A Violência Contra a Mulher tem que parar!


Por: Amanda Santos de Oliveira 

Cada vez mais nos deparamos com novas notícias de mulheres sendo vítimas de abuso físico, sexual ou moral. Se pensarmos bem, o número de notícias é assustador. Porém não porque esse tipo de violência nunca existiu, mas podemos ter noção de como ocasiões anteriores foram subnotificadas e negligenciadas. Um dos primeiros avanços é este: as mulheres têm, em seu tempo, perdido o medo de denunciar. Então é preciso comemorar essa pequena vitória.

No entanto, sabemos que muitas delas ainda não deram este primeiro passo. Faz parte de nosso papel, entender o porquê e incentivar aquelas que vivem qualquer tipo de violência a entenderam sua situação como agressão e não apenas, fruto da normalidade.

Para isso, discutiremos aqui quais são as principais consequências sofridas por vítimas de violência, sejam elas físicas ou psicológicas, em curto, médio ou longo prazo. Que tal falarmos não só do que tem acontecido por aí, mas como essas mulheres vivem seus dias neste contexto?

Contextos de Violência – Consequências em curto prazo e médio prazo

Segundo Schraiber e D’Oliveira (1999)¹, a violência contra a mulher se refere a sofrimentos e agressões dirigidos especificamente às mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Isso porque existem situações experimentadas pelo gênero (assédio sexual, moral, violência doméstica, etc.) que refletem uma diferença de estatuto social da condição feminina fazendo parecer que tais situações de violência experimentadas pelas mulheres são experiências usuais de vida.

Algumas das violências sofridas, além de causar os danos já esperados, podem causar danos ainda maiores. Segundo os autores, a violência conjugal tem sido associada com o aumento de diversos problemas de saúde como queixas ginecológicas, depressão, suicídio, gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis (DST), queixas gastrointestinais, queixas vagas, dentre outras. Ainda, conforme Schraiber e D’Oliveira (1999) mulheres que sofrem violência física e sexual parecem utilizar mais os serviços de saúde. No entanto, os profissionais de saúde não identificam a violência em prontuário como parte do atendimento.

Além dos casos citados acima, nota-se uma prevalência ainda maior de casos de violência física e sexual em mulheres gestantes. Portanto, a gravidez pode se constituir ainda um risco aumentado para violência.

As estatísticas dos serviços de saúde mostram, segundo os autores, 2,8% de casos de violência doméstica são identificados pelos médicos em uma consulta em serviço de emergência, enquanto o estudo mais detalhado de todo o prontuário mostrou que 9,6% destas mulheres tinham sido agredidas fisicamente e 15,4% delas tinham histórias de lesões prováveis ou sugestivas de violência doméstica. Ainda em São Paulo, um estudo em um serviço de atenção primária mostrou que 57% das mulheres atendidas relataram algum episódio de violência física na vida. Apenas 10% dos casos estavam registrados em prontuário.

Contextos de Violência – Consequências em longo prazo

Além de todas as violências citadas acima, existe ainda a “violência estrutural”. Conforme Schraiber e D’Oliveira (1999), tal violência, campo de estudo da Saúde Pública, chama a atenção para essa violência imperceptível. Tal contexto, já embutido na sociedade, é determinado pela apropriação desigual de bens e informações e é menos visível do que episódios mais agudos como no caso da violência física ou sexual explícita.

Ainda, outra consequência em longo prazo tem sido a nomeação “vítima” permanecer muito associada a mulher historicamente. Para os autores, esta é uma construção social do feminino que concebe a ideia de mulheres como dependentes. Do ponto de vista histórico, a partir daí se dá a construção de uma cultura de “proteção” à mulher que não se confunde com cuidado. A proteção neste aspecto, segundo Schraiber e D’Oliveira (1999), se traduz em uma cultura de sujeitos dependentes, infantilizados como sujeitos sociais que precisam de eterna vigilância e educação rigorosa. Em um passado (não tão distante) isso significava claramente a existência de punições físicas e sanções morais, para o aprendizado das adequadas condutas sociais.

Como é possível notar, em longo prazo isso significa deturpar completamente o conceito de gênero. Entendendo as mulheres como fracas, vítimas que precisam ser ensinadas e em alguns momentos, punidas, sem ao menos existir um questionamento ético a respeito. Sabemos que tais concepções têm sido repensadas, com o esforço do feminismo, a fim de tirar a mulher deste lugar. No entanto, muitas de nós ainda nos percebemos nele.

Sofro violência, o que fazer?

Viver sem violência é um direito. Não é preciso apenas entender isso, mas colocar em prática. A primeira coisa que você precisa saber é que você não precisa (e não irá) passar por isso sozinha. Além de amigos e familiares que podem te ajudar, você tem ainda, meios legais de denunciar e de se resguardar.

Segundo a Agência Pátria Galvão², nos casos de violência doméstica, por exemplo, seja ela física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual a mulher tem direito a acolhida e escuta de profissionais da rede de atendimento a mulheres, medidas protetivas de urgência que podem consistir na proibição de aproximação do agressor, atendimento de saúde e psicossocial especializado e continuado, se necessário e muitas outras medidas. Em casos de violência sexual, existe o direito de diagnóstico e tratamento das lesões físicas no aparelho genital e nas demais áreas afetadas, profilaxia de gravidez e contra DSTs, coleta de material para realização do exame de HIV, dentre outras medidas.

Lembre-se: é preciso denunciar! Segundo a Agência Pátria Galvão, a partir do registro de boletim de ocorrência, a autoridade policial tem algumas obrigações, como instaurar o inquérito policial, tomar de imediato, as medidas necessárias para iniciar o inquérito contra o agressor, identifica-lo e intimá-lo a depor, dentre outras providências.

Não sabe como denunciar? A rede de atendimento à mulher vítima de violência pode ser acessada pelo Ligue 180. Segundo o “Dossiê Violência contra as Mulheres” o serviço de ligação gratuita atua desde 2005 e é hoje o principal acesso à rede de enfrentamento à violência contra a mulher do país. Ainda, casos de violações dos direitos humanos das mulheres também podem ser atendidos pelo Disque 100.

Referências:

[1] SCHRAIBER, L. B., D’OLIVEIRA, A. F. L. P. Violence against women: interfaces with Health care, Interface Comunicação, Saúde, Educação, v.3 , n.5, 1999. Disponível em: http://saude.sp.gov.br/resources/ses/agenda/i-encontro-tematico-de-humanizacao/violencia_contra_mulheres_-_interfaces_com_a_saude.pdf. Acesso em: 06/09/2017

[2] Agência Pátria Galvão. Dossiê Violência Contra as Mulheres. Direitos, responsabilidades e serviços para enfrentar os serviços. Disponível em: < http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/acoes-direitos-e-servicos-para-enfrentar-a-violencia/&gt;. Disponível em: 06/09/2017.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Amanda Santos de Oliveira 
CRP 04/43829

Psicóloga Graduada pela PUC Minas, atuante na área clínica em Belo Horizonte, oferecendo psicoterapia individual para adultos
Contatos:
psi.amandaoliveira@gmail.com
Facebook: facebook.com\psi.amandaoliveira
Instagram: @psicologabh

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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