[Estudo] Aprender a ler tardiamente pode alterar partes do cérebro que não são associadas à linguagem


Por: Jacqueline Gonçalo

A leitura é vista pelas pessoas como um ato quase que automático, mas nosso cérebro não é naturalmente acostumado a essa atividade, para executá-la ele faz uma verdadeira revolução em nossas sinapses para que assim possamos compreender o que as palavras querem dizer. Isso deve-se ao fato de que, se considerarmos a escala de evolução humana, a escrita é algo recente, que surgiu cerca de 5 mil anos atrás. Se pararmos para recordar o nosso próprio processo de aprendizagem, podemos dizer que passamos por alguma dificuldade, por isso cada vez mais a psicologia e a neurociência têm trabalhado para desvendar o que acontece durante a aprendizagem da leitura.

O matemático e neurocientista francês, Stanislas Dehaene, afirma em seu livro “Os neurônios da leitura” que todas as crianças, seja qual for a língua, encontram dificuldades durante o processo de aprendizagem. E ainda dá uma estimativa de que cerca de 10% das pessoas quando adultas, não conseguem dominar a compreensão de texto.

Já no Brasil o índice de analfabetismo ainda é grande, são 12,9 milhões de analfabetos, de acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada em novembro de 2016, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2005, 11,1% das pessoas com mais de 15 anos não sabiam ler e escrever, essa proporção caiu em dez anos para 8%, segundo dados do IBGE.

O processo de alfabetização é primordial para a inserção na sociedade, e uma pesquisa recente feita por pesquisadores do Instituto Max Planck de Cognição Humana e Ciências Cerebrais da Alemanha, mostra que quando um adulto aprende a ler, são ativadas regiões do cérebro que não estão ligadas à leitura e escrita.

O tálamo e o tronco cerebral são afetados quando o adulto passa pelo aprendizado. Essas regiões são responsáveis por coordenar informações dos sentidos e movimentos do corpo. Para que o cérebro consiga processar a leitura, regiões do sistema visual interagem com o sistema linguístico, há um atrelamento de informações motoras e sensoriais, que incluem a concentração e atenção.

Os pesquisadores ainda constataram que depois da alfabetização ocorreram mudanças na atividade do córtex, região cerebral encarregada pela aprendizagem e memória. O tálamo e o tronco encefálico acabam auxiliando o córtex a selecionar informações visuais relevantes para a leitura, antes mesmo do cérebro percebe-las. Todo esse estudo explica um pouco sobre a importância da alfabetização, mesmo depois de adultos.

“É difícil para nós aprendermos um novo idioma, mas aprender a ler na nossa língua natal é muito mais fácil. Essa é uma prova de que o cérebro adulto pode ser incrivelmente flexível”, afirmou Falk Huettig, líder do estudo, ao jornal Science Advances.

Resumindo, o estudo revelou a ligação entre visão e concentração, explicando o porquê leitores ávidos conseguem navegar e filtrar informações mais rapidamente, além de mostrar um possível tratamento para a dislexia, que muitos pesquisadores associam ao mal funcionamento do tálamo. Mas para isso é necessário aprofundar os estudos e os testes devem ser aplicados em um número maior de pessoas.

Referências:

DEHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.

Taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade, por sexo – Brasil – 2007/2015. (Disponível em: http://brasilemsintese.ibge.gov.br/educacao/taxa-de-analfabetismo-das-pessoas-de-15-anos-ou-mais.html)

IBGE – http://www.ibge.gov.br/home/

Mas Planck Institute for Psycholinguistics – http://www.mpi.nl/

Learning to read alters cortico-subcortical cross-talk in the visual system of illiterates (Disponível em: http://advances.sciencemag.org/content/3/5/e1602612)

Imagem capa: Pinterest

Jacqueline Gonçalo

Bacharel em Comunicação Social Hab. em Jornalismo
pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Contato:
jacquelineap.goncalo@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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