A interface entre a depressão e o suicídio


Por: Sara Almeida Botelho

Nós precisamos falar sobre isso!

É muito importante levar em consideração a nossa compreensão acerca dos aspectos que envolvem a depressão bem como suas consequências que se tornam impactantes na vida de quem sofre com depressão e daqueles que estão próximos também. A falta de compreensão desse transtorno gera grande sofrimento para a pessoa e acaba que ocorre a banalização e a generalização de um estado emocional tão complexo como a depressão.

Ao contrário do que se pensa a depressão tem longo histórico, já foi descrita, identificada e reconhecida por diferentes autores tais como Hipócrates, Kraepelin e também Freud. Por ser descrita por diferentes pensadores, a depressão já foi considerada como patologia, transtorno mental, síndrome e também como disforia, ou seja, várias formulações e reformulações já foram apresentadas.

A depressão é uma psicopatologia extremamente complexa e de difícil diagnóstico, pois ela pode aparecer como diagnóstico inicial, ou como comorbidade. Ou seja, é comum em alguns quadros de patologias (câncer, lúpus, tireoide, etc.) e de psicopatologias (TOC, TEPT, TAG, Síndrome do Pânico, etc.) o desenvolvimento de quadros depressivos que contribuem com a potencialização do quadro inicial.

É considerada como um transtorno mental reconhecido pelo Código Internacional das Doenças – CID-10. São característicos quadros de extrema tristeza, alterações do humor de forma significativa e peculiar perda de interesse em atividades que praticava com prazer. Muitos pais buscam por orientações para melhor compreender e poder prevenir. Para mim, enquanto psicóloga, acredito que para obtermos respostas sobre como conduzir essa situação, a melhor coisa a ser feita é compreender a depressão e, principalmente, saber diferenciar tristeza e depressão. Isso porque todo depressivo se encontra triste, mas nem toda pessoa que está triste se encontra depressivo.

A tristeza é um episódio comum, natural e passageiro, ao qual, todos nós estamos suscetíveis a qualquer momento em decorrência das nossas vivências. É bom enfatizar que toda tristeza que ultrapasse quinze dias merece atenção redobrada.

O desenvolvimento de quadros depressivos depende de fatores internos e externos que contribuem de forma significativa para o desenvolvimento, a potencialização, bem como a adesão ao tratamento. Isto porque a depressão causa alterações na atividade neural do cérebro, os neurotransmissores são afetados, ou seja, a atividade neuroquímica do cérebro apresenta níveis alterados se comparado com a atividade cerebral de pessoas que não apresentam quadros depressivos. Dessa forma o desenvolvimento de quadros depressivos está interligado a história de vida do sujeito, a capacidade que o mesmo tem de suportar os eventos corriqueiros do seu dia-a-dia. Essa capacidade está relacionada à resposta emocional que tem a ver com o sistema límbico que é a unidade do nosso cérebro que é responsável pelas emoções e comportamentos sociais.

A depressão traz consequências impactantes na vida concreta do sujeito, a visão negativista e pessimista acerca de si e do próprio futuro faz com que o sujeito busque alternativas vazias para acabar com a dor e o sofrimento. Não existem aspectos que relacionem a depressão a algum tipo de segmento da sociedade, isto é, independe de nível social, raça, escolaridade, gênero, religião, etc.

Todas as áreas de desenvolvimento do sujeito sofrem alterações: área emocional, área instintiva e neurovegetativa, área ideativa e cognitiva, área psicomotora e volitiva e a autovaloração. São sintomas que alteram a produtividade e também a qualidade de vida do sujeito.

Precisamos falar sobre depressão de maneira aberta, livre de preconceito e misticismos, uma vez que a depressão pode ser grave e debilitante, porém, a depressão não é a sentença final, existem alternativas, tratamento, enfim, outras saídas.

E é por isso que nós precisamos falar sobre isso, precisamos conhecer e compreender a depressão, para que possamos compreender o outro, para que possamos ajudar o outro, ou no mínimo respeitá-lo.

As consequências oriundas da depressão são impactantes e causam prejuízo significativo na vida concreta do sujeito. Todavia, a consequência mais impactante da depressão é o suicídio. O que mata não é o suicídio, mas sim a depressão. O suicídio é o ato final como tentativa de colocar fim ao sofrimento, à dor que massacra, sufoca e esmaga, e, o sujeito se encontra tão vulnerável e fragilizado que não dá conta de enxergar outros caminhos.

É importante procurar ajuda profissional para identificar os sintomas e reconhecê-los como passíveis de tratamento. A psicoterapia pode ser uma grande aliada no processo de construção e reconstrução de fatores internos, compreender seus sentimentos e emoções é fundamental para compreender a si mesmo e superar traumas. Todavia em alguns casos é necessário que seja realizado tratamento medicamentoso concomitantemente ao tratamento psicoterápico, pois alguns níveis de estresse e ansiedade precisam ser rebaixados para que a psicoterapia seja satisfatória

Entre os fatores mais dificultadores nesse processo de depressão, o preconceito e a visão da sociedade em relação a depressão acaba estimulando a resistência do sujeito em buscar ajuda por se acreditar fraco. A fraqueza por sua vez é atribuída ao desenvolvimento de psicopatologias, precisamos superar aspectos como esses, ninguém é depressivo porque não tem nada pra fazer, ninguém é ansioso porque quer… As doenças mentais ainda são pouco compreendidas pela sociedade, em muitos casos não há aceitação nem do próprio sujeito depressivo.

O apoio familiar e de amigos é fundamental não só no processo de tratamento, mas durante todo esse processo de adoecimento, inclusive na conscientização e valorização da vida. Realmente não é fácil, o sujeito não encontra forças para superar e os familiares e amigos próximos, por falta de compreensão, acabam não oferecendo o acolhimento necessário ao sofrimento do outro.

Fale sobre seus sentimentos, sobre suas emoções, você não precisa passar por isso sozinho(a).

Referências:

Vamos Conversar. <http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5385:com-depressao-no-topo-da-lista-de-causas-de-problemas-de-saude-oms-lanca-a-campanha-vamos-conversar&Itemid=839&gt;.

Bento, J. DM/Opinião. Precisamos Falar Sobre Depressão Entre os Jovens. Goiânia, 2017. < https://www.dm.com.br/opiniao/2017/05/precisamos-falar-sobre-depressao-entre-os-jovens.html&gt;.

Esteves, F. Galvan, A. Depressão numa Contextualização Contemporânea. Aletheia nº24, 2016. <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/aletheia/n24/n24a12.pdf&gt;.

Imagem capa: stocksnap.io

Sara Almeida Botelho
CRP – 04/40276

Psicóloga Clínica, especialista em Saúde Mental, Pós-graduada em Psicologia do Trânsito, Psicologia Hospitalar. Formada pela UNIPAC (Universidade Presidente Antônio Carlos Campus em Teófilo Otoni/MG), especialista em Saúde Mental pela UNIPAC (Universidade Presidente Antônio Carlos Campus em Teófilo Otoni/MG), Psicologia do Trânsito pela UNICAM (Universidade Cândido Mendes), Psicologia Hospitalar pela UNIARA (Centro Universitário de Araraquara).
Psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS Regional Mucuri com sede em Águas Formosas/MG. Consultório em Águas Formosas no Consultório de Cardiologia.
Contatos: 
botelhoasara@gmail.com
(33) 98818-6543
Página no Facebook: Subjetividade

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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