[Filme] “Alabama Monroe”, a dor que não passa


Por: Maria Emília Bottini

O filme belga Alabama Monroe (2014) foi dirigido por Felix Van Groeningen e ganhou vários prêmios, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas não foi vencedor naquele ano, adaptação de uma peça teatral de Johan Heldenbergh (Didier) que aprendeu a tocar banjo.

Em um final de semestre uma ex-aluna me indicou este filme. Ela me disse: “professora, você vai amar”. Não revi mais minha ex-aluna depois daquele semestre, mas certamente lhe diria que foi uma bela obra de arte que me proporcionou conhecer. Está na lista dos meus filmes favoritos.

A narrativa não é linear, ou seja, a história é contata por uma sequência lógica de fatos, as cenas do passado se mesclam ao presente com a mesma intensidade, vão do choro ao riso, do sofrimento ao prazer, da morte à vida. É preciso atenção e uma dose de paciência para acompanhar a história de um casal e seu sofrimento pela perda da filha ainda em tenra idade.

A trilha sonora com músicas tradicionais bluegrass (parecido com o country, mas executado só com instrumentos de cordas), além de comoventes são inspiradoras. A música é um personagem dessa história a nos capturar com leveza na intensidade dramática que o filme nos impõe. A melodia nos faz companhia e nos emociona em diversos momentos, entoada pelos próprios atores.

A película nos apresenta a relação afetiva de Elise, tatuadora e Didier, tocador e cantor de banjo numa banda de bluegrass. Eles vivem uma tórrida paixão e dessa união nasce Maybelle, nem tão desejada pelo pai.

O filme se inicia com a quimioterapia da filha do casal, pois aos seis anos a menina apresenta alguns problemas de saúde como cansaço e sangramento que requerem investigação, hospitalização, isolamento devido à baixa imunidade causada pela leucemia.

Pai e mãe são amorosos e permanecem ao lado cuidando e dando carinho a Maybelle, a acompanham nas diversas internações e no tratamento. Nem sempre calmos, pois se irritam um com o outro, pela vivência da situação. Após uma série de tratamentos sem efeito, debilita-se e seu organismo não resiste e morre. No funeral, os amigos da banda cantam “vá dormir, bebezinho, sua mãe saiu e seu pai foi embora…” parece uma canção de ninar a embalar o sono dos pequeninos.

Após a morte de Maybelle, a história nos conduz à profunda dor e desesperança que acomete a mãe, que tenta reagir e seguir a vida com o esposo, mas a dor da perda a avassala, o choro é constante e a falta de ânimo se apropria de si.

O pai não é religioso, apenas não crê na vida após a morte, a mãe é crente e acredita que a filha se tornou um pássaro. Ela quer acreditar nisso, mas o marido cético não compreende. E aí se dá a diferença das reações diante do processo de luto.

A mãe tenta, mas se sente impedida a seguir, pois não encontra mais sentido na vida, se deprime e chora sozinha em seu carro, sua dor a consome. Tenta voltar a cantar, a trabalhar, a fazer sexo, mas nada lhe preenche a alma quebrada e ferida. O quarto da menina já não tem os vestígios da filha, os brinquedos se foram, as paredes pintadas com motivos infantis receberam tinta, o que ela e o esposo conseguem fazer juntos, mas nada é dito.

O luto se complica e sua dor se intensifica, sem o apoio do marido ou qualquer outra pessoa. Eles não falam da perda, o silêncio ecoa, calar não significa alívio da dor, por vezes significa mais dor. E quando a conversa ocorre é de acusação mútua de culpa, a agressão impera, não reconhecem a dor que estão vivendo, mas ela existe e se faz presente.

Elise sai de casa e muda seu nome para Alabama e o marido passa a ser chamado de Monroe, numa tentativa de mudar os nomes mudaria também a dor e o que sente, mas isso não é verdadeiro. Elise tenta suicídio tomando remédios, é encontrada a tempo de ser levada ao hospital e no caminho é reanimada.

O médico comunica Didier sobre a morte encefálica da esposa e que a possibilidade é desligar os aparelhos que a mantem viva, nada mais há para ser feito por ela. Decisão difícil de ser tomada a de desligar os aparelhos que permitem que sua esposa viva. Ela é seu grande amor, sua companheira, ele se recolhe em sua casa, decide e assim o faz, pois aquele corpo não é mais sua esposa, já não alcança a dimensão em que ela se encontra, pois considera que isso não é vida.

Os 111 minutos desse filme nos fazem acompanhar a dor desse casal que perde a filha e tem dificuldade de se apoiar nessa dor e no processo de luto que é partilhado por ambos. A agressão mútua e a culpa são o tom deste enfrentamento, não um diálogo que permite se ouvirem nesse momento, não há suporte social ou emocional para ambos e enfrentam na medida dos recursos internos de cada um.

A dor da perda é singular e subjetiva, cada um sente ao seu modo, um pode ser o continente da dor do outro, mas nem sempre isso é possível como se observa no filme. Por vezes a separação é comum, visto que um lembra o outro do que foi perdido e que o que havia antes não serve de suporte para o evento ocorrido.

Não tão distante de nossa realidade crianças morriam em quantidade muito grande e de várias doenças, a mortalidade infantil era alta. Hoje, a morte de uma criança é percebida e sentida como algo que não poderia acontecer, mas a morte está em todas as fases da vida, não está numa ou na outra idade, ela apenas está e nos acompanha silenciosamente no percurso do viver.

A morte de uma criança é vista atualmente como antinatural, antigamente era comum e aceita como processo da vida, inclusive diferenciando o impacto causado pela morte de um adulto que põe em perigo a vida social, pois o investimento é maior. Na criança investimos expectativas e esperanças de um vir a ser, diante da morte isso não se concretiza, levando consigo o que poderia ter sido.

Alabama Monroe é um filme que seduz, nos prende e nos faz pensar sobre temas difíceis, mas necessários: a perda de um filho, o luto dos pais, a eutanásia, um trabalho sensível para temas tão delicados.

Eu indico este filme a todos que desejam vivenciar e acompanhar uma história bem contada, se você se permitir, porque não é um filme fácil de ver. Informo que vão escorrer algumas grossas lágrimas de seu rosto e é bom que ocorra, porque algo dentro de você foi afetado, tocado. Para mim uma das funções do cinema é nos educar para sentir, esse filme cumpre seu papel nesse quesito e com maestria em minha opinião.

Imagem capa: Pinterest

Maria Emília Bottini
CRP nº: 07/08544

Psicóloga da Clínica Ser Saúde Mental e Rehab Wellness Center.
Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS).
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF).
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB).
Autora do livro “No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer”.
Atende em Brasília (DF).
Contatos:
emilia.bottini@gmail.com.
Página do meu livro:
Facebook.com/Nocinemaenavidaadificilartedeaprenderamorrer
Clínica Ser Saúde Mental – Coluna Trocando Ideias:
http://sersaudemental.com.br/blog/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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