Coluna Cris da Rocha Reflexões

Quem disse, Martha?

Quem disse que a gente precisa acordar todos os dias e se sentir feliz, plena, satisfeita com o mundo?

Quem disse que a gente precisa acordar todos os dias e se sentir feliz, plena, satisfeita com o mundo? A contemporaneidade traz um monte de receitas prontas para que sejamos as pessoas mais felizes. E todos os dias. Diz também que alegria é a forma de se viver e que ela traz inusitadas sensações boas pro corpo e pra mente. Até acredito.
Ser uma pessoa alegre e feliz traz grandes benefícios pro ser humano. Mas ninguém consegue ou é obrigada a ser feliz todos os dias. Se tiver um ser humano que consiga me conte, será uma descoberta e tanto.

Problemas cotidianos… Ônibus que demora, pneu que fura, carro que dá pane em pleno engarrafamento, situações difíceis no trabalho, filhos que adoecem ou chegam ao mundo num momento de desemprego, amigos que se vão e familiares também. Falo aqui da morte mesmo. E os dias vão passando e um acúmulo de situações mal resolvidas vão se acumulando na cabeça e no corpo das pessoas.

As doenças que chegam, os diagnóstico que a gente esperava pro nosso vizinho e não pra nossa família ou pra nós mesmos. Ainda assim, somos obrigados a demonstrar força e felicidade. Nunca se falou tanto em meditação, yoga, massagens, medicamentos, atitudes positivas para que a humanidade fosse diariamente feliz. Poucas pessoas choram hoje em dia. É praticamente feio chorar, sinal de fraqueza, sinal que você não está conseguindo segurar a onda ruim que chega. Mas que também se vai.

O tempo todo temos que mostrar uma fortaleza que não cabe a ninguém conseguir dar conta o tempo todo. Quando acordamos e sentimos algo desagradável, logo pensamos que o dia vai ser bom, que vamos conseguir superar e nada nos impedirá de realizar as coisas do dia presente. Há quem fique “Mantrando”: “Hoje eu só quero que o dia termine bem.” Frase de uma música até gostosa de ouvir, mas que ainda assim não resolveria a questão da felicidade. Da alegria diária. Já ouvi pessoas dizendo que acordam todos os dias alegres. Que a alegria faz parte do cotidiano. Parabéns, a maioria das pessoas são humanas e tem sentimentos que até Deus dúvida. Não estou sendo pessimista, nem sou. Sempre procuro olhar pelo melhor lado, mas acho cruel que tenhamos que ser as pessoas mais felizes e realizadas todos os dias.

Mas o mundo não acabou. Calma! Quando falo dessa maneira é porque estamos vivendo como que com uma ordem: Seja feliz todos os dias. E isso pode se tornar um peso, porque há dias que nossa cara não está boa e chegamos até achar que estamos doentes. Nem sempre é doença, mas uma reação de sentimentos que também faz parte da espécie humana. Porque é tão feio sentir ódio? Raiva? Medo? Porque segundo a nossa história cultural e social, sentir medo e tantas outras emoções é feio. Feio é tirar um monte de selfies maquiada, linda e poderosa, mas por dentro se sentindo um nada. Fotografar uma família linda e sua base não está sólida. Ou estar em um grupo de amigos e estar sofrendo ou sentindo uma tristeza tamanha e não poder falar nada porque todos estão numa vibe de felicidade total.

Não sei onde a sociedade irá parar. Parece que as pessoas estão ficando mais doentes pelo fato de não serem elas mesmas. De serem quem realmente são e sentir as emoções como elas se apresentam no momento da vida. Ser autêntico no sentido de se colocar no mundo, como se quer, se consegue e se pode ser. Sem perder a esperança, a alegria e de ter a consciência de que a cada dia será uma experiência nova e só seremos realmente felizes se a autenticidade em viver faça parte da nossa mais profunda existência. Não é saudável ser e demonstrar ser o que não se é.

Olhar o mundo com coragem. Chorar o choro da tristeza que se sente no dia. Falar do que se sente. Se recolher, quando há necessidade…

Sorrir não somente pra fotos, mas sorrir para a vida, para os filhos, para os amigos quando a sua emoção pede isso. Quando isso sai lá das vísceras. Quando se faz pelo desejo de sentir alegria e não para se mostrar forte diante dos outros. Não adianta a gente passar os anos tentando mostrar um lado da gente que não existe autenticamente.

A vida traz pra cada um momentos bons e momentos difíceis. Amores e desamores. Há dias mais plenos e dias nublados e com muita chuva e a gente nem quer colocar a cara pra fora. Respeitar-se é a mais bela atitude. Olhar pra si e procurar o melhor caminho pra sermos na vida é realmente magnífico. Chega de viver como um robô. A vida não é tão complicada, as cobranças para sermos quem não somos todos os dias, podem fazer com que sejamos alguém que não somos de verdade a vida toda.

Quer voar de parapente? Voe. Perdeu um amor e seu coração está magoado? Expresse sua dor. Está triste por algum motivo? Viva este momento. Depois retoma. Acha que o dia está puxado, se esforce, dê seu melhor, mas seja você. Quer ficar deitada num sábado ensolarado? Fique. Seja dona ou sono das suas emoções. Companheira ou companheiro dos seus desejos mais profundos. Não deixe que ninguém guie seus pensamentos, seus sentimentos e suas ações. Seja tua melhor amiga ou amigo.

Quando a gente percebe o quanto perdemos sendo alguém que desenharam pra nós, a gente se torna livre e, sendo livre, podemos ser responsáveis por nós, sem culpas e apenas sendo aquilo que queremos, dando nosso melhor pra nós e pra quem entender e quiser compartilhar da nossa forma de viver.

Seja Feliz! Mas seja você em primeiro lugar.

Imagem capa: Pexels

Colunista

Ana Cristina Vieira de Souza
(Cris da Rocha)

São Gonçalo – RJ
Professora d0 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental;
Formada desde 2007 em Pedagogia;
Especialização em Educação: Orientação Educacional, Supervisão e Administração Escolar, 2008;
Já atuou como Orientadora Educacional na rede pública de Ensino do Município de Itaboraí do 1º ao 9º ano;
Trabalha com crianças e adolescentes no Projeto Sala de Leitura, onde atua como professora de Literatura, estimulando crianças e adolescentes ao desejo e hábito de ler.
Atualmente é estudante do curso de Psicologia nas Faculdades Integradas – FAMATH, em Niterói.
Contato: prof-anacris@hotmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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