O que é essencial?


Por: Maria Emília Bottini

Estudei no meu doutorado a temática da morte e do morrer. Isso não foi, em nenhum momento, mórbido ou triste, muito pelo contrário, me deixou mais consciente da vida e do viver, mas também do meu morrer. Viajei para a Itália em 2010 e adoeci, contrai uma fasciíte necrosante e fiquei internada por 16 dias. Após a internação tive uma sequência de problemas de saúde que culminaram em uma pneumonia dupla. Todos esses eventos proporcionaram-me a consciência da finitude e resolvi estudar a temática da morte, sigo ainda com medo dela, mas não de falar dela.

A morte é parte do nosso desenvolvimento a nos acompanhar desde a primeira respiração até a última delas, por mais que a neguemos durante o percurso do viver, é uma companheira inseparável da vida; a morte é parte do viver, ela acontece em nós o tempo todo.

Estava trabalhando com um dos grupos em Clínica de saúde mental quando uma paciente, estimulada pela discussão, nos disse: “Eu quero perguntar algo para vocês: O que estará escrito no seu epitáfio?”. Não lembro qual foi a motivação da pergunta, mas lembro que a paciente teve uma aproximação profunda com a morte, um enamoramento, ainda que momentâneo, que a fez desejar partir com ela de mãos dadas.

O grupo ficou em silêncio por alguns segundos. Não estamos acostumados a perguntas desta natureza. O silêncio foi quebrado por outro paciente do outro lado da sala ao perguntar “E o que é mesmo esse tal de epitáfio?”.

Epitáfio é uma palavra que vem do grego ‘epitáfios’ e significa “sobre túmulo”. Esse termo faz referência às frases que são gravadas nas placas de metal ou mármore que são colocadas sobre os túmulos, ou mausoléus nos cemitérios, com o objetivo de homenagear a pessoa que nele se encontra sepultada. Essas placas são chamadas de monumento funerário ou lápide. Epitáfio são mensagens que ficam registradas na lápide colocada no túmulo e destina-se a honrar o morto ou mesmo por vezes são escolhidas antes da morte.

No geral não paramos para conversar sobre a morte e o morrer, estamos vivos e isso que importa. A conversa chega por vezes, quando sabemos da morte de conhecido ou de um ente querido. A morte entra sem pedir licença e nos faz pensar sobre a vida. Raramente pensamos que o envelhecimento e a morte farão parte de nosso existir, se tivermos um tanto de sorte de ter longa vida.

O fato é que um dia vamos morrer, mas todos os outros dias serão dias de viver e que a gente possa fazer isso da melhor forma possível até o último e derradeiro pulsar do coração.

Naquela manhã alguns pacientes responderam que mensagem estaria em seus túmulos. Eu também respondi, mas hoje responderia como Neruda “sei que vivi”, mas ainda é cedo para pensar nisto, quem é que sabe, gosto de pensar que tenho apenas um tempo para viver, mas essa não é minha ocupação fervorosa, apenas lapsos de tempos em tempos.

Gosto muito da música Epitáfio do grupo de rock paulista Titãs, para mim um hino à vida e nos faz refletir sobre o que não podemos nos esquecer durante o existir.

“Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe a alegrias
E a tristeza que vier.”

Uma música que deveria ser ouvida mais vezes, para nos lembrar do que é essencial e urgente em uma vida marcada pelo compasso de apenas um tempo de existir com data para findar a nos reservar uma lápide ou não.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Maria Emília Bottini
CRP nº: 07/08544

Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS);
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF);
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB);
Autora do livro “No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer”;
Assina a coluna “Trocando Ideias” do blog da Clínica Ser Saúde Mental de Brasília.
Contatos:
emilia.bottini@gmail.com.
Página do livro:
Facebook.com/Nocinemaenavidaadificilartedeaprenderamorrer
Clínica Ser Saúde Mental – Coluna Trocando Ideias:
http://sersaudemental.com.br/blog/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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