Coluna Maria Emília Bottini Psicologia e Crianças Psicologia e Maternidade/Paternidade

Mimos demais, frustração de menos

Crianças criadas sem regras e limites criam uma ilusão e dependência familiar de sempre quererem que alguém (pais, professores, avôs...) resolvam suas dificuldades.

Por: Maria Emília Bottini

Voltei a morar no Sul do Brasil tem pouco tempo. Mudança de rotina, de estado, de costumes e de ritmo de vida. Por aqui, tenho a sensação de que o tempo passa menos depressa, certamente apenas uma ilusão de percepção. Voltei a conviver próximo da minha família e com uma garotinha curiosa.

Minha sobrinha tem 4 anos de idade, frequenta escola de educação infantil todas as tardes e por lá acontecem algumas coisas interessantes e outras nem tanto. Ela é uma figura no auge de sua infância e aprendizagem. Muito curiosa, tem interesse em quase tudo, tudo lhe é novo e peculiar. Na semana passada perguntou-me: “Tia Emília, me ensina as palavras.” “Quais palavras?” – Pergunto-lhe. Ela, com carinha de interessada, responde – “Todas as que existem”. Mal sabe ela que são muitas as palavras e expressões em nossa Língua Portuguesa e que eu mesma não sei o significado de todas elas.

Essa semana, ao voltar da sua escola, nos conta que sua coleguinha de turma irá colocar um piercing no dente, e que a mãe dela deixou. Achei essa informação estranha, primeiro porque minha sobrinha nem conseguia pronunciar direito a palavra, nominando-a de “pincer”, muito menos sua colega, eu suponho.

Ao falar com minha cunhada a história se confirmou, comentou que achava estranho isso, mas que era um adesivo no dente.

Como é que chegamos nesse estágio?

Qual é nossa ignorância em relação à educação das crianças?

Que tipo de criança estamos educando para a sociedade?

Perguntas demais e respostas de menos. Se é que isso é importante, talvez não seja mais, deixaremos para as próximas gerações darem conta de tanta bobagem e futilidade parental. Ou mesmo que a escola dê conta dos filhos, do desregramento e da impaciência provocados pelos excessos, ou que a sociedade aguente tanta gente mimada e imatura que estamos criando e que estão entendendo, por empurrões dos pais, que tudo podem afirmando: “Mas, eu quero”.

Qual a necessidade de uma criança de quatro nos de idade ter um piercing no dente ou mesmo adesivo? A meu ver nenhuma, lembrando que nessa fase os dentes ainda são de leite, ou seja, os da primeira dentição. Evidente que essa necessidade é dos pais de transformar suas crianças em objetos de ostentação e consumo para uma sociedade que cada vez se pauta na aparência.

E essa aparência tem que chamar atenção, incomodar, afrontar como a criança que ilustra essa crônica, que além de piercing também tem uma tatuagem no seu braço em tão tenra idade.

Penso que essa criança não entende nada do que está acontecendo, os adultos muito menos. A imagem revela que estamos transformando crianças em adultos precocemente, sem dó nem piedade. E quando terão tempo para serem apenas crianças? Quando forem adultas?

Talvez a intenção dos pais seja apenas satisfazer mais um desejo produzido por uma sociedade de consumo, mas ainda assim suas crias deveriam receber um sonoro não.

Crianças precisam de ludicidade, de limites, de afeto, de regras firmes para que tenham contornos para seus desejos ilimitados. Crianças possuem muitos desejos, assim como outros seres que habitam a Terra, o fato é que eles não podem ser saciados em sua integralidade, é necessário que a educação dos pais dê os limites, mesmo que estes precisem ser repetidos, advindo da palavra firme e em bom tom do NÃO.

O fato é que os pais estão com dificuldade de dizer não para seus filhos, dessa forma as crianças se sentem “donas do pedaço” e os pais/avôs/professores orbitam ao redor a abanar seus desejos compulsivamente tornando-os mimados e, por vezes, insuportáveis.

É preciso entender que não se pode dizer sim o tempo todo, isso é loucura. A vida não é assim. Ao longo ciclo da vida recebemos mais não do que sim. Seja um concurso para o qual estudamos e não conseguimos passar. Um namorado que nos abandona sem rodeios. Pais que se separam, amigos que morrem… Ao longo do caminho, a gente percebe, às duras penas, que apenas o desejo de que algo aconteça não vai fazer acontecer, é preciso muito mais que isso: será preciso dedicação, estudo, paciência, resiliência. A palavra NÃO tempera e prepara nosso eu interior para os desafios que virão e que não serão poucos.

Os pais, ao não dar limites através do “não pode’, “não vai fazer”, “não agora” criam filhos frágeis emocionalmente e mimados ao quadrado. Ao serem apresentados ao mínimo de frustração, batem o pé, fazem biquinho, se demitem, rompem casamentos ou mesmo se recolhem em drogas, na depressão, na incapacidade de enfrentar a vida como ela se apresenta.

Crianças criadas sem regras e limites criam uma ilusão e dependência familiar de sempre quererem que alguém (pais, professores, avôs…) resolvam suas dificuldades, por serem completamente incapazes de fazê-lo por si mesmo.

É preciso rever nossa forma de educar as crianças. Elas não podem e não devem ter seus desejos 100% atendidos. Diferente das outras crias do reino animal, serão dependentes por um longo tempo da má conduta dos pais que acham lindo e maravilhoso colocar piercing ou mesmo adesivos em dentes para satisfazer o desejo e não frustrar, o que beira aos maus tratos, por vezes confundidos com amor.

Imagem capa: Stocksnap.io

Colunista:

Maria Emília Bottini
CRP nº: 07/08544

Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS);
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF);
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB);
Autora do livro “No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer”;
Assina a coluna “Trocando Ideias” do blog da Clínica Ser Saúde Mental de Brasília.
Contatos:
emilia.bottini@gmail.com.
Página do livro:
Facebook.com/Nocinemaenavidaadificilartedeaprenderamorrer
Clínica Ser Saúde Mental – Coluna Trocando Ideias:
http://sersaudemental.com.br/blog/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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2 comentários

  1. Que esse texto extraordinário!!!! porque é de suma importância e contribui para conscientizar os pais de filhos mimados para assumir a posição autoritária com coragem de dizer Não a pedidos DESNECESSÁRIOS de seus filhos. Gostei da expressão escrita pela Maria Emília tal como “A palavra NÃO tempera e prepara nosso eu interior para os desafios que virão e que não serão poucos.” Mas amo esse assunto.

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  2. Muito pertinente este texto.
    Porém, também acredito que devamos ter mais dados sobre o “piercing” no dente de uma criança de 4 anos… Falo por experiência própria. Minha filha, no auge dos seus três anos, “precisou” colocar um piercing em um dente por conta de um acidente que sofreu. Ela perdeu integralmente um dos dentes da frente e foi colocada uma prótese. Porém está prótese possui alguns grampos que se prendem aos dentes laterais e não favorecem muito seu sorriso meigo. O piercing foi uma alternativa encontrada pela dentista para disfarçar um pouco o estrago… Há dois anos e meio ela faz uso da prótese e do piercing. Cuida dele como algo muito valioso, uma jóia.
    Contudo, as crianças que estudam com ela não sabem os motivos dela ter um piercing, mas acham lindo! Acredito que algumas possam até ter pedido para os pais algo semelhante… E com certeza os pais também ficaram sem entender os motivos que levaram uma criança de 3 anos ter um piercing no dente!

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