“Eu não quero ser mãe”: questionamento do instinto materno


Por: Ariana Ribeiro Gomes

A maternidade, atualmente, parece não ser mais o principal objetivo de vida de todas as mulheres, como se costuma supor que acontecia em tempos atrás. Talvez hoje as mulheres apenas tenham maior possibilidade de se posicionar, de falar sobre seus verdadeiros interesses e sentimentos, o que nos deixa essa impressão de que há uma diferença de posicionamento da mulher em relação à maternidade. Mas certamente, a mulher contemporânea tem mais oportunidades, como prolongar os estudos e ingressar no mercado de trabalho, o que influencia sua subjetividade, sua forma de encarar o mundo e a si mesma.

Porém, apesar de todas as mudanças que podemos apontar, a mulher que diz não querer ser mãe ainda ouve comentários contrários à sua decisão. Podemos citar alguns desses comentários: “você vai se arrepender quando ficar mais velha e não puder voltar atrás”, “você não terá ninguém para cuidar de você quando estiver idosa”, “você nunca será uma mulher completa sem ser mãe”, “esse é o sonho de toda mulher, tem algo de errado com você”, “você pensa isso agora, vai mudar de ideia”. E, normalmente, os defensores da maternidade apelam para a relação entre a mesma e o instinto.

Faz-se interessante lembrarmos da obra de Elisabeth Badinter, Um amor conquistado – O mito do amor materno, em que se demonstra que a maternidade como compreendemos em nosso tempo não existe desde sempre, pelo contrário, as atitudes em relação aos filhos, inclusive quanto à demonstração de amor, variam significativamente dependendo da época e do meio social. A autora nos ensina que a maternidade é um sentimento que se adquire dependendo das questões sociais e culturais de uma época. Não é, como se costuma pensar, algo que nasce com a mulher. A maternidade não seria, portanto, um instinto.

Freud também pode nos ajudar a desconstruir essa ideia de instinto como explicação para muitos dos comportamentos humanos. Como sabemos, o autor elabora sobre a pulsão e nos indica que nossos atos a ela se relacionam. Em poucas palavras, enquanto o instinto é um comportamento pré-determinado e característico de uma espécie, a pulsão está em uma posição intermediária entre o corpo e a psique. Entre os elementos da pulsão está o seu objeto – é variável, depende da fantasia e do desejo do sujeito. Isto nos mostra o quanto a forma como cada pessoa vive varia e é singular.

A obra de Badinter e a elaboração de Freud vão de encontro com o que colocamos no início deste texto. Muitas transformações ocorreram ao longo do tempo, o que torna a própria forma de exercer a maternidade diferente da forma exercida em outros momentos históricos. E, ao mesmo tempo, abrem a possibilidade para a mulher se posicionar subjetivamente sobre gerar biologicamente ou adotar um Ser Humano. A natureza já não precisa se impor, mas ainda há uma imposição de origem social que precisa ser questionada. A maternidade pode ser satisfatória, mas não vivenciá-la, também pode ser um caminho feliz.

Referências:

BADINTER, E. Um amor conquistado – O mito do amor materno. Em: http://groups-beta.google.com/group/digitalsource.

FREUD, Sigmund. Esboço de psicanálise. Editora Imago. Rio de Janeiro: 2001.

Imagem capa: Stocksnap.io

Ariana Ribeiro Gomes
CRP: 05/45263

Psicóloga, Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. 
Atende em Rio de Janeiro/RJ.
Observações: Projeto Multiplica Psi, Acompanhante Terapêutica na inclusão escolar de autistas, psicóloga clínica, mestranda em Psicanálise e Políticas Públicas.
Contatos: 
arianaribeiro.psi@gmail.com
Facebook.com/multiplicapsi

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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