Dependência Química

Relações familiares e dependência química

Entende-se que as intervenções que tem a participação da família, podem provocar melhores resultados e um maior sucesso no engajamento, na retenção e no resultado do que as intervenções focadas exclusivamente no sujeito dependente químico.

Por: Ester Monteiro do Nascimento

Família é a instituição e o agrupamento humano mais antigo. Amaral (2001) diz que família é uma construção social que sofreu alterações no decorrer do tempo. Ele usa a expressão “sentimento de família” e acredita que esse sentimento se constrói frente o entrelaçar do transitar das emoções, abarca as ações pessoais, culturais e familiares que tecem o contexto amplo do mundo familiar. O conceito de família acompanha a evolução dos ideais sociais, dos costumes da sociedade vigente e das descobertas científicas emergentes. No entanto diante ao cenário contemporâneo há de se conceber que a família possui suas particularidades, carrega consigo diferentes maneiras de lidar com a temática droga, distintas formas de compreensão da dependência química e de suas possíveis transformações na dinâmica familiar.

A família como constituinte da fonte de socialização primária deve proporcionar apoio aos integrantes que a compõe. De acordo com Moreira, Niel e Silveira (2009) deve-se considerar o apoio afetivo e sua prática aos membros envolvidos no contexto familiar, através de manifestações de gestos, abraços entre eles, demonstrar amor, proporcionar a sensação de ser bem quisto no seio familiar pelo comportamento expresso uns pelos outros. Assim como também a demonstração do apoio emocional ao expor as ideias e as dificuldades enfrentadas por um dos participantes da família que a mesma possa favorecer possibilidade de escuta e de suporte emocional quando falarem de seus sentimentos, preocupações, medos podendo encontrar dentro do ambiente o amparo, conforto e alívio de suas inquietações e tensões.

Afirma Kaloustian (1994) “é a família que propicia os aportes afetivos […] necessários ao desenvolvimento e bem estar dos seus componentes […] é em seu espaço que são absorvidos seus valores éticos e humanitários”. (KALOUSTIAN, 1994, p.12). Informações e aconselhamento são considerados como promoção de apoio básico a fim de evitar que um dos que compõem a família se torne dependente químico. A promoção do compartilhar experiências e as trocas delas entre os membros envolvidos no núcleo familiar é importante. Ainda diante das novas estruturas de modelos e arranjos familiares, a família desempenha um papel importante na formação do sujeito, entre os diversos grupos humanos, é ela que exerce função de transmissão da educação, cultura e na construção da estrutura comportamental do mesmo. Entende-se que as intervenções que tem a participação da família, podem provocar melhores resultados e um maior sucesso no engajamento, na retenção e no resultado do que as intervenções focadas exclusivamente no sujeito dependente químico.

As famílias, ao longo do ciclo evolutivo vital, estão vulneráveis às crises que, apesar de serem momentos de instabilidade, impulsionam-nas ao crescimento, para atingir estados maturacionais mais evoluídos. Entende-se, assim, que toda a crise, frente à ruptura e instabilidade temporária que ocasiona no sistema familiar, cria, por conseguinte, uma necessidade de reorganização das inter-relações e uma descoberta de novas regras de funcionamento familiar (WAGNER, 2005, p.43).

Em partilha a esse aporte teórico nenhum aspecto deve ser avaliado isoladamente como desencadeante da problemática e sim a somatória dos fatores que podem representar riscos que compõem tanto um aspecto individual, social e familiar. A família pode ser um agente facilitador no processo do tratamento a este usuário servindo como canal ao membro ora usuário, pode agir de forma atuante se desmembrar das ideias de preconceito e buscar informações sobre assuntos que estejam relacionados a prática do comportamento de seu membro familiar, a fim de promover uma articulação que possibilite apoio e ajuda na maneira de lidar com a possível quebra da homeostase da dinâmica familiar.

De acordo com Silva, Silva e Medina (2012) a conscientização dos demais envolvidos no contexto familiar de que o integrante que estabeleceu o vínculo com a substância, se este, conseguir despertar o interesse pelo tratamento certamente imerso na vontade de mudança soará como fator favorável e positivo não apenas ao usuário como também em todos os integrantes que compõem a família. Com o olhar lançado à família seria possível identificar as dificuldades e limitações que discorrem no processo de educação e de formação deste sujeito com a problemática de drogas. Um dos desafios aos profissionais de saúde que visam à proteção, orientação e acolhimento a estas famílias que atravessam esta realidade de inserção das drogas no âmbito familiar é o despertar/provocar o envolvimento e a participação espontânea durante o tratamento terapêutico, tornando-se participante desse processo no intuito de aliviar os sentimentos de culpa, preconceito e incapacidade deste usuário.

Estudar e refletir sobre este assunto pode elucidar mudanças favoráveis de padrões familiares. Proporcionar informações como conceito básico sobre dependência, tolerância, síndrome de abstinência, orientações de como agir e conversar também são considerados como contribuição importante da família no processo de tratamento ao usuário de droga, na intenção de assim reduzir os problemas e a utilização desenfreada do uso de drogas.

Referências:

AMARAL, Célia Chaves Gurgel do. Famílias ás avessas: gênero nas relações familiares de adolescentes. Fortaleza: UFC, 2001.

DICIONÁRIO PORTUGUES ONLINE disponível em: http://www.dicionario.com.br acesso em Janeiro de 2018.

MOREIRA, Fernanda; NIEL, Marcelo; SILVEIRA, Dartiu Xavier da.Drogas, família e adolescência. São Paulo: Atheneu, 2009.

KALOUSTIAN, Silvio Manoug. Família Brasileira: a base de tudo. São Paulo: Cortez, 1994.

SILVA, Fernando Amarante; SILVA, Eli Sinnott; MEDINA, Joaquim Saunday. A Abordagem Familiar na Dependência Química,In Adriane Maria. Uso de drogas psicoativas: teorias e métodos para multiplicador prevencionista. 2.ed. Rio Grande: CENPRE,2012.

WAGNER, Adriana. Como se perpetua a família? A transmissão dos modelos familiares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

Imagem capa: Pexels

Ester Monteiro do Nascimento
CRP 02/20670

Psicóloga. Especialista em Saúde Pública, Saúde Mental e Dependência Química. Pesquisadora Científica na área de estudos multidisciplinares. Membro do grupo de Pesquisa e Trabalho (GT) do CRP/PE. Integrante da Comissão Regional de Psicologia na Assistência. Graduada em Gestão Empresarial(Brasil).
Recife/PE
Contato:
(81) 9950- 75085
ester2018psi@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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