Coluna Ane Caroline Janiro Psicologia e Maternidade/Paternidade

O tabu dos “sentimentos proibidos” na maternidade

Uma mãe deveria se sentir livre para falar de seus sentimentos, de seus cansaços, medos, frustrações, desânimos. Tudo isso sem o medo de ser recriminada ou rotulada de ingrata. Sem o medo de se sentir menos mãe ou uma mãe ruim. 

Por: Ane Caroline Janiro 

Você sempre quis ser mãe, planejou tudo, passou muito tempo imaginando como seria esse momento até que chegou a hora! Cada tentativa sempre cheia de muita expectativa e então foi aí que veio o “positivo”. A gravidez aconteceu, seu tão sonhado bebezinho nasceu e, enfim, toda aquela explosão de amor e de sentimentos mágicos não aconteceu pra você logo de cara! “Mas o que é que tem de errado comigo? Eu deveria estar plenamente feliz”, você deve estar se martirizando. E eu te respondo: nada! Absolutamente nada de errado com você! Isso não quer dizer que você não ame seu filho ou que você não o queira, apenas que para você a coisa não foi assim tão instantânea. Na verdade para muitas e muitas grávidas e mamães esses sentimentos não surgem de forma tão automática assim como estamos acostumadas a ouvir desde sempre.

Quando me propus a falar mais por aqui sobre maternidade, um dos depoimentos e sugestões de tema dizia exatamente sobre essa experiência: “Hoje eu amo minha filha com um amor que não posso medir, mas assim que ela nasceu, não senti toda aquela coisa mágica que pensei que sentiria. Nem durante a gravidez eu senti isso da forma como sonhei que fosse e eu tinha muita vergonha de falar isso para as pessoas. Aliás, eu nunca falei disso para ninguém, porque me sentia muito culpada… além de não sentir esse amor logo no início, ainda me sentia muito triste, cansada, desanimada. E eu tinha vergonha porque sempre desejei muito ser mãe, é como se eu fosse uma ingrata. Fiquei com muito medo de ter depressão, essas coisas.”  

É tão importante que consigamos chegar ao ponto de falarmos sem julgamentos sobre esse turbilhão de emoções tão complexas na gravidez, puerpério e maternidade! Olhar com mais cuidado para a saúde emocional dessas mulheres não quer dizer apenas que precisamos ficar atentos aos sinais de uma depressão gestacional ou pós parto – isso também, claro! – mas acima de tudo, quer dizer que precisamos tirar nossos pré-conceitos de campo e tentar compreender o que se passa com cada uma, individualmente. Saber compreender que se uma mãe (ou grávida) não está vivenciando um “conto de fadas de sentimentos” não significa que há algo de errado com ela e fazê-la pensar isso só lhe retira as possibilidades de viver a SUA própria maternidade, de experenciar e compreender essas emoções e de elaborar tudo isso de forma saudável.

Cada uma irá viver a gestação e a maternidade de uma forma diferente e isso vai acontecer também de forma diferente em cada gestação que uma mesma mulher vivenciar.

Tanto a gravidez quanto o puerpério são momentos de grande influência de hormônios sobre as emoções, e isso pode sim fazer com que a mulher se sinta de uma maneira que jamais imaginou quando pensava em ser mãe. Entretanto, não são somente os hormônios os “vilões” dessa montanha russa. Acredite, quando há uma rede de apoio, ouvidos sem julgamento, mãos dispostas a ajudar, menos dedos apontados, trocas de experiências construtivas, tudo pode ficar bem mais simples. Acolhimento é a chave!

Uma mãe deveria se sentir livre para falar de seus sentimentos, de seus cansaços, medos, frustrações, desânimos. Tudo isso sem o medo de ser recriminada ou rotulada de ingrata. Sem o medo de se sentir menos mãe ou uma mãe ruim. 

Vivenciar isso e compreender que você não precisa sentir tudo da mesma forma que outra pessoa te liberta do peso, da culpa.

Precisamos tentar desconstruir esses tabus de que uma mãe – especialmente as que desejaram muito ser – precisam estar sempre plenas e felizes e que não podem falar sobre suas experiências negativas em relação à maternidade! Somente pelo fato de ouvir que outra mãe já passou por isso, muitas mulheres já conseguem se sentir confortadas e é por isso que temos sim que falar mais.

É claro que a maternidade é maravilhosa, mas já traz consigo muita responsabilidade, muitas mudanças e ansiedades. Precisamos tirar mais esse peso das mães: de precisarem engolir para si mesmas os sentimentos menos romantizados dessa fase, acreditando que se eles existem, é porque certamente algo de errado está acontecendo.

Lembrando que sim, muitas mãe acabam desenvolvendo a depressão ou outros transtornos neste momento e o fato de poderem contar com essa rede de apoio que mencionei irá ajudar para que esse quadro seja percebido a tempo. Uma mãe que desenvolve depressão também precisa ser acolhida, cuidada e não julgada, já que não escolheram se sentir deprimidas.

Que cada vez mais as mulheres consigam falar sobre suas experiências (que são tão únicas) sem se sentirem envergonhadas ou culpadas por suas próprias emoções.

Imagem capa: Pexels

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Sobre a autora:
Ane Caroline Janiro
Psicóloga clínica, Fundadora e Administradora do Psicologia Acessível.
É casada, mamãe do Lucas, escreve sobre Psicologia, Maternidade, Família…
Instagram: @carolinejaniro

 


*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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