Coluna Maria Emília Bottini Crônicas Reflexões

Esculpir-se a si mesmo

Com aquilo que dá errado, ou não sai como o esperado se pode aprender muito, se desejarmos.

Por: Maria Emília Bottini

Recebi essa imagem de uma pessoa querida, que conheci nos últimos minutos do segundo tempo, quando morava em Brasília. Mulher de nome diferente, geralmente é preciso perguntar mais de uma vez para entender, o que ela já faz para evitar problemas. Essa mulher de uma escrita vibrante, por vezes raivosa, usa a escrita como forma terapêutica para colocar para fora alguns demônios que perturbam seus caminhos.

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Imagem: Fornecida pela autora do texto

Tornou-se rapidamente amiga de jornada e seguimos nos falando. Ela me envia imagens, sabe que sou fã delas, e assim seguimos, à distância, nossa sintonia entre a arte e escrita.

Certa vez, dei-lhe uma imagem impressa, em um curso de contar histórias que fizemos juntas, a nossa história. A imagem era de uma mulher com uma gaiola na cabeça, achei que como todas nós, ela também tinha sua gaiola na cabeça. Ela ficou imensamente surpresa com minha atitude e foi preciso tomar um café para uma longa conversa sobre as gaiolas de nossas vidas. Neste dia, apresentou-me o livro Contos de amor rasgados de Marina Colassanti que, carinhosamente, deu-me de presente quando de nossa despedida.

Em tão pouco tempo tivemos momentos lindos de estar juntas, de dividir, de ser, fazer e sentir quem somos. Dividimos história de vida em um local em que o tempo é vermelho, a nos lembrar que a vida passa para nós.

Eu amei essa imagem que ilustra a presente crônica; amei por uma razão muito simples: acredito nela, ou seja, nos lapidamos e somos lapidados no processo de viver e, enquanto psicóloga, por vezes auxilio o caminho de lapidar-se aos que aceitam o desafio de fazer terapia.

Nessa escultura de bronze, nominada de Self Made Man (homem construído por si mesmo) de autoria de Bobbie Carlyle, que recolhe ideias e inspiração de experiências pessoais com seus sete filhos e muitos netos. A imagem representa o homem que esculpe a si mesmo a partir da pedra bruta da qual ele surge e se constitui, existe.

A essência dessa escultura é provocar reflexão, uma das funções da arte, fazer a gente pensar sobre a gente mesmo. Tarefa que considero que essa obra cumpre bem, pois nos desacomoda, incomoda e nos faz pensar.

Mas o que é lapidar? Lapidar é talhar, polir, aprimorar, processo que, ao longo do viver, fazemos conosco, mesmo na subjetividade de cada um, mas também na relação com os outros. No decurso da vida, por vezes perdemos pedaços de nós mesmos nos momentos que perdemos algo ou alguém querido, quando as coisas não saem como desejamos ou planejamos, quando não passamos nos concursos almejados, quando o namorado nos deixa, quando nos separamos de amigos queridos, quando mudamos de casa…

Não ocorre lapidação sem dor. A dor é a amálgama do ato de se esculpir. O homem da escultura usa martelo e cinzel, ferramentas que possibilitam tirar lascas do bronze, para isso é preciso batidas fortes e frequentes. Nada pode ser muito leve e sem força, senão não há aprimoramento interno. A ferramenta que mais nos ajuda a nos lapidarmos chama-se frustração. Rubem Alves dizia que havia chegado aonde chegou por uma sequência de coisas que deram errado. Com aquilo que dá errado, ou não sai como o esperado se pode aprender muito, se desejarmos.

Ocorre um final no esculpir a si mesmo e dessa construção pessoal. O momento de nossa finitude coloca fim a essa construção pessoal quando a morte nos abriga em seus braços a nos conduz. Até lá seguimos nos lapidando e nos moldando, pois ninguém é o seu nascimento.

É preciso esculpir a criança para se tornar adolescente. É preciso esculpir o adolescente para se tornar um adulto. E é esculpindo o adulto que chegaremos ao idoso. Na constante tarefa de esculpir, lapidamos, aprimoramos, qualificamos nosso ser em todas as fases da vida. Eis o ciclo da construção de si mesmo, mas sem ilusões que isso é tarefa fácil.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Maria Emília Bottini
CRP nº: 07/08544

Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS);
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF);
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB);
Autora do livro “No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer”;
Assina a coluna “Trocando Ideias” do blog da Clínica Ser Saúde Mental de Brasília.
Contatos:
emilia.bottini@gmail.com.
Página do livro:
Facebook.com/Nocinemaenavidaadificilartedeaprenderamorrer
Clínica Ser Saúde Mental – Coluna Trocando Ideias:
http://sersaudemental.com.br/blog/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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