Coluna Mariana Pavani Reflexões Transtornos Alimentares

Imagem de um corpo atemporal

Pensar em uma imagem do corpo se relaciona ao modo como o sujeito se vê, e como acredita ser visto pelos outros.

Por: Mariana Pavani

Pensar em uma imagem do corpo se relaciona ao modo como o sujeito se vê, e como acredita ser visto pelos outros. Por isso, tudo que é dito pelo outro sobre o corpo deste, pode ter um peso demasiado e doer excessivamente. Alguns olhares ou palavras alheias vão se projetando e compondo uma imagem, como em uma tela quase em branco, já que inicialmente se inaugura a percepção da imagem corporal a partir do olhar e relação mãe/bebê.

“A abordagem psicanalítica não permite falar do corpo como de um objeto, muito menos um objeto científico, cujas características e reações podem ser analisadas e classificadas conforme o método científico de observação e experimentação” (NACHT, 2000)
Segundo Dolto (1984) todo ser humano teria uma imagem inconsciente do próprio corpo, a qual seria baseada em vivências de imagens da relação mãe-bebê e possibilidade desta em exercer a função de devoção para com esse bebê. Contudo, mesmo antes do nascimento, já havia um corpo para esse bebê, uma imagem inconsciente formada.
A autora também aponta que a imagem inconsciente do corpo é relacional, ou seja, se constitui a partir do contato da criança com um outro. A imagem inconsciente do corpo nos bebês se constitui na relação deste com a mãe, assim de início ele se percebia como um ser desintegração, que aos poucos, a partir do cuidado pode perceber que a mãe era um ser exterior a ele. Na clinica psicanalítica são observados casos clínicos com distúrbios graves na percepção corporal.

A fragilidade da constituição de sua imagem do corpo faz com que constantemente as pessoas sintam-se invadidas pelo outro, o que pode nos remeter a anorexia por exemplo, a qual o paciente se nega a comer, sentindo a comida como uma invasão. Pode ter havido problemáticas na relação mãe/bebê/alimentação, ou seja, aquela mãe que privou o bebê da alimentação ou interpretou cada choro dele como fome o que o fez sentir-se invadido pelo leite. A partir da adolescência o corpo vai ganhando novas formas relacionadas à puberdade, então aquele ser, até então criança, vive uma confusão intensa e a dificuldade em assimilar que seu corpo agora é adulto.

A maioria dos transtornos alimentares como anorexia e bulimia se iniciam nessa fase, pois há uma maior pressão social para se encaixar em padrões de beleza, além de tentativas de destaque no grupo social. A anorexia talvez possa remeter a uma negação da feminilidade, já que se emagrece até perder todas as características como seio e quadris.
Dificuldades em vivências afetivas iniciais também são fatores importantes a se pensar quando se trata de transtorno alimentar. Em todos os casos a imagem do corpo se mostra distorcida e com grande influência do outro, principalmente da mãe. Há a formação de uma imagem ideal a qual se tenta atingir a qualquer custo, deixando em detrimento a imagem real.

O corpo que está ali é apenas um corpo em que não se sabe quais marcas carrega, contudo é atemporal. Vivências primitivas de sofrimento ali ficaram registradas, já que o bebê não tinha outro modo de expressar. Não é possível generalizar nenhum tipo de problemática psíquica, mas é bastante importante que um profissional qualificado entenda os segredos e bastidores que há por trás de cada corpo que ali chega como paciente, pois certamente ele está marcado por muitas dores e angústias.

Referências:

Nacht, Marc. 2000.Corps du désir.In: Le corps a ses raisons. Atas do colóquio. Ed. Association Psychanalyse et Médecine. Paris, 2000.
Dolto, F. (1984/1992). A imagem inconsciente do corpo. São Paulo: Perspectiva.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Mariana Pavani
CRP 06/136363

Psicóloga psicanalítica clínica.
Formada pela Pontifícia Universidade católica de Campinas 
e cursando especialização em psicanálise pelo CEFAS.
Atendimento clínico em Campinas-SP.
Autora do Instagram @psicanalisetododia
Contato:
E-mail: marianapavani@gmail.com
Celular: (19)997538573

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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