Coluna Andréia de Sousa Leite Psicologia e Maternidade/Paternidade

Em que lugar da casa a criança deve dormir?

Tanto apego e cuidado na relação mãe-filho, devem diminuir seu grau e intensidade, à medida que a criança vai crescendo e ganhando certa independência, pois, essa postura ou mudança de postura dos pais, servem tanto para preservar a conjugalidade e intimidade desses enquanto casal, como também proporcionar ao filho o desenvolvimento de uma base emocional sólida.

Por: Andréia de Sousa Leite

É bem verdade que tal pergunta parece um tanto provocativa, mas afirmo que a ideia é essa mesmo: mexer com quem está quieto.

É comum na escuta clínica como terapeuta de crianças e famílias, ou mesmo no senso comum, ouvir pais comentarem que seus filhos ainda dormem em seu quarto, e por vezes, dividem a cama com o casal. Também é sabido que os primeiros dias e meses de vida da criança demandam muito dos pais, especialmente da mãe, que precisa entre outras coisas acordar e levantar duas, três, quatro ou cinco vezes para trocar, acalentar e principalmente amamentar seu bebê, então, já que peito, mãe, bebê e cama estão todos ali no mesmo canto, por que não dormir logo todo mundo junto?

Porém, é muito importante lembrar, que na cama há uma terceira pessoa, nesta feita o pai, e aqui, vale destacar um preceito da psicanálise infantil que diz: para a mãe seu bebê é um pedaço dela, e para o pai é uma terceira pessoa. Vale também pontuar, que a princípio o homem não entende muito bem toda essa mudança e força, que marcam a relação mãe-bebê.
Tanto apego e cuidado na relação mãe-filho, devem diminuir seu grau e intensidade, à medida que a criança vai crescendo e ganhando certa independência, pois, essa postura ou mudança de postura dos pais, servem tanto para preservar a conjugalidade e intimidade desses enquanto casal, como também proporcionar ao filho o desenvolvimento de uma base emocional sólida, em que a criança pouco a pouco comece a compreender que ele e sua mãe não são a mesma pessoa, e que até já consegue suportar alguns momentos de ausência, por exemplo, durante a noite na hora de dormir, e também, já consegue suportar algumas frustrações e até mesmo seus medos, que no caso de crianças, muitas vezes, são apenas frutos da sua fértil imaginação e não de sua realidade propriamente dita.

Quanto à participação do pai no processo de cuidado do filho, cabe o compartilhamento de forma efetiva, pois essa atitude terá reflexos tanto no seu relacionamento conjugal, ao fazer um corte na relação mãe-bebê que, caso não tenha uma interdição, poderá evoluir para o que chamamos de “relação simbiótica”, que constitui o apego da mãe com o filho um tanto exagerado, podendo produzir efeitos desfavoráveis tanto para a mulher, que de certa forma se fecha para seus demais papéis, vínculos e atividades, como também para o filho, que tem sua autonomia e desenvolvimento emocional e psicológico comprometidos. Assim, cabe ao pai a tarefa de “se intrometer” nessa relação, por exemplo, à noite após o carinho e afago ofertados ao filho, o pai o encaminha de volta para o seu berço, cama, rede ou mesmo para o seu quarto. Detalhe aqui, é que esse movimento depende da idade, condição econômica e dinâmica familiar, que varia de caso para caso, mas importante mesmo é a compreensão dos pais quanto à necessidade de estar fazendo pequenos movimentos rumo à preservação da privacidade, tanto do casal quanto da criança, que segue em pleno processo de desenvolvimento.

Do ponto de vista psicanalítico, a atitude paterna de levar ou retornar o filho “para dormir no seu canto”, serve como uma leve instrução de pai para filho ao dizer: tudo bem, você já recebeu o carinho dela, agora é a minha vez!
Claro que essa mensagem se dá de uma forma simbólica, e nunca sob a égide de uma competição, pois quando o pai participa da relação de cuidado do filho, esse também recebe uma mensagem da criança, que o fala ainda que sem palavras, a seguinte expressão: tudo bem, tem mamãe pra todo mundo!
Todo esse manejo dos pais para com o filho propõe um ambiente familiar em que todos crescem: o casal, que vivencia de uma forma saudável a chegada do filho, a mãe que após um período de intenso cuidado, que quase “a grudava ao filho”, passa a compreender que ele pode e deve crescer, e assim, “se voltar” para o que ficou para trás ou em stand by com o nascimento da criança, como por exemplo, seu trabalho, seu corpo e por vezes seu marido. Também cresce o pai, que passa a reconhecer a criança como algo seu e um “aliado” na sublime tarefa de amar aquela linda mulher, e por fim, a criança que vai ganhando liberdade e espaço para desenvolver sua autonomia, e certamente demarcar seu canto no mundo, ou porque não dizer “seu lugar ao sol”.

Referências:
SANTOS, Edna Maria Silva. A MATERNAGEM E SUAS VICISSITUDES: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A SAÚDE PÚBLICA. 2006
SANTOS, Edna Maria Silva. A clínica da intervenção precoce. 2008.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Andréia de Sousa Leite 
CRP-22/0699; CRP-21/ISSO 008

Psicóloga clínica, com Formação básica em psicanálise e Clínica da intervenção precoce; Formada pela Faculdade Santo Agostinho-FSA (Teresina-PI), especialista em Terapia cognitivo-comportamental; Atende nas cidades de Teresina-PI e Timon-Ma; Atualmente trabalha no Cmam-Centro de atendimento multidisciplinar infantil e no Nasf-Núcleo de apoio a saúde da família; Ampla experiência nas áreas de Saúde pública, saúde mental e atendimento materno-infantil e familiar. Colunista do site Sucesso pede mais – (http://sucessopedemais.com/) com publicação de textos relacionados ao tema: Desenvolvimento infantil e relacionamento parental; Coach palestrante nas áreas de comportamento infantil e relacionamento familiar. Psicóloga voluntária nas Ongs- Centro Débora Mesquita e Grace Contato Esperança. Supervisora clínica.
Contatos: 
e-mail: andreia-milk@hotmail.com
Telefone (whatsapp) -(86) 98874-1168/99988-9099

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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