Coluna Joscelaine Lima Psicologia e Assistência Social

Dar voz a quem não tem [A Psicologia no SUAS]

Este é o papel da Psicologia: Respeitar a dignidade Humana e garantir direitos!

Por: Joscelaine Lima

Quando iniciei meu trabalho no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) passei por um sentimento de estranheza. Me questionei sobre o que eu, como psicóloga, faria em meio às assistentes sociais, benefícios eventuais, programas de transferência de renda, etc. Já que minha pequena experiência profissional havia sido na Política de Saúde, como Psicóloga Clínica, sendo que, a grande maioria da graduação havia me preparado para o contexto clínico, seguindo as bases teóricas desta modalidade de atendimento.

Esta estranheza se deu pelo fato de que, em primeiro lugar, não atenderia sozinha, mas em conjunto com a Assistente Social. Eu sabia meio por alto sobre esta forma de atendimento, mas, não imaginava como seria na prática. Em segundo lugar, não faria atendimento clínico, visando elaborar as questões emocionais das pessoas usuárias, levando-as à superação de traumas, comportamentos, pensamentos e sentimentos negativos, mas, apenas acolheria no momento, ouviria a angústia desta pessoa e a encaminharia para avaliação de Saúde Mental com um profissional de saúde, se fosse necessário.

Por alguns meses me senti perdida, sem saber como proceder, mas buscando orientação e aprendendo mais sobre a Assistência Social, fui aprendendo a exercer a profissão, lembrando que nós psicólogos somos levados a ver e ouvir o todo, não enquadrando a pessoa em uma determinada forma, mesmo porque cada ser humano é único e sua subjetividade deve ser levada em consideração sempre.

Nesta nossa característica de ver o ser humano como único e com capacidades surpreendentes, me encontrei na função, e estou cada dia aprendendo e evoluindo mais na arte de valorizar o ser humano pelo que é: Humano!

O público alvo da Assistência Social, na maioria das vezes tem capacidade financeira limitada, o que costuma vir junto com a baixa ou nenhuma escolaridade, falta de planejamento familiar, dependência química, vínculos familiares fragilizados (geralmente em decorrência de dependência química em um ou mais membros da família), pouca capacidade de adesão às demais políticas públicas, principalmente da saúde.

Existe também pessoas com condição financeira estável, até alta em alguns casos, que acessam a Assistência Social geralmente por vínculos familiares fragilizados e/ou violação de direitos. Contudo, a maior vulnerabilidade continua sendo econômica, mesmo porque existe a relação direta com o Programa Bolsa Família.

Apesar de trabalhar em um município não tão grande, a realidade das pessoas/famílias atendidas acompanha a realidade do Brasil. Pessoas que não tem sua opinião levada em conta, pessoas que não são ouvidas, chegando a se calarem pelo cansaço de falarem e não serem ouvidas. Pessoas que são invisíveis para os demais setores, invisíveis para a sociedade de poder aquisitivo, pessoas que só são vistas quando “incomodam”. Incomodam ao roubar, vandalizar, assaltar, pedir, parar na frente de um estabelecimento comercial, etc. Aí saem da invisibilidade e passam a ser “intrusos”, causadores de problemas, etc.

Contudo, a administração pública e o setor privado não percebem que, se fosse dada voz e vez a estas pessoas, se elas fossem ouvidas, compreendidas e acolhidas, sentiriam-se parte da sociedade, pertencentes ao lugar onde vivem e tendo os mesmos direitos e oportunidades que os demais, estas pessoas não estariam hoje agredindo, vandalizando e destruindo-se cada vez mais, pois, ao ter alguém que acreditasse nelas, confiasse, desse tempo, atenção e afeto, sentiriam-se como seres Humanos, dignos de viver, conviver e desenvolver-se, não necessitando ter comportamento destrutivo para chamar a atenção para si, para serem notados!

Hoje sei qual é meu trabalho na Assistência Social e amo o que faço: ouvir, acolher, respeitar… oportunizar momentos em que as pessoas que não são vistas, possam ser olhadas, compreendidas e acreditadas, proporcionar a elas espaços dos quais sintam-se pertencentes e dar voz a quem não tem! Este é o papel da Psicologia: Respeitar a dignidade Humana e garantir direitos! Poder fazer isto é muito gratificante e enriquecedor!

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Joscelaine Lima
CRP: 12/14672

Psicóloga clínica, formada pela Universidade 
do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) em 2015.
Atende em São Miguel do Oeste-SC.
Contatos:
Facebook.com/JoscelainePsicologia
Whatsapp: (49) 992028970

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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3 comentários

  1. Joscelaine. As experiências dentro da assistência social que você ganhou são muito importante ajudam muito a reconhecer as situações e circunstancias sociais de pessoas atendidas. Com certeza, sua psicologia e assistência social são fundamentos contributivos concomitantemente e sinergicamente para resolver os problemas de pacientes. As instituições de saúde precisam de psicologia e assistência social para humanizar arte de valorizar o humano e tornar as simpatias irresistíveis e adequadas a pacientes. Mas parabéns!!!!

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