A série “Os 13 Porquês”: indicada ou contraindicada? Uma análise breve de algumas das mensagens transmitidas


Por: Alex Valério

Nas últimas semanas um dos assuntos mais abordados foi a nova série do Netflix: “Os 13 porquês”. Trata-se da história de uma adolescente que cometeu suicídio e que, antes disso, gravou 13 fitas, listando as razões que a fizeram tomar esta decisão. O mais intrigante e envolvente é que cada uma das fitas se destina a uma pessoa que, de alguma maneira, a magoou, contribuindo para que ela se sentisse cada vez pior e, no fim, resolvesse findar com a própria vida.

No geral, a repercussão a respeito da série tem sido gigantesca. Tenho lido diversos textos, alguns escritores se posicionam a favor, já que a depressão é uma doença perigosa e silenciosa. Outros realizam críticas mais severas, apontando-a como inapropriada e perigosa. Este texto não irá tomar partido nem de um lado, nem de outro. Logo, não vou recomendá-la ou condená-la, mas gostaria que pudéssemos expandir um pouco nossos horizontes e refletir criticamente a respeito de alguns aspectos relevantes que são abordados em “Os 13 porquês”. Posso adiantar que, do meu ponto de vista, é inegável que há alguns aspectos problemáticos, mas ao mesmo tempo, também consigo listar alguns que podem ser plausíveis de discussão. Espero, minimamente, alcançar educadores, pais e tantos outros profissionais que lidam com pessoas.

Vamos começar falando sobre a adolescência. Digamos que este é um período um tanto quanto “complicado”. Diversos autores que estudam Psicologia do Desenvolvimento definem esta fase como conflituosa. Normalmente é marcada por diversas cobranças, como: pais cobram boas notas; ambiente escolar exige que você tenha amigos; os amigos esperam que você se relacione “intimamente” com outras pessoas ou que experimente algumas coisas; os adultos esperam que você se comporte educadamente; a mídia espera que você seja bonito (a) e que se vista de determinada maneira, ou ainda, que tenha certo corte de cabelo. E, além de tudo isso, os hormônios estão a mil. O corpo está mudando, se transformando e tudo fica bastante intenso.

Uma das primeiras reflexões que gostaria de listar é justamente o fato de que a série nos faz pensar a respeito das dificuldades pertinentes a esta fase e, também, a importância da participação dos pais, principalmente no que se refere ao monitoramento dos filhos – sabemos que eles não gostam/aceitam, ainda assim, nessa relação a autoridade deve ser dos cuidadores. Normalmente, neste período da vida dos jovens, é comum que os adultos não consigam ter um bom relacionamento com adolescentes. Ouço muitos pais dizerem que os filhos perderam o respeito, que passaram a responder e a contrariar tudo o que dizem.

Pois é, de fato costuma ser mesmo assim. Há alguns estudos, na Psicologia, que revelam que o adolescente tende a se afastar dos mais velhos, sendo comum que passem a se relacionar em grupos, buscando se juntar a pessoas que possuem algum interesse em comum, de modo que seja possível identificar-se com elas. Na série, é possível ver o quanto a garota suicida buscou estabelecer laços de amizade com diferentes pessoas. Na tentativa de se identificar e se ligar a alguém, ela frequentou lugares que não gostaria e tentou se relacionar com pessoas que não simpatizava.

Acredito que todos os que assistiram a série concordariam que, ao longo da trama, a personagem transmite alguns sinais de que algo não está bem. Na vida real estes sinais também costumam aparecer. Já presenciei isso na clínica e tenho colegas que atendem que também já passaram por isso. Normalmente, pessoas que decidem findar com a própria vida acabam deixando transparecer alguns sinais, geralmente é a forma que encontram para pedir socorro.

As pessoas que lidam com crianças e adolescentes – pais, cuidadores, educadores etc – precisam estar atentos a comportamentos que levantem suspeitas. Como já dito, é comum que adolescentes se distanciem dos adultos e passem algum tempo sozinhos. Entretanto, o isolamento completo pode indicar um sinal de que algo não caminha bem. Se isso está acontecendo, interprete como um primeiro sinal de alerta. Não se trata, necessariamente, de alguém que irá cometer suicídio ou que está sofrendo de depressão, mas pode ser um indicativo de que algo pode não estar bem.

Outro aspecto que é abordado em “Os 13 Porquês” é bullying. Aliás, é muito comum ouvir comentários de pessoas que julgam que há algum exagero nessa história de bullying. Já ouvi muitas pessoas falarem que o mundo ficou chato, que já não se pode mais brincar. Entendam, apesar da “chatice” que alguns julgam, para pessoas que sofreram – ou ainda sofrem – com brincadeiras maldosas, não há nada de chato. Só quem já foi motivo de riso, por ser diferente – muitas vezes fisicamente – da maior parte das pessoas, sabe o quanto é bom ter um mundo “um pouco mais chato”. Mas, sem criar polêmica, espero que todos sejam capazes de concordar que, esse tipo de conduta, pode gerar prejuízos significativos à todos os que vivenciam situações como essas.

Cabe, aqui, um exercício de empatia. Para você, uma brincadeira pode ser algo normal e não ter sentido pejorativo, mas se coloque no lugar daquela pessoa e considere o quanto pode não ser legal falarem do seu peso, da sua orientação sexual ou das suas atividades sexuais.

