Saúde Mental e o Processo de Envelhecimento


Por: Sara Almeida Botelho

Inicialmente, a saúde era considerada como a ausência de doenças, isto é, a pessoa era considerada saudável caso não apresentasse nenhuma doença orgânica. O que favorecia a prevalência do discurso médico sendo que as pessoas que apresentavam alguma disfunção ou desequilíbrio mental não recebiam o acolhimento e/ou tratamento humanizado e competente a sua condição.

Com o passar dos tempos e a ampliação de pesquisas acerca do desenvolvimento humano, a Organização Mundial de Saúde definiu saúde como o completo bem-estar biopsicossocial dos indivíduos. O termo biopsicossocial se encarrega de indicar a articulação necessária para se desenvolver de forma saudável, o que engloba cuidados não apenas com o corpo físico, mas também cuidados específicos à saúde mental e também às construções sociais.

A saúde mental diz muito sobre a habilidade interior que o sujeito tem para se recuperar de acontecimentos corriqueiros sem prejuízo emocional. Isto é, a capacidade do sujeito de receber o impacto dos eventos e reagir de forma a superar sem que haja interferência no seu estado de humor ou mesmo desencadear algum transtorno a depender do trauma.

Dessa forma, é essencial o cuidado com a saúde mental. Cabe ressaltar aqui que esse cuidado independe da fase da vida, em qualquer etapa do ciclo de vida é fundamental cuidar da saúde mental, assim como os cuidados dispensados ao corpo físico. Isto porque cada fase apresenta suas dificuldades e facilidades particulares, onde a forma do sujeito encarar e/ou enfrentar essas vivências será refletida na vida concreta dele.

O ciclo vital por sua vez é um processo inerente ao desenvolvimento de todo ser vivo, isto é, um conjunto de fases onde ocorre o desenvolvimento de diferentes concepções, bem como crises e conflitos competentes a cada período. A transição de cada etapa se configura conflituosa em muitas ocasiões, o que pode favorecer o surgimento de traumas, os quais podem desencadear processos mentais perturbadores.

É por isso que cada fase apresenta suas dificuldades e concomitantemente o desenvolvimento de potencialidades que influencia no movimento e busca pela superação diante de cada experiência vivenciada. Durante o processo de envelhecimento é comum ocorrer um balaço sobre essas experiências e respectivos aprendizados oriundos da construção da história de vida do sujeito.

Essa construção da história de vida é singular a cada sujeito, é por isso que cada pessoa envelhece de forma diferente, e apresenta também necessidades diferenciadas. O processo de envelhecimento é algo natural, e deve ser encarado de forma natural, todavia nem todos estão preparados para enfrentar esse processo, ou seja, essa transição pode ser conflituosa e dolorosa a depender de cada pessoa.

A forma como cada um enfrenta o processo de envelhecimento depende de vários fatores: como foram vivenciadas as etapas anteriores, de que forma lhe foi ensinado sobre o envelhecimento, as concepções pessoais dessa fase, crenças – sejam elas religiosas ou de cunho sociais -, etc. Sendo assim, o envelhecimento traz diferentes contextos e apresenta novas possibilidades que facilitam o desencadeamento de transtornos de ansiedade, depressão, angústia e/ou medo excessivo, entre outros advindos das situações de perdas já vivenciadas.

Ao se considerar a trajetória, a pessoa idosa já vivenciou mais situações de perdas no decorrer da sua história de vida: a perda do companheiro, de familiares, amigos, perda da oportunidade de emprego, limitações físicas, entre outas tantas. Diante dessa realidade é de suma importância os cuidados dispensados à saúde mental, não que as outras fases não sejam importantes, mas a velhice requer essa cuidado especial.

É importante ressaltar que não quer dizer que toda pessoa idosa vai apresentar quadros depressivos em decorrência das perdas vivenciadas. Aspectos como esses são singulares a cada sujeito, vai depender especificamente da habilidade emocional de cada um para encarar os novos eventos que se apresentam.

O entendimento que cada um tem sobre si mesmo favorece para a aceitação ou não da sua condição, dessa forma, a pessoa idosa precisa ter consciência de que está vivenciando o processo de envelhecimento. A não aceitação do envelhecimento como um processo natural e inerente ao desenvolvimento humano causa grande impacto na saúde mental, uma vez que podem ser desencadeados processos mentais negativos, tais como a anulação da sua história de vida, isto é, de si mesmo.

Face ao exposto, é importante salientar que o apoio familiar tem grande relevância nesse processo de envelhecimento, o posicionamento do grupo familiar bem como o papel que o idoso assume na dinâmica familiar deve ser concernente à sua atividade e não associar a velhice à inutilidade. Os componentes do grupo familiar devem ter esse entendimento e essa clareza.

O cultivo de relações interpessoais satisfatórias e prazerosas influencia também na saúde mental do sujeito, neste ponto é bom chamar a atenção para situações nas quais o idoso se torna refém de algumas relações abusivas, em decorrência do medo de ficar só ou da falsa ilusão de cuidados oferecidos por esse outro. A dependência emocional é um grande fator que impede a libertação de relações abusivas, principalmente na fase da velhice onde o idoso está mais vulnerável.

Para tanto, para que o enfrentamento do processo de velhice seja satisfatório é necessário: paciência, aceitação e reconhecimento. Alguns aspectos são inerentes ao processo de envelhecimento e não podem ser cessados, apenas retardados. O corpo físico envelhece, mas a mente tem a idade que você quiser lhe dar.

Referências:

Leandro-França, C. Murta, G.S. Prevenção e Promoção da Saúde Mental no Envelhecimento: conceitos e intervenções. Revista Psicologia: Ciência e Profissão. 2014, 11p. <http://www.scielo.br/pdf/pcp/v34n2/v34n2a05.pdf&gt;.

Silveira, G. Saúde Mental no Envelhecimento. <http://humanas.blog.scielo.org/blog/2014/12/15/saude-mental-no-envelhecimento/&gt;.

Segre, M. Ferraz, F.C. O Conceito de Saúde. Revista de Saúde Pública. 1997, 5p. <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v31n5/2334.pdf&gt;

Imagem capa: Stocksnap.io

Sara Almeida Botelho
CRP – 04/40276

Psicóloga Clínica, especialista em Saúde Mental, Pós-graduada em Psicologia do Trânsito, Psicologia Hospitalar. Formada pela UNIPAC (Universidade Presidente Antônio Carlos Campus em Teófilo Otoni/MG), especialista em Saúde Mental pela UNIPAC (Universidade Presidente Antônio Carlos Campus em Teófilo Otoni/MG), Psicologia do Trânsito pela UNICAM (Universidade Cândido Mendes), Psicologia Hospitalar pela UNIARA (Centro Universitário de Araraquara).
Psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS Regional Mucuri com sede em Águas Formosas/MG. Consultório em Águas Formosas no Consultório de Cardiologia.
Contatos:
botelhoasara@gmail.com
(33) 98818-6543
Página no Facebook: Subjetividade

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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