O aprender diferente diferencia a aprendizagem


Por: Reinaldo Felipe Ferreira

Pedagogia, de acordo com Marques. R. (1999) é a ciência da educação das crianças, sendo a arte e a técnica de ensinar. É uma palavra de origem Grega, paidós quer dizer criança e agogé significa condução, ou seja, condução à crianças. A maneira de conduzir crianças, segundo este conceito,  é de investir de forma reflexiva, investigativa e, científica no processo educativo. Tendo sempre a imagem de autoridade que não pode ser delegada a outro que não seja o profissional de pedagogia, considerado apto a atuar neste campo de estudos, sendo somente ele capaz de conduzir um processo pedagógico.

De acordo com a Malcolm Knowlesm (1991 apud NOGUEIRA, 2004, p. 4), a Andragogia é a arte ou ciência de orientar adultos a aprender. É um conceito de educação voltada para o adulto, diferente da pedagogia que refere-se à educação de crianças. A Andragogia significa, portanto, ensino para adultos. É uma forma de aprendizado que busca compreender o adulto em todos os seus componentes humanos e consiste em olhar para o ser humano considerando-o um ser psicológico, biológico e social. A Andragogia busca promover o aprendizado através da experiência, fazendo com que a vivência estimule e transforme o conteúdo, impulsionando a assimilação. O adulto, após absorver e digerir as informações, aplicará os novos conhecimentos em sua vivência. Podemos dizer que isto é o aprender através do fazer. Isto é o tal aprender fazendo, ou aprender aprendendo.

No meu primeiro ano de faculdade de Psicologia, eu ouvi em sala de aula que “Aprender a ser Psicólogo deveria ser como o filho do padeiro aprendeu a fazer pão.” Ou seja, na prática, passado de um para o outro pela experiência vivida. É claro que a expressão usada em sala de aula foi uma forma romantizada de falar da profissão que havíamos escolhido para aprender, e é claro também, que eu considero importante que a Psicologia seja vista como Ciência e Profissão, e necessite estar inserida em um processo acadêmico, analítico terapêutico e de formação contínua. No entanto, tire como mensagem desta aula, que conhecimentos tácitos e explícitos devem ser estimulados de forma natural desde muito cedo. O fazer e a experiência de fazer são a base para a boa prática de qualquer atividade seja para fins profissionais ou não. Via de regra, não somos muito estimulados a aprender variadas formas de aprender. E somente a experiência de fazer pode dar a aquele que aprende a oportunidade de identificar-se com a atividade e através (ou a partir) desta identificação aferir energia, empenho, dedicação, força, ou seja, lá qual for a palavra que queiram usar como “investimento de força própria” a uma atividade.

Adultos são motivados a aprender à medida que percebem que suas necessidades e os seus interesses estão sendo satisfeitos. É usando este ponto em especial, que podemos explorar de forma mais assídua às experiências vividas, para que um processo de aprendizado seja além de prazeroso, satisfatório. Aliás, é justamente sendo prazerosa que qualquer atividade poderá ser também satisfatória.

A utilização de métodos e de técnicas na Andragogia assegura uma aprendizagem baseada na motivação própria, no estímulo à participação, na troca de experiências e em conteúdos adequados ao seu perfil, isto é, que podem ser usados à sua realidade e que propiciam satisfação e por consequência resultados mais expressivos. Enquanto a pedagogia exige a imagem autoritária de alguém que molda o aprendizado da criança. Na Andragogia o papel do instrutor é de ser um facilitador do processo de ensino e de aprendizagem, adotando métodos e abordagens mais apropriados ao perfil e às necessidades do grupo, propiciando a troca de experiências, demonstrando a importância prática dos conteúdos trabalhados e encorajando a participação e a reflexão.

Eu considero que o aprendizado com base na automotivação, no estímulo à participação, na troca de experiências, na vivência e em conteúdos adequados ao seu perfil (usados dentro da realidade e das condições do que aprende), propiciará maior satisfação e por consequência os resultados mais expressivos. O ser humano desde cedo demonstra necessidades de sentir-se grande, importante e integrado a um grupo. Se cedo nos sentirmos motivado durante a aprendizagem, cedo também podemos adquirir o gosto das experiências em aprender coisas novas.