Observar e intervir diante de situações em que o bullying está sendo cometido é complexo, entretanto, é algo que requer a nossa atenção e, inclusive, também exige alguma capacidade de empatia. A discussão a respeito disso tem se tornado cada vez mais ampla, ainda assim, infelizmente ainda há algumas pessoas que julgam como exageros desnecessários. Triste é quando esse tipo de pensamento é compartilhado por colegas que se relacionam diretamente com a educação. Aos profissionais que atuam no contexto escolar, é importante estarem atentos e prontos para intervir.

Por enquanto explicitei apenas as reflexões importantes que “Os 13 Porquês” nos deixou. Vamos, agora, abordar alguns possíveis problemas que possam ser decorrentes da série. Antes de tudo, particularmente falando, não me pareceu, em nenhum momento, que a série tinha como pauta central a depressão ou o bullying. Na minha opinião, o foco principal está em algo chamado de vingança. Claro, gira em torno do suicídio e, ao falar sobre vingança, não estou diminuindo ou negando o sofrimento que a personagem sentiu ao passar por tantos episódios de frustração. Entretanto, há muita mágoa. O desejo de deixar uma fita para alguém, alegando que esta pessoa foi um dos motivos pelo qual houve uma morte, me parece perverso.

Confesso que fico preocupado com o aspecto “romantizado” que deram ao suicídio. E, olhando por este ângulo, concordo quando alguns autores têm dito que a série possa ser uma espécie de “gatilho”, já que o suicídio parece ser uma alternativa convidativa para acabar com um sofrimento gigantesco que se tem carregado nos ombros. Apesar disso, em alguns momentos, a personagem suicida discorre sobre o quanto gostaria de ter ouvido algumas coisas e, também, do quanto gostaria de ter sido ajudada. Em algum grau, isso até pode motivar pessoas que experimentam sentimentos semelhantes. Mas é claro que, ao mesmo tempo em que isso pode acontecer, outras pessoas podem se prender no fato de que todas as tentativas da personagem se frustram e, nesse sentido, podem passar a acreditar que não há nada capaz de causar alguma mudança do sofrimento atual.

A despeito de toda discussão, é válido frisar que as pessoas são diferentes, possuem uma história de vida diferente. É possível que para alguns o suicídio se apresente como uma solução (eis aqui o problema do gatilho). Para outros, porém, pode ser uma forma de ver que a ajuda é possível e que a morte em si, pode causar consequências a outras pessoas, gerando sofrimento em quem não merece sofrer. Não há garantias de exclusividades dos prejuízos e, tampouco, dos ganhos – embora eu concorde que, só o fato de que algo indica um risco para um sentido, algum alerta precisa ser feito. De qualquer forma é relativo. Tudo pode ser e, ao mesmo tempo, pode não ser.

Ouvi comentários de amigos, colegas, pessoas no metrô etc. No geral, muitas pessoas ficaram impressionadas com o quanto as pequenas coisas para uns, podem ser grandes para outros. Além disso, mais de uma vez ouvi comentários em que confessavam que, algumas vezes, falhas são cometidas sem que seja percebido.

Eu diria que “Os 13 porquês” tentou abordar diversos aspectos problemáticos em nossa sociedade, porém, ao tentar falar sobre tudo, algumas mensagens ficam superficiais e, com isso, não chegam a alcançar todos os espectadores. Algo que penso ser imprescindível abordarmos é que, tratando-se de uma série realizada pela indústria do cinema, há influências do sistema político que domina o mundo: o capitalismo.

Os tele-espectadores mais críticos perceberam facilmente o mistério constante que se criou a respeito da fita do Clay (um dos personagens da série). Espero que todos concordem que não há motivos para o garoto estar ali. Alguns dirão que ele não ajudou a garota suicida, que se omitiu. Aos que acharem isso, sejam empáticos, por favor. Era o jeito do rapaz, ele não deixou de fazer porque quis, mas não fez por não conseguir. Mas, voltemos ao capitalismo. Há um suspense demasiado a respeito das personagens a quem cada episódio se refere e, principalmente no caso do Clay, em vários momentos citam a fita dele como se fosse uma das mais graves, o que não se confirma.

Por fim, todos esses aspectos foram apresentados para que pudéssemos pensar considerando uma série de possibilidades e, também, pontos de vistas que, em alguns momentos, se contrapõem. Uma vez que a série está aí e dividindo opiniões, vamos tentar discutir a partir de algo que pode ser válido para nossa prática. Aos leitores que assistiram e ficaram muito impressionados, não pensem que a intenção dos criadores é unicamente alertar o mundo sobre os riscos da depressão, do bullying etc, eles (também) querem vender.

Este texto também foi publicado em: Educa2.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Alex Valério
CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela
Universidade de São Paulo.
Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.
Tem experiência com projetos que envolveram
pesquisa básica em análise do comportamento
(desamparo aprendido e comportamento supersticioso),
ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa
com familiares de mulheres que estavam encarceradas.
Realiza atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos.
Escreve para o próprio blog e, também, para o Educa2.
Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.
Contato: 
alex@minutoterapia.com
Facebook.com/ominutoterapia

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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