Educar o Afeto: Conhecer e Trabalhar as Emoções em Sala de Aula


Por: Danilo Ciconi de Oliveira

Jogos e brincadeiras. Artes. Letras, números, fórmulas, datas… Atenção, memória, coordenação… São diversas as propostas de aprendizagem / de atividades das quais nos recordamos ao pensarmos o currículo da escola que frequentamos na infância. Hoje, anos após o início da minha escolarização, olho para trás e percebo a relevância desse tempo na minha vida e no meu desenvolvimento psicossocial. E carrego comigo uma certeza (que a Ciência também já confirmou): o papel da escola ultrapassa a simples transmissão de conteúdo acadêmico.

Afinal, a criança não chega à idade escolar como tabula rasa, na qual podemos imprimir o conteúdo que melhor aprouver. O educando nos aparece já marcado pela vida, pela sua história pregressa de aprendizagem e desenvolvimento. E, tal história, é permeada por uma série de vivências emocionais peculiares, as quais, muitas vezes, a criança não sabe, ainda, sequer nomear.

Assim, em meio as diversas atividades contempladas pelo currículo escolar, faz-se necessário auxiliar o educando no seu processo humano de descoberta de si mesmo, de suas potencialidades e sentidos. Em síntese: ensinar as crianças a lidar com a emoção.

Convidar a criança a falar de si, de como se sente e sobre o que pensa acerca de situações do cotidiano (familiar e escolar); incentivá-la a protagonizar, de fato, o próprio processo de aprendizagem; criar situações reais de interação entre os educandos, a partir de tarefas e jogos cooperativos – são algumas formas de fazê-la adentrar no campo da emoção.

A criança sente necessidade de ser vista e ouvida, inclusive, como forma de buscar que um Outro (externo a ela) valide e lhe explique suas próprias vivências interiores.

O reconhecimento e o manejo das emoções são habilidades essenciais para o pleno desenvolvimento humano, o sadio relacionamento interpessoal e, mesmo, para uma melhor aquisição de conteúdo acadêmico.

1. Lidar melhor com si mesmo

As primeiras vivências humanas são totalmente viscerais. Nós agimos de acordo com o que sentimos no corpo – fome, sono, frio, dor, tudo é sentido na pele e expresso pelo choro. A linguagem ainda não é uma habilidade que dominamos. A criança pequena é totalmente dependente da interpretação do outro de seus sinais emocionais para que se lhe sejam supridas as suas necessidades básicas. Conforme crescemos e adentramos o mundo simbólico da linguagem, vamos ganhando autonomia e aprendendo a reagir frente às diversas situações da vida. Não obstante, em muito continuamos mantendo a experiência visceral e rudimentar de mundo e comportamento que adotávamos outrora. Ainda estamos aprendendo a digerir a emoção e a entender o mundo quando atingimos a idade escolar. Assim sendo, toda atividade promovida pela escola que ajude a criança a entrar em contato com as suas experiências emocionais e a atribuir sentido a elas é benéfica para o seu desenvolvimento psicossocial.

A criança se sente acolhida quando percebe que, no ambiente escolar, suas vivências interiores têm espaço e relevância. Aprende a conviver melhor com suas crenças pessoais acerca de si e com situações da vida que lhe causem ansiedade e estranhamento (dificuldades familiares, problemas de autoestima etc.).

2. Lidar melhor com o outro

Trabalhar a emoção em sala de aula ajuda o educando a colocar-se de forma mais verdadeira e assertiva nos relacionamentos que estabelece. Além disso, quanto mais a criança tem clareza das próprias emoções, tanto mais consegue olhar com cuidado para as emoções das outras pessoas. Este é o princípio da empatia: legitimar a emoção do outro e aproximar-se com cuidado, pois reconhecemos nele algo que também existe em nós. Trabalhar as emoções é uma forma eficaz de intervir, por exemplo, em problemas como o bullying e a ansiedade social.

3. Lidar melhor com o conhecimento

Desadaptação escolar e problemas de aprendizagem e de comportamento estão, em grande parte dos casos, associados a questões emocionais; e não a aspectos cognitivos, como tradicionalmente costumamos relacionar. Desse modo, ajudar o educando a entender e a lidar com suas questões interiores ocasiona melhora no seu desempenho escolar, assim como, melhora sua vinculação com a instituição escolar.

Além disso, tais práticas significam a promoção de Aprendizagens Significativas, pois o que a criança é chamada a aprender não está dissociado da sua vida concreta. Ela passa a se identificar com o objeto da aprendizagem e, por isso, tende a melhor interpretar e memorizar conceitos e ideias.

É papel da escola, portanto, ajudar as crianças a se autodescobrirem.

Na contemporaneidade, um ideal exacerbado de produtividade impera e nos faz negligenciar a própria Saúde Emocional. É papel da Educação, também, ensinar as crianças a escaparem dessa lógica e se permitirem desenvolver de forma plena e saudável. Ações sistematizadas e contínuas de promoção de uma Educação do Afeto devem ser elaboradas e compartilhadas entre os diversos agentes do ensino-aprendizagem. Envolver a família em tais projetos e práticas é, sem dúvida, potencializador de bons resultados.

Educar para a vida, para o mundo de fora, passa inevitavelmente por uma Educação que priorize, também, o que há dentro: o universo interior de cada um.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Danilo Ciconi de Oliveira
CRP 06/123683

É psicólogo e especialista em psicopedagogia.
Atua na cidade de São João da Boa Vista – SP.
Contato:
Página: facebook.com/danilociconipsi
Blog: http://desenvolverpsi.blogspot.com.br/
E-mail: danilociconipsi@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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