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Por que assistir a “Hector e a procura da felicidade”?

Reflexões sobre o filme "Hector e a procura da felicidade"

Por: Cristiane Mattos

Já vou logo avisando: se pensa que lerá nas próximas linhas uma crítica de alguém que entende de cinema, pare imediatamente de ler! Não tenho condições de opinar sobre aspectos técnicos da sétima arte, não sou crítica de cinema. Agora, se você, assim como eu, é apaixonado por filmes, e sempre procura neles algo que possa valer o tempo em frente à telinha, então este texto e filme são para você.

Aviso dois: sim, tem algum spoiler por aqui, mas nada que vá tirar a magia de você assistir e tirar suas próprias conclusões. Só para contextualizar, Hector era um cara que vivia uma vida muito satisfatória (ao menos assim pensava ele). Tinha uma rotina programada, seu dia era planejado, a vida corria sem imprevistos e desordens “ele se sentia confortável com seus padrões previsíveis”. Hector era o que poderíamos chamar de um cara sistemático.

A sensação de “estar tudo em ordem e no seu devido lugar” pode transmitir uma percepção de segurança e de estar no caminho certo. Poderíamos dizer que Hector vivia tranquilamente adaptado em sua zona de conforto. Mas algo acontece com Hector e ele resolve buscar saber o que é felicidade. É sobre o que ele encontrou em sua jornada e o que isso me fez refletir que vou falar:

1) Fazer comparações pode acabar com a sua felicidade

Como costumo dizer “a comparação é o caminho mais rápido para a infelicidade”. Temos uma tendência natural de nos compararmos com o outro. Ainda que conheça algumas pessoas que possuem o hábito de disputar pra ver quem sofre mais ou quem é mais doente, na grande maioria, as pessoas se comparam em termos de felicidade e sucesso. E sempre perdem. Em geral acreditam que “a grama do vizinho é mais verde”. O que não é justo, nem com o vizinho, nem com elas mesmas. Você não calça os sapatos do vizinho todos os dias para saber como é a vida dele. Ao se comparar você não reconhece nem valoriza sua própria trajetória, suas próprias lutas e processos. Se você sabe que é único, não há lugar para a comparação em sua vida.

2) Muitas pessoas acham que a felicidade significa ser mais rico ou mais importante

Quanto dinheiro você precisa ter para ser feliz hoje? Pense.

Nossa relação com o dinheiro é uma relação de amor e ódio. Amor a tudo que o dinheiro pode nos proporcionar: coisas que posso adquirir, lugares que posso conhecer, comidas que posso experimentar, conforto, status social. Ódio a tudo que a falta dele pode nos proporcionar: desigualdades sociais, oportunidades escassas, condição social, desvalorização pessoal. Se você acredita que dinheiro e felicidade andam sempre juntos, saiba que o Monge budista Mattieu Ricard foi considerado “a pessoa mais feliz do mundo” pela Universidade de Wisconsin (EUA). Eu disse MONGE, não Sheik árabe.

3) Muitas pessoas só veem a felicidade no futuro delas

São aquelas pessoas que sempre dizem: “Serei feliz quando mudar de emprego!” “Serei feliz quando arrumar uma namorado/a!” “Serei feliz quando for magro/a!” “Serei feliz quando ganhar na Mega Sena!” São pessoas que só serão feliz amanhã, na sexta feira, no ano que vem, porque no hoje estão muito ocupadas em reclamar e só conseguem ver o que lhes falta. Valorizar o que se tem não se resume meramente a ter pensamento positivo. É ter o hábito de ser grato, inclusive pelas faltas, que podem ser molas propulsoras para nosso desenvolvimento. Você só tem o agora, apenas isso é real, o ontem já foi e não poderá ser mudado, o amanhã está por vir e você não pode afirmar que estará nele. Você pode ser feliz agora, é só uma questão de mudar a perspectiva.

