Coluna Maria Emília Bottini Crônicas Reflexões

Crônica: E se cachorros fossem gente?

Uma reflexão sobre as nossas predileções por aquilo que é relevante.

Por: Maria Emília Bottini

Cheguei à academia muito cedo em uma tarde de março, o sol estava de derreter, senti mais porque fui a pé, pois tinha uma nova avaliação para fazer.

Aguardei na porta a tomar um vento e decidi ver a vida passar, enquanto esperei uns breves minutos. Foi neste instante que percebi as cenas do cotidiano de impacientes seres, embora se esteja em um município de tão somente 106 mil habitantes, todos estão com muita pressa. Carros vão e vem, uns a buzinar para a motorista que está estacionando, sem uma dose de paciência para a espera. Que tanta presa? Fugindo ou ao encontro de algo? A morte não é certa?

Foi nesses breves minutos que vi uma senhora de costas para mim a olhar para frente. A senhora era negra e magérrima, de estatura muito pequena, vestia muitos trapos para uma tarde de sol fervendo e usava meia calça grossa; as roupas não estavam limpas, os cabelos desgrenhados que há muito não viam uma só gota de água ou sequer alguma outra forma de higiene. Ela estava parada olhando para frente, não se mexia, imóvel, parada, estática, talvez olhando o nada. Possuía pequenos sacos pretos em suas mãos, talvez todo o seu universo material estivesse ali.

Quando se virou vi seu rosto que aparentava seguramente 200 anos de idade. Idade de maus tratos, de violação da sua condição de humanidade e dignidade, que na minha concepção talvez nunca tenha conhecido ou sentido na pele seus significados.

À sua frente havia um carro parado que havia saído da garagem, pessoas indo e vindo. E outras como eu parada a olhar as várias cenas de alguns poucos minutos em que me permiti enxergar a vida que passava.

Também nessa calçada e próxima ao carro parado estava uma ridícula cachorra vestida de bermudas jeans e blusinha xadrez. Dei-me ao trabalho de olhar para os detalhes e a elegância que tal animal portava, ao contrário da senhora desmilinguida à minha frente. Duas cenas completamente díspares. Ah, também havia em sua orelha um lacinho cor-de-rosa a identificar seu lugar de fêmea no reino animalesco. Era muito pequena e peluda.

Pensei com meus botões: se essa cachorra pudesse falar certamente morderia os donos, tamanha coisa sem graça que se apresentava à minha/nossa frente. Confesso que não gostei do que vi, talvez fosse ilusão de ótica, uma senhora quase nada tinha e uma cachorra que muito tem. Não sou contra o cuidado aos animais de estimação, mas ao exagero da atualidade. Aproximamo-nos dos animais e nos afastamos de nossos vizinhos, de nossos colegas de trabalho, de nossos familiares. Consideramo-los nossos melhores amigos talvez porque não falam e não nos contestam. Estão subjugados a nossa vontade e tem sua liberdade tolhida.

O que chamou minha atenção entre a senhora de 200 anos e a cachorra foi o quanto esta última causou furor na plateia de transeuntes apressados, enquanto a senhora era invisibilizada, ou seja, não existia, ninguém a viu, ninguém a olhou. Será que só eu a vi?

Fiquei pensando nos motivos que nos levam a ver cachorros vestidos e não mulheres maltrapilhas pelas ruas das cidades do meu país.

Talvez precisemos ver coisas ridículas e ridicularizadas porque elas são irrelevantes. Se cachorras pudessem falar diriam da sua triste vida de afagos, banhos, brinquedos, veterinários, passeios no parque, do guarda-roupa novo que a “mamãe” ou o “papai” comprou. Enfim, a sua triste vida de cachorra deve ser um sofrimento só, pois o que menos vive é sua vida em essência.

Enquanto isso, se falássemos com aquela senhora encontraríamos ausências ao longo de sua existência. Faltou-lhe amor próprio, faltou escola, faltou comida, faltaram roupas; faltas e mais faltas que lhe conferem uma vida em que os sulcos no rosto servem para denunciar que o tempo cravou-lhe marcas de profundo sofrimento a lhe envelhecer não só o rosto, mas a alma.

Entre cachorras bem tratadas e senhoras de 200 anos, meus minutos passaram e fui atendida de forma gentil pela professora que me aguardava. Não sou contra nenhum animal, mas eles vestidos, já é demais para minha cabeça. O que tentei expressar é o quanto precisamos rever as nossas predileções pelo relevante. Enquanto humanizamos os animais, desumanizamos senhoras de 200 anos na mesma proporção.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Maria Emília Bottini
CRP nº: 07/08544

Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS);
Professora da Universidade Regional Integrada (URI);
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF);
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB);
Autora do livro “No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer”;
Assina a coluna “Trocando Ideias” do blog da Clínica Ser Saúde Mental de Brasília.
Contatos:
emilia.bottini@gmail.com.
Página do livro:
Facebook.com/Nocinemaenavidaadificilartedeaprenderamorrer
Clínica Ser Saúde Mental – Coluna Trocando Ideias:
http://sersaudemental.com.br/blog/

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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