A mulher “Wabi-Sabi”


Por: Cristiane Mattos

São sete da manhã e o sono precisa ir embora. Apesar da pressa ainda encontro tempo de fixar o olhar no espelho. Meus olhos percorrem o contorno do rosto, uma espinha fora de época ali e acolá. Uma esticadinha na pele abaixo do queixo: “Essa sobra de pele, quando foi que veio parar aí?”. Olheiras persistentes, marquinhas nos cantos dos olhos: “uma, duas, três…” paro de contar! “O que estou fazendo?” Definitivamente este não é o melhor jeito de começar o dia.

Não existe pior maneira de viver do que aquela em que você é seu pior inimigo. Aguardando uma consulta de rotina, folheando algumas revistas para não ver o tempo passar, me deparei com um termo que até então desconhecia: Wabi-Sabi. Basicamente é uma visão de mundo relacionada com a ideia de imperfeição. Significa aceitar o imperfeito, a assimetria das formas, a incompletude das coisas, a simplicidade, a finitude. Uma filosofia de vida.

Aceitação pode representar mais agradecimentos do que reclamações. O cabelo nunca está bom, a pele sempre tendo o que melhorar, a roupa que não serve, o salto que machuca, a unha que não cresce. O contraditório é que somos taxadas de fúteis se dedicamos energia, tempo e dinheiro com a aparência e, ao mesmo tempo, somos cobradas de tal forma que nos culpamos por não estarmos com a unha feita, o cabelo liso, o peso ideal. Nos cobramos por não nos enquadrarmos nos padrões de beleza exigidos, e sempre inventam novas e mais cruéis exigências.

Jamais o desejo de ser o desejo do outro foi tão determinante para a nossa cultura como agora, particularmente para nós mulheres. O nosso corpo virou signo do consumo e alvo de agressões, muitas vezes praticadas por nós mesmas.

Acompanhei um amiga na compra de um vestido. A atendente muito solícita tratou logo de tecer elogios, assim disse ela: “Nossa ficou lindo querida! O decote ficou ótimo, você tem seios fartos, é bem acinturada, só não tem bunda! Mas você pode colocar aquelas calcinhas com enchimento e ficará PER-FEI-TO!” Ela falou assim pausando entre as sílabas, o que deu mais dramaticidade ao comentário. Minha amiga e eu nos entreolhamos, naqueles segundos intermináveis que não se sabe o que dizer ou o que não dizer. Uma mistura de incredulidade com riso histério nos pegou de surpresa. Minha amiga saiu desconcertada, sem bunda e sem vestido. Mas com uma certeza: ela seria perfeita, aos olhos da atendente, se suas nádegas fossem mais avantajadas. Seria cômico se não fosse trágico. Não ficamos com raiva da atendente. Ela pode até ter sido indiscreta, mas não a culpamos nem a crucificamos, ou reclamamos com a gerente. Antes de mais nada, sabíamos que ela apenas reproduzia o discurso de um padrão de beleza. Só isto. Discurso este que, você, eu, todas nós somos vítimas e algozes.

Estamos imersas em padrões de beleza que colonizam nosso pensamento e propagam ódio ao nosso próprio corpo. Cabelo? Alisa! Cintura? Aperta! Pele tem de ser “de pêssego”! Sombrancelha? Definida! Boca? “À la Anjelina Jolie”! Rugas? Nem pensar! Botox nelas! Seios pequenos? 300ml em cada por favor! Pêlos? Para que tê-los? Depila! Bunda? Tem que ser grande! Extra G! E empinada! Na nuca! Quem não tem pode comprar uma calcinha com enchimento.

Ser bonita hoje em dia cansa. É exaustivo e oneroso. A indústria da beleza fatura rios de dinheiro com esta falácia na estima feminina. Desde tenra idade nos acostumamos a ouvir mentiras sobre o que é ser feliz. A história é mais ou menos assim: se você não for bonita (de acordo com o conceito de beleza da época em que você vive), você não vai arrumar alguém que te queira, não vai casar, nem ter filhos, nem emprego bom vai ter porque não tem boa aparência. Em suma, seja bonita e será feliz como nos contos de fadas. Só esqueceram de dizer que o “era uma vez” foi feito para aquela Era, e naquela vez. No aqui e agora, não há príncipes, e você não é princesa e não tem castelo também. Não nos contaram que modelos a serem seguidos só servem para desviar do verdadeiro caminho e padrões de beleza são manuais de como “viver infeliz para sempre”.

Se cuidar faz um bem danado. Comer bem, dormir bem, fazer exercícios é sempre bem vindo. Modificar o que acha que não está bom, admirável. Mas este implacável sentimento de inadequação que habita os corações e mentes femininas nem de longe é saudável.

Talvez devêssemos conhecer melhor o pensamento “wabi-sabi” e aprenderíamos a admirar a beleza da idade, a transitoriedade da vida, a simplicidade das coisas, a perfeição do imperfeito, do incompleto, do tornar-se como um processo eterno. Nos aceitaríamos melhor e perceberíamos que as marcas do tempo no nosso corpo e aquelas da nossa alma, merecem ser comemoradas e não escondidas, pois representam uma vida verdadeira, que valeu a pena viver.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Cristiane Mattos
CRP 12/16070

Psicóloga por vocação. Amante das letras, dos livros, fotografias e pessoas. Escrever é fazer ressoar sentimentos através das palavras.
Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia, 
especialista em Terapia de Casal pelo Centro de 
Estudos da Família e do Indivíduo – Porto Alegre/RS.
Contato:
E-mail: mattos.cbm27@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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