A sociedade que forma pessoas apenas para obedecer a um sistema, torna-os experts no próprio sistema. E experts em um sistema sabem como ninguém a forjar o sistema. Vejamos: As crianças aprendem a colar sozinha, nem pais e nem professores a ensinam. A insistência imposta para obedecerem ao sistema contribui para que se aprenda também como burlá-lo. E o que burla, é no meio da rodinha de amiguinhos, considerado grande, importante e esperto. Colar muitos vezes insere a criança ao grupo dos espertos e importantes. E fazer parte de um grupo, de certa forma satisfaz aquele que aprendeu a colar colando (aprendeu a fazer fazendo).

Não fazer parte de um grupo é muitas vezes angustiante, e agir de forma diferente dos demais a sua volta também (não somos muito estimulados a pensar diferente). No sistema que somos submetidos (e nos submetemos) o diferente é ameaçador. Fazer diferente é como sair da caverna de Platão. Explico: Em O Mito da Caverna, Platão cria a alegoria de que haviam homens acorrentados em uma caverna desde a infância, e estes não podiam olhar para a entrada da caverna. Lá dentro havia uma fogueira e eles, de costas para a entrada viam apenas as paredes de fundo onde eram projetadas as sombras de tudo que acontecia às suas costas. Se um desses homens conseguisse soltar-se para contemplar à luz do dia e os objetos reais ao invés das sombras, ao regressar para contar o que via, era considerado louco ou mentiroso. Há outras formas de analisar este mito, mas consideraremos aqui a pedagógicas, que implicará olharmos para o processo de ensino aprendizagem. Quem teve dificuldades de colar na infância certamente foi taxado como louco, careta, medroso ou de algo que o desclassificasse diante do grupo de espertos coladores.

Voltemos ao tema. A pedagogia é um processo essencial na formação da criança, pois de fato ela necessita ser uma seguidora de referencias e autoridades, que a direcionem nos primeiros anos de sua formação. A Andragogia proporcionando a experiência, fazendo com que a vivência estimule e transforme os conteúdos vivenciados e impulsione a assimilação, também é um processo essencial para o adulto.

Em termos de realidade bem sabemos que o processo pedagógico nem sempre é eficiente e eficaz, e que a Andragogia não é de comum aplicação e fácil acesso (é um produto raro e por consequência, caro). Mas o que me intriga mais ainda é o que há entre uma aplicação e a outra. Ou seja, o processo de transição entre a fase da criança para a fase adulta.

Vivemos uma sociedade que incentiva termos seguidores, mas que pouco cria ferramentas de estímulos a novos conhecimentos. É mais fácil ter seguidores que obedecem do que admiradores que questionam. Eu particularmente, acredito que seja necessário pensarmos no contínuo processo de formação, entendendo as especificidades de cada fase do aprendizado. É necessário saber que a continuidade exige um processo diferente em fases diferentes da vida de uma pessoa. Assim aumentamos as chances de formarmos pessoas mais pensadoras do que simples seguidoras.

Nem pedagogia (só para crianças), nem Andragogia (só para adultos), uma sociedade realmente preocupada em formar pessoas felizes, pensantes, capazes de superar obstáculos e decepções, adotaria práticas com ambas (de forma eficiente e eficaz) e se preocuparia com o todo do desenvolvimento, dando ênfase aos processos de estímulos, automotivação e da autonomia do individuo no que tange o processo de aprendizagem.

Sugiro pensarmos em um novo nome, um novo conceito. Talvez chamemos de “Estimulogogia”. Ou troquemos o nome do tudo que já existe para “Obedeçagogia”.

Referências:

MARQUES, R. Modelos Pedagógicos Actuais. Lisboa: Plátano Editora, 1999.

NOGUEIRA, S.M. A Andragogia: que contribui para a prática educativa. Linhas: Revista do Programa de Mestrado em Educação e Cultura, Florianópolis, v. 5, n2, dez. 2004.

PLATÃO. A República. Tradução de Heloisa da Graça Burati. São Paulo: Editora Riedeel, (Coleção: Biblioteca Clássica), 2005. Acessado e disponível em: https://www.webartigos.com/artigos/resenha-do-livro-vii-de-a-republica-de-platao/151229#ixzz51Ebgt3ok

Imagem capa: Pexels

Reinaldo Felipe Ferreira

Graduando em Psicologia pela Universidade Dom Bosco
Gestor Administrativo, Financeiro e de Departamento Pessoal
Com experiência em gestão e liderança
Experiência em desenvolvimento de equipes corporativas
Escreve para o próprio blog

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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