4) A felicidade poderia ser a liberdade para amar mais do que uma mulher ao mesmo tempo

Releia a frase acima trocando o termo mulher por homem. E agora? Continua achando bonitinho? Minha ideia não é trazer a questão para a problemática de gênero, mas achei relevante o pensamento. Sabemos que existem muitas formas de amar. Mas o que este tema me traz é a possibilidade de pensar o amor como sinônimo de liberdade, podendo expressar cada um à sua maneira. É a liberdade de reconhecer que mesmo amando uma pessoa podemos nos encantar por outra, e está tudo bem, tudo certo, por que somos humanos e muitas pessoas podem nos despertar interesse. Negar isso é sofrer. Então, cientes de que embora amando alguém não vivemos em uma bolha, podemos sim fazer escolhas, como a monogamia, o relacionamento aberto, o poliamor…

5) Às vezes, a felicidade é não conhecer toda a história

Tenho um casal de amigos que resolveu não saber nada da vida amorosa pregressa um do outro. Nada! A vida à dois começou quando eles resolveram ficar juntos, nada que acontecera antes faz sentido. Vivem bem. Conheço outro casal que se conta tudo, várias conversas longas dos amores fracassados, confidências de alcova, as falhas, os deslizes. Tudo! A vida amorosa deles é um contínuo, onde agora escrevem um capítulo juntos. Vivem bem.

A questão aqui é como você lida com a sua história e a do outro.

6) Evitar a infelicidade não é o caminho para a felicidade

“Acabou o relacionamento? Vire a página! Foi demitido? Procure outro emprego! Caiu? Levanta! Machucou? Não chora! Está triste? Não sofra!”

Que espaço tem o sofrimento na sua vida?

Quem não se permite sofrer não é feliz, porque para ser feliz é necessário haver equilíbrio, aceitação do que se é e do que lhe acontece. E mesmo quando há pesar, a felicidade consiste no processo de ressignificar aquilo que nos aconteceu. Hoje, evitamos a todo custo a dor, o sofrimento. Mal sabemos que apenas acolhendo esta dor poderemos nos libertar do sofrimento.

7) Esta pessoa te deixa predominantemente para baixo ou para cima?

Isso serve para todas as nossas relações. TODAS. Há pessoas que habitam nossa órbita que nos fazem muito mal. São aqueles amigos que nos procuram apenas quando precisam, ou aquele parente que só liga para contar tragédia, ou mesmo aquele colega de trabalho que só reclama. Quando temos um parceiro/a que só nos critica, nos deprecia, fere nossa autoestima, vivemos no nível subterrâneo. Se afaste de tudo e todos que te jogam pra baixo. Procure pessoas que vibram em uma energia mais de alegria, compreensão e vivacidade. Seja você também esta pessoa.

8) Felicidade é responder ao seu chamado

Parece que foi Confúcio quem disse: “Escolha um trabalho que você ama e não terá de trabalhar um dia sequer na sua vida”. Nem sempre conseguimos escolher, fato. Mas não é novidade ver pessoas de sucesso profissional largando suas carreiras consolidadas e indo se dedicar a algo que realmente lhes dá prazer e sentido. Corajoso! Vejo isso cada vez mais! É uma quebra de padrões, é o soltar das amarras, se desprender das correntes e buscar o que mais sintoniza com seu propósito.

9) Felicidade é ser amado por quem se é

Depois de um certo tempo, você não está mais disposto a mudar por ninguém. Você aprende que tentar caber na caixinha de outra pessoa é a maior furada. Não dá certo. É uma violência consigo mesmo. E também abre mão de querer fazer com que o outro seja aquilo que você deseja, aquele desejo de controlar o outro, de fazê-lo mudar a qualquer custo. Se a pessoa que está com você quer te mudar por completo, esta pessoa não serve pra você e nem você pra ela. Se não serve desapega, isso funciona para sapatos, roupas e pessoas.

10) Ensopado de bata doce!

No filme tem um contexto, gente! Mas por aqui posso dizer que a felicidade está na simplicidade das coisas, naquilo que nos é familiar, no carinho que é sua mãe fazer seu prato preferido. A felicidade está em aceitar sua família como ela é, de estar com eles quando possível, de dar atenção e afeto. Preparar uma refeição é um ato de amor, é um carinho, um afago não só no estômago, mas na alma.

11) Medo é um obstáculo para a felicidade

Não se pode ser feliz estando com medo. O medo é inerente à nossa condição humana e faz parte do nosso sistema de sobrevivência. Muitas vezes escutamos que tal criança não tem medo de nada, mas devemos lembrar que o sistema de defesa dela está se desenvolvendo, ele apenas não está calibrado o suficiente para mensurar níveis de perigo. Há duas maneiras de reagir ao medo: ou você paralisa e não consegue fazer nada, ou você enfrenta, mesmo sentindo medo. A maioria das pessoas reage da primeira forma e evita tudo que possa lhe causar esse desconforto. Saber o que é ação de proteção do que é evitação de uma situação que pode lhe gerar oportunidades, é a chave para boas decisões.

