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Sobrepeso e a dor silenciada

"Emagrecer" vai muito além de vaidade e estética, há que se entender o que se passa naquele corpo, como se cuida dele, quanto se alimentar é importante e o quanto nutre a sua vida, seja de nutrientes ou afetos.

Por: Mariana Pavani

Pessoas que sofrem com a obesidade costumam sofrer com intenso mal estar, seja por um corpo pesado, doenças decorrentes do sobrepeso, olhares de apontamento e julgamento, entre outras vivências de dor constante. O mercado capitalista atual acaba lucrando com tamanhas insatisfações, assim são vendidos ideais de completude e “fórmulas mágicas” que acabam por gerar uma intensa frustração nos consumidores, afinal se é tão simples emagrecer, por que não conseguem? Será que uma vida perfeita seria alcançada quando um corpo perfeito for obtido?

Diante da insatisfação, do sentimento de incompletude e da distância do alcance dos
ideais impostos pela sociedade, seria uma saída aceitar o mal-estar e repetir comportamentos que acabam por reforçar o problema? Viver num piloto automático, com eterno sentimento de desistência de si?

Não só o corpo então é alimentado pela comida, mas os vazios, inseguranças, sentimento de rejeição de si mesmo. Há uma dificuldade em digerir os alimentos, sentir o gosto, experienciar as sensações de cada mordida, o que se repete na vida cotidiana. Talvez seja difícil assumir quem se é, as responsabilidades, desejos e lutar por eles. Há uma anulação completa de si, então vivem sob os moldes de alguém que agrada os outros, mas se cala, engole sapos. Moldes tão intensos que talvez a forma corporal se veja sem um contorno, muito escondida nas camadas de gordura.

O comer compulsivo provoca culpa, asco, “ressaca moral”, auto crítica, tudo o que a pessoa já sentia sobre si, mas que o ato de comer desenfreadamente torna concreto. Com base em Freud se pode buscar uma compreensão sobre o sentido dos atos impulsivos do comer e da voracidade na ação, remetendo a compulsão a uma falha do ego na repressão de um impulso instintual indesejável. O impulso instintual encontrou um substituto, no caso, a comida. Os sintomas criados pelo sujeito, como o sobrepeso e insatisfações corporais, mantém de alguma forma a sustentação do falso self, por isso são comuns casos em que pacientes se submetem a cirurgia bariátrica e se tornam agressivos e com uma personalidade mais explosiva. Talvez essa era uma questão muito maquiada neste ser e escondida nas camadas de gordura que o protegiam.

Pacientes obesos conhecem uma série de dietas e técnicas para emagrecer, mas apresentam uma grande dificuldade em aceitar as mudanças e abrir mão do gozo constante em comer, e reduzir a frequência deste gozo na ingestão de alimentos hipercalóricos. Lidar com regras talvez não seja fácil, pensando a questão de ordem e lei pode se pensar sobre uma figura paterna ausente na vida desses pacientes.
Há certamente um ganho secundário para a manutenção do quadro da obesidade, como fuga de possíveis situações como uma vida sexual ativa, maternidade, entre outras formas de se manter “no casulo seguro” dos quilos a mais e evitar o confronto com o desprazer.
Muitos pacientes desenvolvem o ganho de peso ao longo da vida, até chegar a um quadro de obesidade, o que evidencia uma vida marcada por conflitos não resolvidos, dificuldades em pensar e lidar com as cobranças da vida. Vão então se adaptando à dor, ao silêncio e cada vez mais reclusos em si, evitando conflitos.

Parece haver um vazio de subjetividade por trás do diagnóstico da obesidade, assim o paciente se torna um alguém tão genético com suas marcas da sexualidade apagadas pelos excessos corporais. Falta um colorido desejante, ao mesmo tempo em que impera intensa agressividade contra si mesmo.
Quando falamos em realização pelo caminho mais curto, tentativas de emagrecer com bases cirúrgicas os medicamentosas, podemos pensar sobre certo alívio destrutivo, afinal o modo de gozar daquele sujeito se encontra obstruído.

“Emagrecer” vai muito além de vaidade e estética, há que se entender o que se passa naquele corpo, como se cuida dele, quanto se alimentar é importante e o quanto nutre a sua vida, seja de nutrientes ou afetos.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Mariana Pavani
CRP 06/136363

Psicóloga psicanalítica clínica.
Formada pela Pontifícia Universidade católica de Campinas 
e cursando especialização em psicanálise pelo CEFAS.
Atendimento clínico em Campinas-SP.
Autora do Instagram @psicanalisetododia
Contato:
E-mail: marianapavani@gmail.com
Celular: (19)997538573

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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