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Feridas na alma: Falando sobre Relacionamento Abusivo

A violência a que somos submetidas em um relacionamento abusivo geralmente começa de maneira sutil.

Por: Maicy Rodrigues Araújo

“Mulher que bebe é muito feio”, “Não adianta se fazer de santa que eu sei que não és”, “Por que você tá dançando assim? Estás te expondo ao ridículo!”, “Não pinta o cabelo dessa cor, não corta curto, homem gosta de cabelo comprido”, “Tatuagem? Credo! Não faz!”, “Você tem que me entender, eu só fiz isso por estar passando por um momento difícil”, “A culpa é sua, você me fez agir assim”, “Eu faço isso porque te amo”, “Não te quero falando com fulano e beltrana”, “Você está passando muito tempo com sua família”, “Mulher direita não fica saindo por aí sozinha”, “Ficas ridícula quando faz isso”, “Você me provocou”!

Intermináveis socos na alma, pontapés no coração. Feridas invisíveis aos olhos dos outros, que procuram por sinais de violência física para caracterizar um relacionamento abusivo. Perto de TANTA humilhação, silêncios hostis, diminuição de autoestima, falas carregadas de preconceito e chantagem emocional… De verdade, fico me perguntando se tudo isso não dói bem mais que um tapa na cara.

A violência a que somos submetidas em um relacionamento abusivo geralmente começa de maneira sutil. São comentários “inofensivos” (segundo o agressor) e “brincadeiras”, que ferem emocional ou fisicamente. A tortura é lenta e quando você se dá conta, está em um jogo psicológico e adivinha? A culpada é sempre você. Tudo que acontece tem um único motivo e é você. O desejo de controle do agressor sobre a vítima cresce à medida que vamos concordando e aceitando o que é imposto por ele.

Começamos então a duvidar do que realmente somos e fazemos. “Será mesmo que eu estava falando tanta besteira ontem?”, “Será que essa saia é vulgar e eu deveria andar mais coberta?”, “Acho que realmente, eu posso ter feito papel de boba”, “Melhor eu ficar calada pra não passar vergonha”…nesse momento, começa a pior perda do mundo. A perda de nós mesmas.

O meu ponto de referência passa a ser o outro. O meu eu fica engolido e massacrado de vergonha, críticas e medo. Um medo enorme de perder a única pessoa que ainda se interessa por um ser tão ruim como eu. Afinal, eu sou detestável, mas o outro está me dando uma chance. Nossa, ele deve me amar muito! E quando você acha que pode questionar alguma atitude dele, “você é dramática”, “você inventa coisas onde não tem”!

E aí eu me afasto de tudo que eu acredito, das coisas que eu gosto, das pessoas que eu amo. Deixo de fazer tanta coisa e abdico de outras. Tudo em nome do amor. Tudo porque ele quer meu bem. “E ele é tão bom para mim. Ele nunca me encostou a mão. Mas por que será que eu vivo me sentindo um lixo?”
As pessoas de fora acham tudo tão absurdo, “como ela não percebe que ele a manipula?” “Essa aí gosta de sofrer mesmo”, “nossa, que mulher burra”. E o pior, muitas vezes – e em sua maioria – esses dizeres vem de mulheres.

Se você se identificou com alguma coisa que eu escrevi aqui, é o momento de olhar pra sua relação com mais cuidado e se questionar o que está acontecendo. Pode ser que você esteja vivendo um relacionamento abusivo. Uma das partes mais difíceis, muitas vezes, é assumir isso. Acontece e pode acontecer com qualquer uma de nós. Da mais madura e esclarecida até a mais jovem e sem muita instrução.

Não se culpe, não se cobre. A culpa não é e nunca será sua. E se você conhece alguém que esteja passando por isso, esse alguém precisa da sua compreensão e do seu apoio, não do seu julgamento.

Questione o que te mantém nesse relacionamento. Esse é um momento importante de procurar a psicoterapia e trabalhar o autoconhecimento, resgatar suas potencialidades, se fortalecer e descobrir que sim, uma relação pode ser saudável.

Só não esqueça que para isso, ambos tem que querer a mudança. E infelizmente, nem sempre isso é possível.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Maicy Rodrigues Araújo
CRP 10/03113

Maicy Rodrigues Araújo é Psicóloga, formada pela UNAMA (Universidade da Amazônia). É especialista em Desenvolvimento Infantil pela UEPA (Universidade do Estado do Pará), possui MBA em Gestão de Pessoas pela FACI (Faculdade Ideal) e cursou o Programa de Educação Continuada em Psicopedagogia (ABED). É Aprimoranda em Psicologia Clínica com ênfase na abordagem Gestáltica pelo GEGT (Grupo de Estudos Gestálticos).
Atualmente, trabalha como Psicóloga Clínica e Orientadora Profissional em consultório particular e na modalidade online.
Escreve e administra o instagram @_tododiapsicologia_, com a idéia de levar Psicologia de fácil acesso ao dia a dia das pessoas. Idealizadora do programa OPT (Orientação Profissional para todos), dando palestras gratuitas em diversas escolas no estado do Pará sobre a escolha consciente da profissão.
É de Belém/Pará.

Contato:
(91) 98839-7900 
maicyrodrigues@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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