12) Felicidade é se sentir plenamente vivo

Recorde por um instante quando era criança e fazia algo pela primeira vez. Pode ser andar de bicicleta. Relembre as sensações invadindo seu corpo na primeira vez que teve êxito. Este é o sentimento de estar vivo! Não é preciso buscar constantemente aprender coisas novas, embora isso é muito bem-vindo, mas é necessário treinar nossa percepção para as pequenas conquistas do nosso dia e nos alegrar verdadeiramente com nossas experiências.

13) Felicidade é saber como celebrar

Você consegue uma vaga de emprego dos seus sonhos. Obviamente fica feliz. No instante posterior começa a pensar se não houve um engano, se realmente a vaga é sua ou se estão lhe chamando para mais uma etapa da seleção. Pensa que alguém deve ter desistido por isso lhe chamaram. Pensa mil coisas que boicotam sua felicidade. Você diminui seu êxito. Você diminui você! Se não reconhecer seu valor e validar a pessoa que é, nem adianta ter o primeiro lugar, receber honras e méritos, você não conseguirá celebrar suas vitórias.

14) Ouvir é amar

Sabe qual é a maior necessidade de todas as pessoas hoje? Sejam elas crianças, jovens, adultos ou idosos? ATENÇÃO! E há maneira mais simples de fazer isso do que ouvindo alguém? Não conheço se há. Ouvir é estar com alguém, é a arte pura da prática da empatia. Ouvir é ofertar o que temos de mais precioso: tempo e presença.

15) Nostalgia não é o que costuma ser

Se quem é ansioso vive no futuro, quem é nostálgico vive no passado. Há uma tendência a uma visão romantizada do passado, ouvimos muito “naquele tempo era bom”, menosprezamos as dificuldade e só lembramos daquilo que nos parecia melhor do que o agora. Será que era mesmo? Será que se colocarmos os prós e contras na balança o passado ganha do presente de lavada? Será que se trouxesse o que viveu antes para o presente daria certo? Quem vive de lembranças não consegue produzir recordações para o futuro.

A felicidade não é um merecimento, não é o aquilo que se deve obter ao chegar ao final de um percurso doloroso. É uma obrigação! Não importa o que lhe aconteceu, não importa o quanto você já sofreu, ou como sua infância foi arruinada. Se você é um adulto que está tendo a oportunidade de respirar, então você tem a obrigação de ser feliz, hoje.

Imagem capa: Filme “Hector e a Procura da Felicidade”

Colunista:

Cristiane Mattos
CRP 12/16070

Psicóloga por vocação. Amante das letras, dos livros, fotografias e pessoas. Escrever é fazer ressoar sentimentos através das palavras.
Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia,
E
specialista em Terapia de Casais e Famílias pelo Centro de 
Estudos da Família e do Indivíduo – Porto Alegre/RS.
MBA em Gestão de Pessoas pela Uniron de Porto Velho/RO.
Contato:
E-mail: mattos.cbm27@gmail.com
Fan page: @relacionamentepsi

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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4 comentários

  1. Prezada Cristiane. Seu trabalho muito objetivo e motivador. Por isso, essas técnicas que você me ensinou me ajudaram a superar algumas dificuldades impassíveis de vencer. Uma dessas dificuldades que tenho foi em controlar a ansiedade pelo futuro. No entanto, para mim, vencer todas as dificuldades parecem inexequíveis. Mas neste oportuno momento, comecei a esforçar por aprender de verdade que a felicidade é nós termos um equilíbrio de vida a qualquer momento. Uma coisa que amo muito é ouvir, porque você falou que ouvir como necessidade humana é quem que estar com outra pessoa. Ás vezes, pensei egoisticamente que “sei mais de que você”. Mas não foi bom, porque poderia causar risco a saúde psicológica. Com certeza, a humildade e a felicidade congruentemente, como primas mais confiáveis, são que ouvir com atenção no que outra pessoa dizer quando ela precisar de ajuda. Mas admiro seu trabalho valorizado. Muito obrigado.

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