Aprendendo com as diversas idades


Por: Anna Paula Minguta Serafin

Quando observamos um grupo de pessoas em seu dia a dia, podemos destacar várias ações, falas e movimentos muito diferenciados, tanto motivados por um momento, quanto pelo tempo já vivido ou até mesmo pela situação em que se vive ou já viveu.
Que movimentos ainda virão? Esta é provavelmente nossa maior expectativa. Podemos chamar esta junção de emoções, se for o caso, de “variadas experiências no mesmo espaço físico”. Quando de algum modo estas experiências são seguidas de movimentos, ainda que de alguns desses movimentos sejam apenas olhares (quando o corpo já não responde como antes), mas que para um bom entendedor são tão compreendidos quanto palavras, e que vão gerando novas experiências a cada dia.

Não há como discutir esta vivência quando partimos de um grupo de pessoas que tem 91, 76, 68, 53 e 13 anos. Tudo parece tão pequeno e ao mesmo tempo é de uma amplitude sem medida e surpreendente. Podemos chamar este lugar de observação como “o lugar das surpresas”, e estas surpresas nos são reveladas a cada instante vivido neste que podemos chamar de território familiar.
Olhamos para ele, o que se diz ser pré-adolescente, com 13 anos, quer cuidar de tudo e todos, ao mesmo tempo quer assistir seus vídeos favoritos, ouvir suas músicas internacionais (ainda que saiba tão pouco o inglês), que dormir bastante, estudar só o suficiente, de preferência pouco, cozinhar pratos diferentes, e ajudar no que for preciso, desde que para isso não precise sair do quarto. Sonhos? Muitos. Tocar violão, bateria, nadar, jogar capoeira, lutar boxe, ser investigador, médico pediatra e quem sabe veterinário.

No mesmo espaço, nos encontramos com ela, de 53 anos, que cuida da casa há mais de 25 anos, faz as refeições, uma casa que não lhe pertence, mas alega ser quem manda, pelo tempo em que está cuidando de tudo, ou, o que considera tudo. Nunca sente dor ou fica doente, não dorme (desde que não sente no sofá), toma todos os remédios existentes na casa, sempre com uma faixa no joelho torcido (torcido todos os dias), são quedas sem dores, remédios sem doenças e exames periódicos com consultas constantes, pois a qualquer momento poderá aparecer uma doença. Esta cuida do primeiro, aquele de 13 anos, que sonha cuidar de todos.
Cinqüenta e três mais treze, são exatamente sessenta e seis, e surge no fundo deste espaço a terceira pessoa, são 68 na verdade, um pouco mais que os dois primeiros juntos.
Agora sim encontramos quem decide tudo, corrige tudo, mesmo que esquecendo onde guarda os documentos, a receita médica, resultados de exames e tantas coisas mais. Não consegue esquecer a maquiagem, as roupas elegantes e os selfies para postar no Facebook. Não esquece os horários de medicamentos para dois que ainda vão surgir em nossa observação. O cuidado parece estar nessas mãos, de mente quem sabe já um pouco cansada. Traz consigo uma beleza rara, marcas de um passado escritas no seu rosto, o que chamamos de rugas, cabelos brancos que dizem de uma vaidade pura, pelo brilho que mantém. Passa parte do seu tempo procurando coisas que esqueceu onde estão, cuidando, e chamando atenção daqueles dois, que foram observados anteriormente, e que se dizem cuidadores. Parece que temos alguém para derrubar esta tese e criar uma nova situação. Situação esta que surge em meio a medicamentos, roupas arrumadas, horários cumpridos regularmente, atenção dia e noite, e muitas broncas distribuídas para quem quer que seja, necessárias ou não.

Ainda mais ao lado, ali bem perto está o outro, 76 anos, não quer ser idoso, não quer ser “rebocado” – refere-se a tentarem segurar em suas mãos para ajuda-lo. Já jogou muito remédio fora, já fingiu que bebeu e logo punha para o lixo. Hoje pede remédio, afinal parece que acredita que só tem 04 anos, partindo do princípio de que nasceu de novo quando fala de sua doença que o deixou fora do contexto familiar durante décadas. Conhecido apenas como “papai”, não cuida de ninguém, ou acredita não cuidar, mas mantem atenção aos horários de chegadas e saídas de todos à sua volta. Dono de um sorriso largo e tímido pela falta de vários dentes, que o tempo lhe tirou. Sem muitas lembranças, mas com fortes motivos para prosseguir. Alega sempre que está vivo e isso quer manter por muito tempo.
Sempre dizendo: Quem decide é ela! Se ela for eu vou! Ela é fera! Referindo-se a sua fiel escudeira que cuida de tudo, aquela que esquece onde guarda as coisas, mas não erra os horários de atenção, e está sempre dando broncas, inclusive neste senhor que tanto a admira.

Alguns passos a mais, e encontramos outra surpresa, 91 anos de pura lucidez, brava como uma onça, porém agora não pode mais andar. Ataca com suas palavras, às vezes duras, mas ainda assim sempre tem amor e um sorriso pra oferecer, ainda que demore um dia inteiro. Sentada em sua cadeira de rodas ou de banho, sempre diz: Vou embora! Hoje eu vou! Não precisa me levar, vou andando! Assim fazia quando andava…
Olhar, viver, é estar envolvido neste mundo de sonhos, ilusões, e desilusões. Histórias que seria necessário viver todos os anos novamente para poderem contar, mesmo sabendo que nunca contarão do mesmo jeito, afinal nem se sabe como realmente aconteceu, e se aconteceu. O que se leva, é o que se vive. E o que se vive, vive agora, hoje, enquanto se pode.
“Se digo que ando, mesmo que seja em cadeira de rodas, é porque pode ser que ainda me sinto livre.” “Se não quero “reboque”, não vamos rebocar”. Se cair, não teremos memória pra lembrar de que houve teimosia, vamos pensar no cuidado, aquele que todos os outros acreditam oferecer. Ainda que não se saiba quem cuida de quem.
A diferença, as surpresas se darão com o tempo, quando cada um ocupar o lugar do outro. Como serão? Só saberemos se continuarmos a observar, estando lá, vivendo e construindo juntos, esta experiência que se dá ao longo de cada existência.

Imagem capa: Stocksnap.io

Anna Paula Minguta Serafin

Faculdade Européia de Vitoria – cursando 8º período Psicologia
Cariacica/ES
Contato:

annapaulapauloserafin@hotmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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