão ético e político que contraria a (hétero) normatização e o “embranquecimento” social. Vamos, antes de julgar os que não são iguais a nós, juntar forças para apoiar e respeitar as diferenças.

Estamos, a cada dia que passa, nos tornando intolerantes, descrentes e egoístas. Permita-se, antes de fazer algum julgamento de valor, conhecer e aceitar alguém como esta pessoa é. Aceite que aquele seu colega que não tem problemas financeiros, hétero e branco, também pode fazer coro com a sua luta. Ele, fisicamente semelhante aos que segregam, pode ser uma exceção e se somar a tantas outras vozes que lutam diariamente contra a cultura do estupro, do machismo, da homofobia, da (hétero) normatização.

Antes de repetir o modelo que aprendemos, vamos questioná-lo, criticá-lo e fazer melhor. Romper o ciclo vicioso do ódio e do preconceito é o primeiro passo para a mudança efetiva do mundo que tanto criticamos.

Também publicado em: O Minuto Terapia

Imagem capa: Pinterest

Alex Valério
CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela
Universidade de São Paulo.
Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.
Tem experiência com projetos que envolveram
pesquisa básica em análise do comportamento
(desamparo aprendido e comportamento supersticioso),
ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa
com familiares de mulheres que estavam encarceradas.
Realiza atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos.
Escreve para o próprio blog e, também, para o Educa2.
Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.
Contato: 
alex@minutoterapia.com
Facebook.com/ominutoterapia

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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