Relacionamentos

Por que objetificamos nossas relações?

Uma relação objetificada se torna agressiva, hostil e detentora de liberdade.

Por: Ellen C. Fabri

Objetificar uma relação significa que tratamos o outro como objeto, ou seja, é uma relação onde o que eu acredito precisa permanecer, seja meu ideal de vida, minha posição social, minhas ideias, minha moral e meus bons costumes, fazendo com que o outro seja mero objeto para que a minha (falsa) ideia de permanência continue intacta. Sendo assim objetificar a relação faz com que eu suspenda o diálogo para tentar controlar tudo à minha volta (inclusive o outro) conforme meu ponto de vista. Uma relação objetificada se torna agressiva, hostil e detentora de liberdade, onde só há espaço para catalogar e julgar o outro.

Mas como isso acontece?

Eu aprendo que sou sujeito na minha relação com o outro, é nesta relação que emerge o EU. Acontece que no cotidiano, que é o reino do esquecimento, acabamos nos esquecendo de nós mesmos e caindo no mecanismo objetificado. Ao cair nesse mecanismo objetificamos simultaneamente o eu, o outro e, consequentemente, as relações. Fixamos nossas ideias, opiniões e tentamos agressivamente fazer com que o outro se encaixe em nossas perspectivas.

Agora imagine um objeto… ele não morre, não tem escolha e tem uma única maneira de ser, e é justamente nesse sentido que caminha a nossa objetificação. Na cotidianidade tornamos a vida como se fôssemos imortais, nos isentamos das escolhas, nos tornamos sujeitos do esquecimento até que nos objetificamos e não tratamos o outro como sujeito. É a partir daí que suspendemos o diálogo e acontece o que foi descrito acima.

Uma das causas dessa objetificação é ontológica e isso significa que o acesso ao outro não é igual ao acesso ao eu, ou seja, saber que o outro é um sujeito que apresenta determinados tipos de comportamentos NÃO é o mesmo que vivenciar essa realidade pelos olhos do próprio sujeito. Então tendemos a acessar o outro de forma objetiva e não subjetiva e esse é o principal motivo pelo qual o outro vira objeto, pois ao comparar ou explicar o outro, tiro a minha subjetividade e não tenho acesso a subjetividade do outro.

Para sair deste ciclo temos que abrir os campos da presença/reflexiva do cuidado e da compreensão.

Somos seres que transcendemos no tempo, ou seja, conseguimos nos situar no tempo através do campo reflexivo e do campo objetal. Através desse bate-volta entre reflexão e objeto temos a consciência. Então, estar presente ou ter o campo da presença aberto significa estar consciente e vivenciando a situação através do polo reflexivo. O cuidado só é possível quando você está presente e ele só acontece se houver primeiro o autocuidado (Sörge – do alemão: preocupação – se pré-ocupar de si), que capacita o sujeito a cuidar da sua vida e de antever as coisas. Esta capacidade de cuidar de si que proporcionará a capacidade de cuidar do outro e “gastar” seu tempo reflexivo com alguém (Fürsorge do alemão, cuidado). E somente com esses campos abertos que se é possível abrir-se à compreensão. Compreender é conter em si, é estar ou ficar incluído, é tentar ver e perceber com os olhos do outro o sentido da experiência vivida por ele.

Baseado nisso, se nos tornarmos sujeitos conscientes – que cuidam de si mesmos, teremos mais possibilidades de nos abrirmos ao campo da compreensão para assim sairmos do “ciclo da objetificação” das relações, e aí, quem sabe, até conseguirmos estabelecer relações mais afetuosas, acolhedoras e livres.

Imagem capa: Pexels

Ellen C. Fabri
Crp 06/133505

Psicóloga Clínica com enfoque Fenomenológico-Existencial.
Especializando em Saúde Mental e Atenção Psicossocial pela USC.
Formada pelas Faculdades Integradas de Jaú – FIJ JAÚ.
Atende na cidade de Jaú/SP
Observações: idealizadora do Projeto Florescer, que visa levar
a psicologia a indivíduos em situação de vulnerabilidade social
Contato: 
Facebook.com/florirsejau
Instagram: @florirsejau 

E-mail: ellen.fabri@gmail.com
Fone: 14 – 981482780

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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